POR HERBERT LUI

“Não tenho tempo!”

As palavras que falei revelaram a verdade. Mais uma vez, minha cabeça caiu na armadilha. Não sei bem quem a colocou, mas esteve lá por anos. Faz lembrar do segundo capítulo do poema de Portia Nelson, “Autobiography in 5 Chapters”, do livro There’s a Hole in My Sidewalk: The Romance of Self-Discovery. Caí na armadilha da escassez de tempo, mas meus olhos estão abertos. Leva algumas horas – às vezes alguns dias – mas eu consigo escapar.

SEMPRE HÁ TEMPO SUFICIENTE

Em uma época de fome e escassez, sempre escolho acreditar que sempre há um modo de fazer algo difícil acontecer. A escassez é o motor da criatividade. Imagino o projeto de Zak Klauck, em que ele desenhou cem pôsteres em cem dias – cada um foi feito em menos de um minuto.

Quando estava escrevendo meu livro sobre trabalho criativo, sabia que queria entrevistar Michael Saviello, artista conhecido como Big Mike, que trabalhou como gerente no Astor Place Hairstylists por décadas.

Aprendi que num dia aleatório em abril de 2017, Big Mike estava falando com o amigo dele, Rafael Hines, que havia acabado de publicar um livro, o Bishop’s War (escrevendo da meia-noite às 3 da manhã, dormindo até às 6 horas e indo para seu trabalho em período integral), que foi um sucesso.

Naquele dia em abril, Big Mike decidiu que ele iria pintar. Ele manteve seu trabalho e a vida não parou de acontecer. Por exemplo, ele pintou para ajudar sua esposa, diagnosticada com câncer e que hoje está recuperada.

Ele passou a fazer apresentações em galerias, mas tudo aconteceu por causa da mesma prática. Todos os dias, ao longo dos anos, Big Mike vai trabalhar e pinta durante 45 minutos no seu horário de almoço.

Aqui vão algumas coisas que aprendi com ele sobre se livrar da armadilha da falta de tempo.

ESTABELEÇA UM LIMITE PARA SEU TRABALHO

Proposta: reserve um tempo do seu cronograma para seu trabalho criativo.

Um modo de encontrar tempo para o trabalho criativo é tirá-lo do Instagram, do Netflix, do Spotify ou de qualquer outra forma de conforto. Passamos semanas cumulativas de nossas vidas nessas plataformas. Cada dia, separe apenas cinco ou dez minutos que seriam gastos nelas.

Você pode utilizar uma técnica chamada timeboxing, que envolve dar a si mesmo uma certa quantidade de tempo para fazer seu trabalho criativo. Uso um timer de cozinha, ou às vezes meu iPhone em modo avião. Dá para tornar isso um hábito regular, como Lorne Michaels falou no Saturday Night Live: “o show não continua porque está pronto; continua porque são 11:30.” Você pode escolher fazer algo pequeno sempre que tiver tempo ocioso, como quando está esperando o elevador ou o ônibus.

Você também pode se deparar com sua mente pensando sobre o projeto quando não está trabalhando nele. Big Mike diz: “faço uma pintura em um curto período de tempo, mas penso nela 24 horas.” O amigo dele, Rafael Hines, contou que apaga as luzes às 22 ou às 23 horas, fica no escuro por meia hora ou 45 minutos e visualiza a história. Às vezes, o protagonista de seus romances dá um tapinha em suas costas.

USE A FELICIDADE E A EMPOLGAÇÃO PARA SEGUIR EM FRENTE

Proposta: transforme o momento da criação no ápice do seu dia.

A disciplina vai dar o pontapé na sua rotina, mas a felicidade e a empolgação dão continuidade. Para Big Mike não é difícil pintar no horário de almoço. “Essa é minha parte favorita do dia. Você pode cultivar a atitude de “tenho a chance de fazer isso”, em vez de “preciso fazer isso.”

Muitas pessoas pegam dois ou três habilidades diferentes ao longo de suas vidas. Talvez você tenha encontrado a primeira e a segunda espera em algum lugar. De qualquer forma, uma vez que você a tenha encontrado e se comprometido com o trabalho criativo, o movimento subsequente é descobrir como encaixar isso no seu dia.

SELECIONE UMA FERRAMENTA SIMPLES

Proposta: escolha uma ferramenta para seu trabalho criativo e permaneça com ela por dez dias.

O método do Big Mike é simples: segundo a descrição dele próprio, é “jogar a pintura no canvas!”. Escolher uma ferramenta dá uma visão clara do que você fará. Você pinta com pincel. Desenha ou escreve com lápis. Permaneça com essas ferramentas por dez dias – tempo suficiente para ver o que você pode fazer com elas, mas não tanto a ponto de ficar entediado.

Você provavelmente tem algum equipamento de que precisa. Então comece com isso e descubra se precisa de algo mais ao longo do caminho. Você não precisa pagar pela melhor coisa, apenas pela versão que se encaixa no seu orçamento. Como escreveu Kevin Kelly, cofundador da Wired, “comece comprando as ferramentas mais baratas que encontrar. Dê um upgrade nas que você usa muito. Se acabar usando alguma ferramenta no trabalho, compre a melhor que puder.”

SOBRE O AUTOR

Herbert Lui é autor de There Is No Right Way to Do This, livro que apoia pessoas que estão começando novos projetos, aprendendo novas habilidades e desenvolvendo processos criativos. Ele escreve uma newsletter que compartilha ótimos livros todo mês. Ele também é diretor editorial da Wonder Shuttle, estúdio editorial que transforma experiências do colaborador em mais consumidores ou contratações, por custos menores.