Há 20 anos, quando fiz a primeira edição da Feira Preta, a internet ainda não havia se popularizado. O seu acesso era caro e, obviamente, não chegava na população mais pobre do Brasil, que no início dos anos 2000 era composta majoritariamente por pessoas negras. Na época, também não existia Facebook e WhatsApp, então, a divulgação era feita por meio de flyers, filipetas e faixas. E, claro, sempre havia uma força tarefa para fazer esse material chegar exatamente ao público que gostaria que estivesse no festival.

Para lotar a Benedito Calixto naquele fatídico domingo, eu precisava fazer a informação chegar nas periferias e me comunicar com os bairros mais distantes. Das estratégias que apostamos, a distribuição de folhetos foi uma das principais. Deixávamos panfletos em locais onde havia grande circulação de pessoas negras, nos espelhando na comunicação dos bailes black das décadas de 1970 e 1980, que concentrava os materiais nas galerias do centro da cidade e onde as pessoas frequentavam para fazer tranças, cuidar do cabelo etc. Por muitas noites, distribuí panfletos na porta das baladas black. Fico imaginando a viagem que essa informação fazia dentro dos ônibus e metrôs da cidade de São Paulo, terra em que um trajeto entre a Zona Leste e o Centro pode levar mais de duas horas.

Além dos panfletos que passavam de mão em mão anunciando o evento inédito de cultura e afroempreendedorismo, apostamos também nas rádios. Não tivemos entrada nos canais de maior impacto nas periferias, mas conseguimos em alguns outros. E, assim, lotamos a primeira edição do Festival Feira Preta com 7 mil pessoas, que mesmo caindo o maior pé d’água em uma praça descoberta, permaneceram lá, aproveitando o evento e curtindo o show da Paula Lima.

Foi no maior estilo correio nagô que fizemos acontecer. Hoje, 20 anos depois, olho para trás e enxergo como cada um desses passos foram importantes para construir o que a Feira Preta representa atualmente: maior evento de cultura e empreendedorismo negro da América Latina. E lá no início, em que me desdobrava entre as buscas por patrocínios durante o dia e as entregas de flyers à noite, já vislumbrava a potencialidade desse evento, mas, ainda assim, não imaginava o quão longe chegaríamos. Em duas décadas, mais de 200 mil pessoas, 3 mil artistas e 1800 empreendedores passaram pelo evento, que com as vendas de produtos e serviços de afroempreendedores movimentou mais de R$ 6,5 milhões. 

A comunicação que começou na sevirologia, utilizando todas as ferramentas que tínhamos, se ampliou, acompanhou a transformação digital, e hoje está em todos os lugares. E o mais importante de tudo é que não estamos contando essas histórias e construindo essa narrativa sozinhos. Contamos com inúmeras marcas na curadoria e apoio nos conteúdos do Festival Feira Preta deste ano. Será a maior da história, em patrocínio e programação, a começar pela correalização com o Facebook. É um marco no que tange ao avanço da pauta racial no país e a prova de que, literalmente, a união faz a força, e a comunicação em prol do impacto social e empoderamento negro é potente. 

Este texto é de responsabilidade de seu autor e não reflete, necessariamente, a opinião da Fast Company Brasil

SOBRE A AUTORA

Adriana Barbosa é fundadora da Feira Preta e CEO da PretaHub