POR DORIE CLARK

Depois de mais de 18 meses de pandemia, quase todo mundo está se sentindo exausto. Comigo não é diferente. Até tentei compensar meu estresse do trabalho tirando folga todas as sextas-feiras, mas o que realmente me relaxaria seria um período sabático: um intervalo mais longo (que pode ser de um mês, de alguns meses ou de até um ano*) longe do trabalho. 

Durante a escrita do meu novo livro The Long Game: How to Be a Long-Term Thinker in a Short-Term World (O jogo longo: como pensar em longo prazo em um mundo de curto prazo, em tradução livre), entrevistei o especialista em produtividade Dave Crenshaw, que dá o que falar por tirar dois meses inteiros de folga todos os anos. Eu mesma só consegui tirar um mês inteiro de folga uma única vez, uma década atrás – e, mesmo assim, a logística e o planejamento quase me mataram. Ou seja: eu realmente queria entender como é que Dave consegue se desligar, todos os anos, durante os meses inteiros de julho e dezembro. Em sua entrevista, ele compartilhou comigo três estratégias que também podem ajudar você a planejar e viabilizar o seu próprio período sabático. 

FOQUE NA LINHA DE CHEGADA

Comece definindo uma “linha de chegada”, sugere Dave. “Estabeleça a hora do seu dia em que você precisa parar. Se você não está conseguindo encerrar o seu trabalho todos os dias um horário consistente, isso significa que durante a longa maratona de dias, semanas e meses você logo se cansará.” Se você está batendo ponto às19h30, veja se consegue passar para 19h e, aos poucos, para 18h30. É como redefinir seus ritmos circadianos: um animal com hábitos noturnos até consegue se forçar a acordar de uma vez às 6h, mas vai desmaiar de fadiga e, na prática, essa estratégia tão radical não vai durar. Em vez disso, é preciso reajustar os horários gradualmente.

É preciso ser firme. “Vou encerrar o trabalho por hoje. Não importa o que esteja acontecendo no meu dia, eu vou parar.” Como Dave observa, “é claro que algumas coisas sempre ficarão inacabadas.  Logo, você precisará começar a fazer escolhas. Ou começar a dizer não às coisas menos prioritárias, ou começar a desenvolver sistemas melhores, para dar conta de mais coisas”. Essa tomada forçada de decisão nos torna mais perspicazes.

CRIE SEU PRÓPRIO OÁSIS

Depois de aperfeiçoar a capacidade de encerrar o trabalho em um mesmo horário todos os dias, você pode criar o que Dave chama de “oásis” no meio de sua semana. Trata-se de uma pequena pausa que lhe dá fôlego para continuar. “Será de uma hora todas as sextas-feiras? Será de meio expediente em outro dia?”, exemplifica Dave que, em seu caso, faz uma pausa de uma hora diária para assistir a pequenos vídeos de comédia.

Mesmo quando você estiver tendo um dia agitado e estressante, saberá que tem aquela pausa à sua espera. “Você se compromete com esse tempo para você e se faz perguntas estratégicas. O que devo fazer para que esse horário seja respeitado? Quando elabora perguntas como essa, você melhora sua maneira de planejar e começa a se tornar mais eficaz em sua carreira. Você é obrigado a buscar melhorias sistêmicas”.

Por fim, Dave sugere, você poderá aplicar esse conceito de “oásis” em relação não apenas à semana, mas ao ano como um todo: como tirar uma semana, ou duas semanas, ou mesmo um mês de folga? Afastar-se do trabalho por tanto tempo pode parecer uma loucura para os profissionais mais exigentes (especialmente para os norte-americanos, que não estão acostumados a longas pausas). Mas essa pausa nos força a melhorias que fazem bem a você à sua empresa. Alguém com um pensamento empreendedor, diz Dave, logo percebe que se fizer isso, “vai ganhar mais dinheiro, pois vai aumentar o valor do seu tempo”.

PLANEJE COM ANTECEDÊNCIA

Para muita gente, vai parecer impossível tirar um mês de folga – quanto mais dois ou três…  De fato, talvez isso seja mesmo muito complicado se você estiver pensando só na sua agenda para o próximo mês. Só que Dave aconselha: “Você deve se comprometer com o seu período sabático com bastante antecedência, para que todas as escolhas que você está fazendo agora com seu tempo e suas prioridades levem em conta esse afastamento. Esse é o problema de muitas pessoas. Elas ficam repetindo: ‘Ah, mas eu não posso tirar folga porque eu tenho isso na próxima semana, e aquilo na próxima.’ Então pense considerando um horizonte maior. Se organize para daqui a três, quatro meses”. (Eu planejei meu próprio mês sabático em 2011 com quase um ano de antecedência.)

Esses conselhos de Dave servem, é claro, não apenas para quem deseja planejar férias e tirar licenças sabáticas. São estratégias que nos ajudam a realizar qualquer coisa significativa que adiamos. Se culpamos nossas agendas lotadas e dizemos que não temos tempo de escrever aquele roteiro, de lançar aquele podcast ou de participar daquela conferência, até podemos ter razão, tecnicamente. Mas também estamos sendo míopes. Porque sempre podemos abrir espaço para o que é importante, se planejarmos em um horizonte amplo o suficiente.

Visualizar o longo prazo significa estar disposto a pensar no futuro, e até mesmo a fazer sacrifícios de curto prazo, para realizar mais à frente aquilo que importa. Quando nos tornamos disciplinados em nossa gestão do tempo, a qual inclui o agendamento de nosso tempo livre, estamos abrindo o espaço de que precisamos para nos revigorar e para, finalmente, atingirmos nossos objetivos.

(* – É importante levar em conta que em muitos países como os EUA, funcionários de empresas não costumam tirar 30 dias de férias, e cada empregador combina com seu contratado os períodos de férias)

SOBRE A AUTORA

Dorie Clark é consultora de estratégia de marketing. É professora na Fuqua School of Business da Duke University e foi nomeada pela Thinkers50 como uma das 50 melhores pensadoras de negócios do mundo.