Nunca vou esquecer o primeiro vôo internacional que eu fiz, quando tinha 10 anos de idade. Logo assim que o avião decolou, não parei quieto na poltrona até a aeromoça me levar pra conhecer a cabine de comando – o sonho de consumo de qualquer criança curiosa no final da década de 80.

Chegando lá, fiquei maravilhado com todos aqueles botões, luzinhas coloridas e inúmeros números girando sem parar no painel. E já saí apontando para todos os ponteiros para checar se o piloto estava realmente seguro sobre a nossa segurança:

– Pra que serve isso?
– Esse é o radar meteorológico, que mostra qual a melhor rota até o nosso destino.
– E se ele falhar?
– Aí tem esse aqui, o VOR, que emite e recebe orientações da torre de controle pelo rádio.
– E se ele falhar?
– Aí tem esse aqui, o sistema de navegação inercial, que consegue determinar nossa posição de vôo mesmo se a gente perder o contato com a torre.
– E se ele falhar?
– Aí tem isso aqui, que os chineses inventaram há 2 mil anos e nunca falha: a bússola.

Então, está na hora de largar o mapa e voltar pra bússola. Porque o caminho precisa mudar, mas a direção não. E a melhor forma de reencontrar nosso rumo é apontar de volta pra esse norte magnético que sempre nos atrai (e nunca nos trai) chamado propósito.

Fazendo uma analogia com esse meu momento nostálgico, ano passado todos os nossos sistemas de navegação falharam. Todos. E agora, os mapas de vôo que desenhamos lá atrás para as marcas precisam ser revistos. Mas como não temos mais nenhuma margem de manobra, precisamos contar, mais do que nunca, com o que não falha nunca.

Então, está na hora de largar o mapa e voltar pra bússola. Porque o caminho precisa mudar, mas a direção não. E a melhor forma de reencontrar nosso rumo é apontar de volta pra esse norte magnético que sempre nos atrai (e nunca nos trai) chamado propósito.

Só que ao contrário dos aviões, nosso sistema de navegação não fica na cabine de comando. E não é a nossa cabeça que vai nos orientar nessa retomada do propósito. O que vai nos guiar até lá é algo muito mais preciso e eficiente do que qualquer GPS: o nosso bom e velho “instinto de sobrevivência”. Que, na verdade, é a nossa bússola interna, a quem a gente sempre recorre quando precisamos navegar no escuro – e que também nunca falha.

Portanto, precisamos agora voar como as aves. Que confiam tanto no instinto delas que decolam todas as manhãs com o tanque vazio na certeza de que vão caçar o combustível pra voltar – e ainda retornam pro ninho no final do dia com o tanque cheio o suficiente pra alimentar suas crias. Ou seja, traduzindo pro “marquetês”, elas têm a mesma mentalidade, agilidade, ousadia, coragem e visão de retorno recorrente que as startups têm.

E também são as primeiras a fugirem dos tsunamis quando os outros animais ainda nem se deram conta do que está vindo por aí – tanto que as mudanças nas trajetórias de vôo dos pássaros migratórios já estão sendo estudadas a fundo como uma das bases de dados mais confiáveis pra prever tempestades. E por confiarem tanto no próprio instinto, tudo indica que as aves vão conseguir se adaptar muito melhor às inevitáveis mudanças climáticas do que as outras espécies – aliás, outra bela analogia pro nosso mercado.

Resumindo: já que todas as nossas previsões falharam em 2020, em 2021 temos que retomar rápido o nosso propósito usando nosso instinto como guia. Porque enquanto o primeiro faz a gente voar, o segundo garante que vamos chegar vivos em algum lugar.

Afinal, em tempos de crise, é melhor encontrar o norte do que contar com a sorte.

Este texto é de responsabilidade de seu autor e não reflete, necessariamente, a opinião da Fast Company Brasil

SOBRE O AUTOR

Eco Moliterno é chief creative officer da Accenture Interactive na América Latina