Henry Ford, famoso engenheiro e empreendedor norte-americano do início do século XX, registrou 161 patentes durante a sua vida – e, por isso, muita gente acha que ele foi o “inventor do carro”. Só que o automóvel como o conhecemos hoje, com motor à explosão, já havia sido inventado no final do século XIX por dois engenheiros alemães: Karl Benz e Gottlieb Daimler – e, nesse caso, Ford foi, na verdade, um grande “inovador do carro”: não inventou a roda, mas fez ela rodar muito mais.

Apaixonado desde pequeno por motores a vapor, ele começou a estudar os veículos automotores aos 12 anos – e aos 16, quando sua mãe faleceu, mudou-se para Detroit para trabalhar como mecânico e começou a fazer seus primeiros experimentos com motores à gasolina. Tornou-se piloto de carros de corrida (chegou a bater o recorde mundial de velocidade da época: 147 km/h) e montou duas empresas que faliram (Detroit Automobile Company e Henry Ford Company) antes de, com 40 anos de idade, fundar a Ford Motors Company – que mantém, até hoje, sua logomarca praticamente intacta (e por isso é uma das poucas fabricantes de carros cujo símbolo não é simétrico e desenhado para ser visto sem distorções no espelho retrovisor, já reparou nisso?).

Um dia, durante uma visita a um abatedouro, Ford teve uma ideia brilhante: enquanto os bois são fatiados em uma “linha de desmontagem” (na qual é retirado um pedaço do animal em cada estação de trabalho), ele resolveu inverter o processo para a fabricação de carros e, em cada estação, acrescentar uma peça nova ao veículo com a ajuda de esteiras de movimentação. E essa sua revolucionária “linha de montagem” conseguiu inovar de tal forma o processo industrial – aumentando exponencialmente a sua produção em larga escala com um custo bem mais baixo e em muito menos tempo – que, em 1918, metade dos carros rodando nos EUA era dele. Em outras palavras, ele fez barba e cabelo com o Bigode (apelido carinhoso dado para o seu carro mais popular, o Ford Model T).

E por causa desse estrondoso sucesso, muitas das suas inovações, como o volante no lado esquerdo, tiveram que ser copiadas depois por praticamente todos os seus concorrentes – menos pelos ingleses, of course.

Ford acabou difundindo a mentalidade da produção em massa que minimiza a importância da personalização (“Nossos clientes podem ter o carro da cor que quiserem, contanto que seja preto”) e deixa em segundo plano a opinião dos consumidores (“Se tivesse feito o que meus clientes pediam, teria construído uma carruagem com mais cavalos”).

Mas mesmo sem ouvir ninguém, ele fez o que as pessoas mais queriam: um carro mais fácil de dirigir e com uma manutenção bem mais barata – e essa sua busca incessante em baixar os custos resultou também em muitas evoluções nos negócios, incluindo um sistema de franquias que instalou uma revendedora em cada cidade dos EUA e nas maiores cidades de seis continentes. Isto é, se Ford não inventou o carro, pode-se dizer que ele inventou a concessionária.

E inovou também no tratamento dos funcionários: reduziu as jornadas de trabalho de nove para oito horas, deu sucessivos aumentos de salários – chegou a pagar cinco dólares por hora, mais do que o dobro dos seus concorrentes – e ainda repartiu o controle acionário com seus empregados. Mas se o seu lado Ford era revolucionário e progressista, seu lado Henry, em contrapartida, era autoritário e conservador – e, em 1920, ficou conhecido como notório antissemita ao lançar o livro O Judeu Internacional (que, inclusive, inspirou Adolph Hitler a escrever Mein Kampf, o guia ideológico dos nazistas, em que Ford é o único americano citado nominalmente). Um fato irrefutável que, para muitos, anulou todo seu legado anterior.

E falando de fabricantes de carros (e de figuras polêmicas), vamos pular agora quase 100 anos no tempo e ir direto para Elon Musk, o famoso engenheiro e empreendedor sul-africano do início deste século. Também muito precoce, desde pequeno foi apaixonado por computação e, aos 12 anos (quando ainda morava nos subúrbios de Pretória, capital da África do Sul), programou o jogo de videogame Blastar, de nave espacial – que, desde aquela época, já era a sua grande paixão (pra jogá-lo online, é só clicar aqui), – e o vendeu para uma revista por 500 dólares, dando um belo indício de como seria a vida dele dali para frente.

