O viés consciente


Daniela Cachich 5 minutos de leitura

Quantas vezes uma mulher é convidada para participar de um painel para falar de: liderança feminina? Inúmeras vezes.

Quantas vezes um homem é convidado para participar de um painel para falar de: liderança masculina?

Talvez nenhuma. Homens falam simplesmente de “liderança”.

Tem algo errado com isso? Tem! É o viés consciente. É o olhar sobre uma mulher ser capaz de falar somente sobre ser mulher no ambiente de negócios e não sobre ser uma profissional de negócios.

Conheço muitas, mas muitas mulheres que lideram negócios grandes, inovadores, desafiadores, e que poderiam estar contribuindo para discussões sobre como construir um novo negócio, sobre como desafiar mercado estáveis, sobre como transformar um negócio, sobre como migrar do mundo corporativo para startups. Mas elas, ao serem convidadas para um painel, em quase 100% das vezes, são convidadas a falar sobre ser mulher e não sobre seus negócios. Isso acontece comigo de forma muito mais recorrente do que eu gostaria.

Faz um tempo que venho refletindo sobre esse tema. E a cada dia vai ficando mais evidente como é uma escolha consciente. É acreditar que o lugar da mulher é sobre falar como é difícil estar ali, como foi chegar até ali, sobre como é ser mãe. Quantos pais existem no mundo de negócios e essa pergunta nunca é feita?

Aqui não é uma crítica a todos esses elementos que sabemos que precisamos ultrapassar como barreiras colocadas para que mulheres possam crescer no mundo dos negócios. É apenas a constatação de que estamos entrando em uma era onde executivas são convidadas para falar sobre tudo, menos sobre seus negócios.

Aqui, é preciso reforçar que existe uma interseção ainda mais desafiadora quando falamos de mulheres negras. Pela minha vivência, uma mulher negra em um painel também é para falar sobre questões raciais e racismo, e não sobre o seu negócio. O viés é ainda maior.

estamos entrando em uma era onde executivas são convidadas para falar sobre tudo, menos sobre seus negócios.

Preciso confessar que, no começo da minha carreira, achava muito importante estar ali, mostrando que as mulheres podem chegar, sim, onde elas quiserem. Mas, com meu crescimento profissional e amadurecimento, também preciso confessar que foi começando a me incomodar. Por quê? Porque podemos falar sobre tantas outras coisas. Podemos falar sobre tecnologia, inovação, ciência, crescimento de mercado, tournaround, enfim, é muito o que podemos falar. Mas o viés consciente nos coloca na caixa da diversidade, na caixa da diferente.

Somos 52% da população. Dependendo da categoria, somos 80% das shoppers e tomamos ou influenciamos na decisão de compra. Até em segmentos considerados mais masculinos como o automotivo, a maioria das decisões de compra de um carro é tomada por uma mulher.

Vamos falar sobre negócios? Sobre endereçar o “potencial público-alvo”? Se as marcas e empresas continuarem segmentando metade – repito, metade – da população brasileira como algo diferente, seu potencial de negócio vai se reduzir pela metade. Sustentável? Óbvio que não.

COMO É SER MULHER EM UMA BANDA

Outro dia estava assistindo uma série da Apple TV sobre música: “Mark Ronson e a Evolução do Som”. Uma séria incrível, com narrativa do Mark Ronson, que, a meu ver, é uma das pessoas que mais entende de música nesse planeta (faço um parênteses para dizer que tive o prazer de assisti-lo no Festival de Cannes e é realmente impressionante a profundidade e o conhecimento sobre música).

No episódio 6, que se chama “Distorção”, ele entrevistava Kathleen Hanna, do Bikini Kill, uma cantora cujos sons pioneiros ajudaram a lançar o movimento riot grrrl, que desafiou não somente o lugar da mulher na cena musical, mas também sobre uma técnica de distorção em 1990.

No documentário, ela aparece no começo de carreira e é absolutamente potente ver o que aquela jovem fazia no palco, em uma época na qual a palavra feminismo não era das mais procuradas do Google. Uma época na qual mulheres nunca poderiam aparecer.

nunca vi um painel sobre liderança masculina. Vamos apenas chamar de liderança?

Ao longo do documentário, já mais madura, em uma entrevista totalmente focada no seu lado técnico musical sobre o quanto isso influenciou gerações que vieram depois, em um determinado momento ela olha para Ronson e diz: “foi a única vez que me pediram para falar de música em uma entrevista. Toda pergunta que sempre me faziam é: como é ser uma mulher em uma banda?”

Confesso que isso me chocou, mas, ao mesmo tempo, me fez refletir sobre quantas vezes fui convidada para falar sobre “diversidade” e “liderança feminina”. Aliás, eu nunca vi um painel de liderança masculina. Vamos apenas chamar de liderança?

Existe uma série de pesquisas que indicam que o crescimento de uma empresa é maior quando há mulheres em cargo de liderança. 93% é a probabilidade de empresas com diversidade de gênero superarem a performance financeira de suas concorrentes (McKinsey, 2020); 19% a mais de receita gerada por equipes de gestão diversificadas devido à capacidade de inovação (BCG, 2018).

Sou presidente de uma nova divisão da Ambev que atende – e entende – a demanda do consumidor que está buscando produtos e inovações dentro do universo de drinques prontos. Essa é uma realidade global. Essa categoria é a que tem o maior CAGR (compound annual growth rate, ou taxa de crescimento anual composto) e já representa 20% do mercado total de bebidas alcoólicas em países como Estados Unidos, Canadá e África do Sul.

Construir essa categoria no Brasil é um grande desafio. É criar uma nova avenida de crescimento para a maior empresa de bebidas do mundo. Pode parecer mentira, mas constantemente sou abordada para falar sobre como me visto. Sim, como eu me visto, como é ser mulher nessa posição. Até quando vamos ter que conviver com o viés que insiste em colocar 52% da população na caixa da “diversidade”?


SOBRE A AUTORA

Daniela Cachich é responsável pela unidade de negócios Future Beverages e Beyond Beer na Ambev e comanda o portfólio de bebidas alcoól... saiba mais