Em meados do século 19, o Barão Hausmann colocou Paris abaixo e construiu a cidade que conhecemos hoje, de avenidas largas e arborizadas, prédios baixos, com fachadas claras e grandes praças e parques públicos. Neste processo, ele transformou a cidade num canteiro de obras por 20 anos e demoliu mais de 19 mil casas. Hausmann não se preocupou com os transtornos para os moradores ou com os despejados dos imóveis demolidos, pois só tinha que prestar contas a uma pessoa: Napoleão 3º, governante autoritário que queria uma cidade sem os problemas de saneamento e as epidemias que haviam custado milhares de vida nos anos anteriores. De quebra, o imperador queria um lugar mais fácil de governar, sem as ruelas da cidade medieval, onde as forças de segurança teriam mais facilidade para reprimir revoltas populares.

“Os Jogos Olímpicos que serão realizados em Paris em 2024 serão a vitrine dessa nova visão, mais sustentável em termos ambientais e mais diversa e inclusiva em termos sociais.”

Hoje os tempos são bem diferentes. O planejamento urbano, embora necessário, não pode levar em conta apenas a visão do governante da vez – não importa se está bem intencionado ou quer beneficiar os amigos. Em tempos de democracia e de alternância no poder pelo voto, é preciso convencer e conciliar os interesses dos moradores e outras forças em atuação na cidade, muitas vezes divergentes e até conflitantes.

E, neste ambiente democrático, a capital francesa vive uma nova revolução urbanística. Desta vez, alinhada com o zeitgeist, o espírito do tempo: com sustentabilidade, uma cidade que acolhe todos os grupos sociais, um espaço público que se moderniza e é reivindicado para o usufruto de todos.

Os Jogos Olímpicos que serão realizados em Paris em 2024 serão a vitrine dessa nova visão, mais sustentável em termos ambientais e mais diversa e inclusiva em termos sociais. O vídeo de apresentação dos Jogos, mostrado no encerramento das olimpíadas de Tóquio, já dão uma ideia de como a capital francesa quer se mostrar ao mundo: uma cidade com uma incrível herança cultural e arquitetônica, mas com um modo de vida adequado ao século 21.

O vídeo mostra os monumentos do passado, que tornaram a cidade referência em todo o mundo – inclusive na São Paulo do começo do século 20, que se inspirou fortemente na capital francesa na hora de abrir avenidas e construir grandes prédios públicos, como o Theatro Municipal. Mas os monumentos não são exibidos como marcas do passado. Serviam como cenário de manobras praticadas por skatistas, ciclistas de BMX, dançarinos de break, numa mistura étnica que tenta abraçar a diversidade e fazer as pazes com o vergonhoso passado colonial do país.

E não é só discurso. Paris promete fazer as olimpíadas mais sustentáveis da história, com competições em locais que já existem, construções temporárias que serão desmontadas e reaproveitadas e integrando a população local ao evento. A Vila Olímpica terá energia 100% renovável, com saldo zero de emissão de carbono.

A cidade também está colocando a mão na massa em termos mais práticos.

A prefeita, Anne Hidalgo, reeleita no ano passado, prometeu implantar em Paris a visão de cidade de 15 minutos desenvolvida pelo professor da Universidade de Paris 1 Panthéon-Sorbonne, Carlos Moreno. No plano de Moreno, os moradores teriam o seu dia a dia atendido num raio de 15 minutos ao redor de casa a pé ou de bicicleta. Incluindo trabalho, compras, serviços de saúde, escola, socialização com os amigos etc.

 “A América Latina tem seus próprios desafios, diferentes dos europeus e não vai resolver seus problemas simplesmente importando soluções.”

Para isso, Moreno não propõe derrubar prédios, alargar ruas ou construir novas instalações. Pelo contrário. Ele quer intensificar o uso de espaços já existentes e que ficam ociosos uma parte do tempo. Uma escola, por exemplo, poderia abrigar atividades culturais nos fins de semana ou um café que só funciona durante o dia poderia sediar aulas noturnas. Prédios subutilizados poderiam ser convertidos em espaços de coworking para que as pessoas não tivessem que trabalhar tão distantes de casa. Com menos carros nas ruas, parte da estrutura viária seria adaptada, com a conversão de faixas de carros em ciclovias e áreas verdes e criação de novas áreas de convivência.

Não é possível, claro, simplesmente importar as soluções pensadas para Paris e transplantá-las num copia e cola para as cidades brasileiras. Como bem definiu o urbanista colombiano Alejandro Echeverri, pai do urbanismo social, em entrevista ao A Vida no Centro, a América Latina tem seus próprios desafios, diferentes dos europeus e não vai resolver seus problemas simplesmente importando soluções. Alguns princípios, no entanto, podem ser aplicados.

Apesar das condições de renda e moradia em Paris serem muito diferentes de São Paulo, por exemplo, as duas cidades sofrem com a expulsão dos mais pobres para áreas distantes do centro, obrigando-os a longas viagens até o trabalho. No caso brasileiro, a abertura de bairros mais distantes, além de reduzir a qualidade de vida dos moradores, ameaça reservas naturais que devemos preservar, como matas naturais e represas que servem ao abastecimento de água potável. Uma cidade mais compacta permite um melhor aproveitamento dos recursos naturais. 

Neste sentido, Paris pode, sim, ser uma inspiração para o Brasil. A pandemia trouxe uma oportunidade única ao nos mostrar que o modelo atual é insustentável. E que é preciso repensar nossas cidades. Isso já está acontecendo no plano individual. Trabalhando de casa, muitos começaram a explorar seus bairros, passaram a olhar mais a vizinhança, descobriram novos espaços de lazer ao ar livre, deixaram de usar carro. Agora é o momento das mudanças individuais se transformarem em ação coletiva. E nessa jornada em busca da inovação sustentável é fundamental, além dos gestores públicos, o envolvimento de startups, empreendedores sociais, investidores, universidades e a comunidade. A colaboração é um instrumento poderoso não só para os negócios, mas também para transformar as cidades.   

Este texto é de responsabilidade de seu autor e não reflete, necessariamente, a opinião da Fast Company Brasil

SOBRE A AUTORA

Denize Bacoccina é jornalista, cofundadora da plataforma A Vida no Centro e desenvolve projetos de conteúdo digital, redes sociais e faz estudos de cenários futuros. Atuou em redações como O Estado de S. Paulo, BBC e Istoé Dinheiro e foi correspondente em Londres e Washington.