A soft skill que ninguém está falando sobre


LG Lo-Buono 4 minutos de leitura

Tenho pensado com frequência sobre os pontos de tensão quando me deparo conversando ou treinando alguém em temas ligados à diversidade e inclusão. A receita é a mesma, só muda de endereço: uma bela porção de incômodo, uma colher de disposição em entender mais sobre aquilo e uma dose opcional de “a empresa me obrigou a olhar para isso”. A gente fica ali mexendo, refazendo, misturando, mas de alguma forma o resultado final nunca fica exatamente como a pessoa imaginava.

É que existe aquele ingrediente usualmente ignorado.

Talvez ignorado por displicência minha, confesso, ou de tantos de nós que trabalham com diversidade e inclusão. Talvez precisemos colocá-lo com mais clareza no topo da lista, ou aumentar sua quantidade. E, talvez, as pessoas precisem seguir mais à risca a orientação sobre seu uso.

Tem faltado coragem.

Se há algo central em gerar mudanças em diversidade e inclusão é que diremos e faremos coisas que não cairão bem.

Se coragem fosse uma skill, acho que deveríamos renomeá-la pra soar mais sexy e o mundo corporativo comprar a ideia. A gente tinha que chamá-la de guts e, voilá! A soft skill de nossa era é a guts acting.

Porque é exatamente nesse ponto, na falta de guts, que usualmente se encontram os pontos de tensão no caminho entre o desejo de “fazer diversidade” e o sentimento de realização plena por tê-lo conseguido.

Tem faltado coragem para assumir a própria ignorância, no sentido de ignorar conhecimento mesmo (vamos ser adultos aqui!). Sem essa coragem, seguiremos numa torre de babel de ecos sobre crenças antigas e auto engrandecimento que não adiantam em nada a evolução do diálogo.

Tem faltado coragem para estudar. Estudar mesmo, igual a gente fazia na escola. Ler mais, ver mais, com aquela cabeça de estudante de primeira viagem. Não falta tempo, porque tempo é recurso que a gente escolhe de forma bem consciente e finge que não, só para alimentar nossa própria falta de coragem.

APRENDER E REAPRENDER

Falta coragem para pedir desculpas. Não essas públicas, em notas de repúdio semi-idênticas usadas em redes sociais em crises de imagem organizacional. Digo as desculpas individuais, ali, um a um. De algo dito de forma não intencional, mas que ofendeu, oras! De algo feito de forma não proposital, mas que não caiu bem!

Se há algo central em gerar mudanças em diversidade e inclusão é que diremos e faremos coisas que não cairão bem – mas seguimos sendo humanos, e a gentileza em reconhecer o erro continua sendo tão importante quanto era quando aprendemos isso ainda crianças.

Falta coragem para sair em defesa. Você não precisa se tornar o novo herói da empresa para deixar de ser aquele que nada faz. Tem um amplo espectro aí no meio.

Falta coragem para apontar um comportamento ofensivo, para chamar aquele colega de canto, para escrever uma mensagem para aquela pessoa que disse algo preconceituoso na reunião, para oferecer o ombro e a escuta àquele par que relata um possível assédio moral, que se incomodou com uma piada ou não entende por que segue não sendo promovido.

Você não precisa se tornar o novo herói da empresa para deixar de ser aquele que nada faz. Tem um amplo espectro aí no meio.

Aliás, tem faltado coragem para aprender com o outro. Com a outra. Com outres. O medo das diferenças tem gerado uma inércia complicada, esquisita e um pouco injustificada – afinal, você conversou com pessoas a sua vida toda. Interagiu, socializou, se relacionou. Se estava fazendo algo errado, ou simplesmente não estava fazendo as perguntas certas, coragem: você ainda fala português e vai saber fazer isso. Se não souber, coragem: dá para reaprender, mas tem que ir para a arena.

Por fim, tem faltado coragem para fazer. Bastante, aliás. Conheço pessoas que passam um tempo impressionantemente admirável em processos de leitura e estudo, em treinamentos corporativos e conversando com amigas no bar a cada oportunidade que têm para chorar as pitangas de “como é difícil fazer diversidade no trabalho”.

Tem só um ingrediente que diferencia essas pessoas das que estão efetivamente construindo ambientes de trabalho mais inclusivos: coragem.

Você pode testar isso, se quiser. É só encontrar qualquer profissional em posição de tomada de decisão e perguntar a esta pessoa o que a levou a implementar determinada ação, a contratar determinada pessoa, a cobrar determinada iniciativa. A resposta será, categoricamente: “porque eu sabia que era o que eu tinha que fazer, e pronto.” Vá mais a fundo e pergunte a ela se foi algo fácil. E você enxergará coragem bem diante de seus olhos.

Em pouco mais de 10 anos, a gente já está quase caminhando para que diversidade e inclusão se torne uma espécie de commodity. Existem consultorias em tudo que é lugar, não faltam pessoas para “te ensinar”, não falta conteúdo para ler, ouvir e compartilhar, não faltam treinamentos, ou palestras, ou grupos de afinidade para participar. Já não faltam nem metas, OKRs e KPIs, a essa altura do campeonato.

Você já sabe o que falta.

E essa é a soft skill que temos precisado reaprender, urgentemente.


SOBRE O AUTOR

‘LG’ Lo-Buono é especialista em DE&I para organizações, diretor geral da iO Diversidade e fundador da consultoria Pulsos. Trabalha... saiba mais