Fazer valer as oportunidades é não aceitar a única história que contaram sobre mim


Pedro Cruz 3 minutos de leitura

“Eu não sei como cheguei até aqui.” Esta é uma das reflexões que mais tenho feito nas últimas semanas. E, apesar das várias sessões de terapia, ainda não consegui chegar a uma conclusão. Mas um ponto é certo: a cada conquista que celebro, é como se eu estivesse também celebrando as oportunidades que me fizeram chegar até aqui – e não foram poucas.

A primeira delas foi entender algo que acredito ser fundamental para qualquer pessoa de contextos que historicamente viveram em desvantagens: não acreditar na única história que contaram sobre nós. Tenho Chimamanda Ngozi como uma das minhas mentoras, ainda que não tenha trocado, diretamente, uma palavra com a mesma.

“O perigo de uma única história” é, sem dúvida, uma das reflexões mais lúcidas para quem quer entender a importância de criarmos cada vez mais oportunidades e espaços de igualdade.

Quando comecei a trabalhar com publicidade e propaganda, me via como se estivesse numa estrada tentando chegar em algum lugar, mas ela era escura e sem nenhuma sinalização. E é assim que muitas pessoas ainda se enxergam hoje. Por consequência, acabam invalidando o que as tornaram.

“É assim, pois, que se cria uma única história: mostre um povo como uma coisa, como somente uma coisa, repetidamente, e será o que eles se tornarão. É impossível falar sobre uma única história sem falar sobre poder.”

Outra referência fundamental para esta conversa é o trecho “referências acessíveis é poder pra imaginar”, contido na música “Bonecas Pretas”, composta por Larissa Luz – de quem todes deveriam conhecer o trabalho. É difícil imaginarmos contextos e cenários diferentes dos que somos criados. E assim, acabamos por acreditar que são as únicas realidades possíveis.

Mas não são. Ou pelo menos não deveriam ser, se nos fosse garantido o acesso a outras referências. E é neste lugar que encontro meu propósito, de influenciar para que cada vez mais pessoas como eu tenham acesso a outras possibilidades.

que poder você tem hoje nas mãos para gerar ainda mais novas oportunidades?

Dito isto, abro aqui espaço para termos uma nova reflexão: que poder você tem hoje nas mãos para gerar ainda mais novas oportunidades? De que forma você tem atuado para criar mais espaços onde outras pessoas possam desenvolver suas potencialidades?

E você, que se identifica com a minha história, que referências têm sido fundamentais para orientar sua jornada? Sempre que penso sobre isso, me lembro do conceito “sankofa”, proveniente da língua twi ou axante, do povo akan, dos territórios de Gana e Costa do Marfim.

A palavra, composta pelos termos san (retorna”), ko (ir), e fa (buscar, procurar), de forma literal quer dizer “volte e pegue; não é tabu voltar atrás e recuperar o que você esqueceu, ou perdeu”. Não abra mão do que é seu, mesmo que digam o contrário.

Eu não sei como funciona para você, mas, no meu caso, olhar para trás e entender tudo o que já foi construído me faz entender o potencial que temos nas mãos de construir um presente e futuro onde cada vez mais pessoas tenham a liberdade de serem quem são e desenvolverem ao máximo sua humanidade.

Eu não sei como cheguei até aqui, mas agora já sei até onde posso ir. Entender que posso ir ainda mais longe é algo que ninguém mais me tira. E não vou sozinho.

Vem comigo? Ou me mostra o caminho?


SOBRE O AUTOR

Pedro Cruz é publicitário e entusiasta da Comunicação como ferramenta de transformação. É sócio e diretor de estratégia do SampaTalks,... saiba mais