Filho de mãe canadense, foi com 17 anos terminar sua graduação em Ontario e, dois anos depois, se mudou para os EUA – onde se formou em física na Universidade da Pensilvânia e em economia na Wharton School of Business. Mas não demorou muito para a sua veia empreendedora o levar até Palo Alto, na Califórnia, onde criou a Zip2 (empresa que provia conteúdos e licenciava um software de guias metropolitanos para os jornais) e a vendeu quatro anos depois para a Compaq por 300 milhões de dólares. Fundou, então, a X.com que, um ano mais tarde, se fundiu com uma outra empresa que já tinha um serviço de transferência de dinheiro chamado PayPal – o qual, após a entrada de Musk, teve um crescimento apoteótico. Mas aí ele se desentendeu com as outras lideranças e foi expulso de seu papel como CEO – mesmo assim, o PayPal foi comprado pelo eBay por 1,5 bilhão de dólares e ele, sendo o maior acionista, colocou mais 165 milhões de dólares no bolso. E a partir de então, além de um grande inovador em soluções de negócios digitais, Musk se tornou também um dos maiores inventores da atualidade. E o céu deixou de ser o limite para ele.

Com a fortuna acumulada, fundou a SpaceX em maio de 2002 (que está inventando novos veículos de lançamento especial – como, por exemplo, os foguetes que agora conseguem retornar pra Terra e pousarem sozinhos), fez um aporte pra virar presidente da Tesla Motors em 2004 (que está inovando no desenvolvimento de carros elétricos e baterias – e já se tornou uma das marcas mais valiosas do planeta) e, entre outros investimentos, ainda financiou e co-fundou a SolarCity em 2006 (que fabrica e instala painéis solares residenciais – fazendo com que o próprio telhado da casa forneça energia pra ela). Assim, se tornou rapidamente uma das maiores estrelas do universo geek – e agora quer ser o primeiro a chegar em Marte, em uma corrida espacial particular contra outros dois grandes inovadores com histórias muito parecidas com a dele: Jeff Bezos, da Amazon, e Richard Brenson, da Virgin. Veremos, em breve, quem será o vencedor – a sorte e os foguetes estão lançados.

Mas voltando ao tema inicial, tanto Ford quanto Musk conseguiram, rapidamente, se tornar os homens mais ricos do planeta em suas respectivas épocas – mas com uma diferença: enquanto o primeiro só começou a faturar depois que colocou seus carros rodando na rua, o segundo já começou a se capitalizar antes mesmo dos seus foguetes irem para o espaço. Afinal, como vive na era das redes sociais – em que todos os seus passos são registrados e acompanhados bem de perto –, ele já se popularizou como um grande inventor mesmo sem ainda ter finalizado, de fato, a sua maior invenção. E hoje ganha bilhões quando bilhões de pessoas assistem ao vivo na internet aos seus testes de lançamento – que fazem as ações das suas empresas decolarem junto com os seus protótipos. Porque ter uma boa ideia vale tanto (ou mais) do que ter um bom resultado – e a maior prova disso é que o maior inventor de todos os tempos (Leonardo Da Vinci) é admirado até hoje, séculos depois, por invenções que nunca saíram do seu caderninho de anotações.

Resumindo: se inovar significa “pensar fora da caixa” – ou seja, encontrar soluções novas, que ninguém nunca imaginou antes, para velhos problemas (como Ford fez com o carro) –, inventar já pressupõe “criar uma nova caixa” – portanto, inventar uma solução nova para um problema novo que não existia antes (como, por exemplo, pousar em Marte). E se a inovação pode – e deve – acontecer o tempo todo, uma invenção de verdade só acontece de tempos em tempos. E enquanto a primeira traz mais certezas a curto prazo – e existem processos para garantir que ela aconteça regularmente –, a segunda é uma aposta de longo prazo – e não existem meios para garantir que ela irá efetivamente acontecer.

Musk entendeu que, para bancar suas futuras invenções, o melhor jeito é começar inventando boas histórias desde já. Afinal, pouquíssimas pessoas poderão comprar um espaço para irem pro espaço nos seus foguetes – mas, antes disso, muita gente pode comprar um pedacinho do seu sonho em formato de ações da SpaceX.

Isso, claro, se as declarações e atitudes cada vez mais polêmicas do Elon não cancelarem o Musk em 10… 9… 8…

 

SOBRE O AUTOR

Eco Moliterno é chief creative officer da Accenture Interactive na América Latina