Se você como eu, tem mais de 45 anos, talvez, ou melhor, com certeza, percebeu que gradativamente as marcas, em sua maioria, pararam de falar conosco. Muitos produtos não são mais feitos para nós e de alguma maneira nos tornamos invisíveis. O que é bastante curioso, pois mulheres acima de 50 anos, tem um poder aquisitivo maior que faixas etárias mais jovens e estão dispostas a consumir produtos com foco em qualidade de vida, para viver mais e consequentemente consumir mais.

Estudos mostram que a expectativa de vida é cada vez maior. Passamos de 43 anos para 76 anos, o que significa que no Brasil estamos falando de 55 milhões de pessoas acima de 50 anos segundo o IBGE. Ou seja, 1 em cada 4 habitantes no Brasil está dentro dessa faixa etária.

“Não se trata de oferecer produtos e serviços que me façam sentir jovem. Se trata de oferecer produtos e serviços que atendam aos desejos e aspirações de uma mulher de 47 anos e que vive cada vez mais em um ambiente absolutamente digital”

De acordo com a 2ª Edição Pesquisa Oldiversity Impactos da Longevidade e Diversidade para marcas e negócios do Croma Group, 85% das pessoas estão preocupadas em como se manter no futuro e 63% investem em qualidade de vida. Se por um lado, as empresas pensam em falar cada vez mais com as jovens consumidoras e tornando-as leais para que possam consumir seus produtos por muitos anos, com o aumento da longevidade, muitas consumidoras invisibilizadas podem também consumir por muitos anos.

Ainda de acordo com o estudo, 70% passam a admirar mais as marcas que abordam sobre longevidade. 65% consideram marcas que abordam longevidade nas próximas compras e 64% passam a recomendar as essas marcas. No que diz respeito às campanhas, 61% das mulheres acreditam que as propagandas ajudam a criar uma sociedade mais tolerante à diversidade.

Existem alguns livros que abordam a questão da longevidade e o consumo: The Longevity Economy de Joseph F.Coughlin é um deles. Ele traz inúmeras reflexões de como a indústria deveria atender a esse público que demanda experiências diferentes, produtos personificados para seu momento de vida e sem o olhar clichê do jovem para o mais velho, mas simplesmente o entendimento de quais são suas aspirações e necessidades.

“Mulheres acima de 50 anos têm um poder aquisitivo maior que faixas etárias mais jovens e estão dispostas a consumir produtos com foco em qualidade de vida, para viver mais e consequentemente consumir mais”

Isso aliás, é bem importante de ser pontuado. Não se trata de oferecer produtos e serviços que me façam sentir jovem. Se trata de oferecer produtos e serviços que atendam aos desejos e aspirações de uma mulher de 47 anos e que vive cada vez mais em um ambiente absolutamente digital. E falando em digital, esse é um outro recorte que não pode ser esquecido. De acordo com um estudo da Kantar Ibope, 75% dos idosos com acesso à internet fizeram alguma transação on-line no ano passado. Com a pandemia, a aceleração digital, principalmente em pessoas acima de 50 anos foi exponencial. Foi preciso aprender a se digitalizar e uma vez feito esse processo, não existe retrocesso.

Quantas marcas poderiam estar dialogando comigo, me oferecendo produtos e serviços, conquistando a minha lealdade? Muitas! Mas parece que para algumas marcas, mulheres como eu são invisíveis. Faz 3 anos que decidi deixar meus cabelos grisalhos e dois comportamentos me chamaram a atenção:

  1. Pessoas me perguntando por que eu estava fazendo aquilo comigo. Como se fosse uma punição não tingir os cabelos. Deixar os cabelos grisalhos é libertador. O que era considerado desleixo, ou falta de vaidade, vai tomando uma nova perspectiva. É a ressignificação da beleza. E com essa ressignificação, quanta inovação pode ser gerada? Quantos novos produtos podem ser lançados para atender necessidades diferentes? A famosa “jornada de consumo” vai evoluindo, mudando, transformando e as empresas que entenderem isso, podem capturar alguns dos trilhões de dólares que a “economia cinza” movimenta anualmente.
  1. Eu deixei de consumir tinturas de cabelo e comecei a buscar produtos que pudessem cuidar de cabelos grisalhos. Para minha surpresa, pouquíssimos produtos disponíveis, mesmo com a quantidade de mulheres assumindo seus cabelos grisalhos. E ao mesmo tempo uma concorrência sem fim de produtos para quem tinge o cabelo. Não é uma questão de ou uma coisa ou outra, mas sim de uma coisa e outra. Proporcionar muito mais opção para uma demanda que existe e que ainda tem um potencial de crescimento. As marcas podem sair do famoso “red ocean” e entrar no “blue ocean”, ou seria o “grey ocean”?

Tudo isso me faz refletir sobre uma invisibilidade que impacta automaticamente o crescimento de muitas marcas e empresas considerando real potencial de consumo dessa população:

– Diferenciação de produto

– Entendimento de linguagem

– Mais do que serviços, experiências

– Engajamento digital

– e-Commerce

Então fica aqui a o meu convite. Contratem pessoas acima de 45 anos, criem produtos e experiência, sejam relevantes, não subestimem a potência digital. Existe um “oceano cinza” incrível a ser desbravado!

Este texto é de responsabilidade de seu autor e não reflete, necessariamente, a opinião da Fast Company Brasil

SOBRE A AUTORA

Daniela Cachich é vice-presidente de marketing da PepsiCo Foods Brasil, com passagens anteriores pela Heineken e Unilever. Foi eleita Women to Watch, conquistou o prêmio Caboré como Melhor Profissional de Marketing do país e foi eleita Profissional do Ano pela Associação de Marketing no Varejo. É mentorada pelo Instituto Brasileiro de Governança Corporativa, visando aumentar o número de mulheres em conselhos de administração.