Eu sou uma mulher negra que, aos 43 anos, publico meu primeiro livro. Se quando eu criei a Feira Preta, há 20 anos, alguém tivesse me dito que um dia teria a oportunidade de contar a minha história, jamais acreditaria. Embora pareça algo raro, existem muitas mulheres pretas sendo protagonistas de suas próprias narrativas. Em uma sociedade que ainda sofre com o racismo sistêmico, isso é uma grande vitória.

“Um levantamento do Sebrae, também de 2019, revelou que mulheres negras equivalem a 17% dos empreendedores do país e ganham menos que os outros grupos, cerca de metade se comparado às mulheres brancas e apenas 21% delas têm CNPJ”

Venho de uma família comandada por mulheres. Bisavó, avó, minha mãe, eu e a minha filha. Quando passávamos por dificuldades, minha bisavó criava alguma coisa para vender na área da culinária para poder pagar contas, como marmitex. Demonstrando saberes ancestrais de seus antepassados e colocando em prática metodologias peculiares, ela pedia, por exemplo, para colocarmos a faixa de venda das quentinhas perto da obra. Ela sabia que eles ligariam.

E herdando esses mesmos saberes, coloquei em prática a sevirologia. Sem conseguir um emprego fixo, para me virar, comecei a vender minhas roupas em um brechó na feira. E foi então que despertou em mim a vontade de fazer algo muito maior. Engana-se quem acha que esse próximo passo foi criar uma marca própria ou conquistar um espaço para a venda. Eu vi uma oportunidade de negócio na escassez. Muitos outros negros, assim como eu, precisavam de um local afrocentrado, onde pudessem vender e comprar uns dos outros. Foi a partir dessa perspectiva que nasceu a ideia da Feira Preta, com o objetivo de dar visibilidade para potências criativas e inventivas da comunidade negra.

O fato é que o empreendedorismo emancipou a população negra no Brasil. Há pelo menos 13 décadas empreendemos, desde quando se deu o processo da abolição e, desde sempre, é por sobrevivência, pois o mercado de trabalho formal não nos absorveu e a discussão da diversidade racial no contexto corporativo ainda é muito recente. Não houve nenhum tipo de reparação social, todos tiveram que se virar e o empreendedorismo foi o caminho. Começou com as ganhadeiras, mulheres que vendiam comida no tabuleiro, que até hoje trabalham na Bahia.

Em 2019, realizei uma pesquisa em parceria com a Plano CDE e o JP Morgan, por meio da PretaHub, braço da Feira Preta que funciona como aceleradora de negócios, intitulada “Empreendedorismo Negro no Brasil”. O estudo mostrou que empreendedoras e empreendedores negros movimentam R$ 1,7 trilhão por ano no Brasil e mais da metade – cerca de 51% dos brasileiros que empreendem – são pretos ou pardos. Destes, 52% são mulheres. O empreendedorismo tem agora um estereótipo do empreendedor que é quase um empresário, um homem branco em um escritório, mas essa não é a realidade nua e crua.

Um levantamento do Sebrae, também de 2019, revelou que mulheres negras equivalem a 17% dos empreendedores do país e ganham menos que os outros grupos, cerca de metade se comparado às mulheres brancas e apenas 21% delas têm CNPJ. Agora é só fazer as contas. São diversas pretas potências espalhadas pelo Brasil, que movimentam o mercado, constroem seus negócios sem muito respaldo e que precisam, ainda, de equiparação econômica. As exceções não devem ser tidas como regra. Eu e tantas outras que narram suas trajetórias de sucesso, como Rachel Maia, em sua primeira autobiografia recém-lançada, “Meu caminho até a cadeira número um”, somos exceções. Inclusive, a oportunidade de escrever e publicar essa história é também um privilégio.

“Embora pareça algo raro, existem muitas mulheres pretas sendo protagonistas de suas próprias narrativas. Em uma sociedade que ainda sofre com o racismo sistêmico, isso é uma grande vitória”

Hoje, a Feira Preta é o maior evento de cultura e empreendedorismo negro da América Latina, o que me permitiu ser reconhecida como uma das 51 pessoas mais influentes do mundo na questão racial. E nessa empreitada de quase 20 anos, houveram muitos atravessamentos em relação à intersecção de raça e gênero. Para o bem, que é essa potência de ser uma mulher negra com todo esse legado ancestral que eu tive, e para o mal, com todas as camadas da discriminação. Revivi memórias e transcrevi no meu livro.

A potência de contar nossas histórias está na conexão, ensinamentos e experiências. Sempre há algo novo para aprender e para trocar. Certa vez, em uma aula do Afrolab, programa de apoio, promoção e impulsionamento do afroempreendedorismo, uma historiadora nos mostrou porque Portugal escolheu os africanos. Não foram só escravizados, eles detinham saberes. O legado que quero deixar para minha filha é esse. Que ela saiba que vem de um lugar de realeza, de conhecimento, a ancestralidade atrelada às tecnologias pretas. Descobri, com essa e outras histórias que, diante do espelho ou de qualquer lugar, eu sou uma mulher negra, potente, abundante e quero deixar como herança para a minha filha que, no fundo, a mais refinada potência é ser quem a gente é.

Este texto é de responsabilidade de seu autor e não reflete, necessariamente, a opinião da Fast Company Brasil

SOBRE A AUTORA

Adriana Barbosa é fundadora da Feira Preta e CEO da PretaHub