Estamos claramente evoluindo para uma sociedade orientada por dados, resultando em mudanças nas tendências comportamentais de consumo, mudanças sociais, econômicas e políticas e em um novo olhar no planejamento estratégico das empresas. O volume de informação gerado por indivíduos, instituições e governos é cada vez maior e mais complexo, assim como o suporte computacional necessário para a leitura e processamento desses dados. Este é um processo que, se bem orquestrado, nos leva a um cenário onde indivíduos estarão mais bem equipados para tomarem melhores decisões, espaços serão mais responsivos às necessidades de seus usuários e instituições mais inteligentes.

“Apesar de recente, estamos diante de um um conceito estrutural para o desenvolvimento de negócios. Princípios FAIR serão cada vez mais adotados por empresas e provocarão mudanças importantes no comportamento de seus colaboradores”

Este contexto, portanto, levanta importantes discussões sobre como organizar e compartilhar informações de forma que sejam melhor acionáveis por inteligência artificial e machine learning mas, curiosamente (e não por acaso) nos convida a refletir sobre quais comportamentos precisamos abraçar dentro das empresas para navegar neste novo cenário.

O INÍCIO NA CIÊNCIA

Em 2016, um consórcio de cientistas publicou o artigo “Princípios FAIR para a gestão de dados científicos” na revista Scientific Data e com isso, pela primeira vez, o acrônimo FAIR (Findability, Accessibility, Interoperability, and Reusability) foi utilizado como guideline para dados que atendam a padrões de encontrabilidade, acessibilidade, interoperabilidade e reusabilidade. O FAIR é, portanto, um conjunto de princípios orientadores e práticas aceitas pela comunidade para que os produtores e usuários, sejam eles humanos ou computadores, possam utilizar metadados de forma mais eficiente.

É fácil imaginar porque esse conceito surgiu na comunidade científica, já que os benefícios do compartilhamento de dados são comprovadamente um aspecto crítico para o desenvolvimento de soluções em áreas como saúde pública por exemplo, e um dos pilares principais da “open science”, uma vez que promovem conceitos como transparência e encorajam colaboração entre os participantes.

De lá para cá, princípios FAIR vêm sendo aplicados não somente ao universo científico, mas também em diversos outros setores da sociedade. Empresas e governos perceberam rapidamente, que lidam com desafios bastante similares à comunidade científica no que tange à gestão de dados. A indústria farmacêutica, por exemplo, vem adotando esses princípios reconhecendo benefícios claros de produtividade na sua implantação, uma vez que ajudam a chegar a respostas mais rápidas para questões cada vez mais complexas do negócio. Novartis, Roche, Bayer, Castor e Euretos são alguns exemplos de instituições que iniciaram projetos seguindo esses princípios.

“Hoje em dia, as fronteiras tradicionais entre os setores não são mais uma barreira para o crescimento na sociedade cada vez mais digital e orientada por dados”

Nos EUA, o US Department of Energy anunciou em março deste ano um fundo de 8,5 milhões de dólares para 5 projetos que tenham foco em dados FAIR para inovação em modelos de inteligência artificial.

O IMPACTO DO FAIR NAS CORPORAÇÕES

Hoje em dia, as fronteiras tradicionais entre os setores não são mais uma barreira para o crescimento na sociedade cada vez mais digital e orientada por dados. Novas parcerias surgem porque nenhuma organização parece poder entregar todo o valor necessário para atender ao “planeta inteligente”. As empresas devem fazer conexões interdisciplinares, decompor silos e buscar sinergias, usando metodologias e ferramentas de ponta para identificar, desenvolver e entregar novas soluções para seus usuários e consumidores.

Para isso, as empresas precisam aprender a trabalhar diferente. Princípios FAIR são uma ótima maneira de iniciar essa jornada a partir de dados e, se bem aplicados, parecem ter um potencial de impacto também cultural nas empresas. Em essência, Princípios FAIR falam sobre 3 C’s:

• Clareza: refletem a transparência na geração e acesso à informação, mas também entre seus produtores e usuários. Transparência é um elemento chave para a construção de confiança entre indivíduos.
• Confiança: trabalhar a partir de fontes de dados críveis que são gerados por diversas fontes requer confiança por parte dos colaboradores. Ambientes com altos níveis de confiança entre seus colaboradores reportam menos estresse, mais produtividade e engajamento. Confiança é um elemento chave para a colaboração
• Colaboração: é necessário colaborar para responder a desafios mais complexos e para chegar a soluções mais inovadoras. Além disso, escala e crescimento sustentáveis só serão possíveis se evoluirmos continuamente, a partir de um conhecimentos e aprendizados cumulativos e iterativos.

A FAIRIFICAÇÃO COMO DESTINO

Apesar de recente, estamos diante de um um conceito estrutural para o desenvolvimento de negócios. Princípios FAIR serão cada vez mais adotados por empresas e provocarão mudanças importantes no comportamento de seus colaboradores.

Empresas FAIR serão empresas preparadas para o Futuro, Adaptáveis aos contínuos desafios de crescimento que se impõem frequentemente `as organizações, com colaboradores trabalhando de forma Interdependente em busca de Resultados.

Por fim, não é possível deixar de pensar na tradução literal do acrônimo FAIR (justo). Seus princípios, se bem aplicados, diminuem barreiras e democratizam o acesso `a informação nas empresas. Falar sobre FAIRificação parece também ser falar sobre inclusão.

Este texto é de responsabilidade de seu autor e não reflete, necessariamente, a opinião da Fast Company Brasil

SOBRE A AUTORA

Adriana Knackfuss é head de Integrated Marketing Experiences (IMX) da Coca-Cola para a América Latina. Designer de formação, ingressou na The Coca-Cola Company em 2007. Foi líder de comunicação e marketing no Brasil, VP de transformação digital no Brasil e na América Latina e líder global do portfólio de marcas de sabores na matriz da empresa, em Atlanta (EUA).