Eu tinha planejado fazer uma coluna pra contar dos avanços da pauta LGBTQIA+ no mundo corporativo, contar das campanhas, etc. Ainda vou fazer isso aqui, mas farei sabendo que a Roberta, mulher trans de Recife, foi queimada no meio da rua, por um adolescente, em mais um crime de transfobia, que teve seu braço amputado devido à queimaduras. Então, não, não dá pra ser otimista sobre o mundo caminhar.

Pra você que está pensando em políticas corporativas, vale pensar que 82% das pessoas trans mortas no Brasil são negras, ou seja, intersecciona com racismo e que 97% delas são mulheres, em um claro cenário de misoginia, além da transfobia. Não é fácil ser uma pessoa trans no Brasil, definitivamente.

“No caso da PL 504, diversas marcas se posicionaram mesmo que isso contrarie o governo, que é quem taxa os produtos de bens de consumo”

Tudo isso pra começar a dizer que campanhas cada vez mais estão indo além de pintar o logo de arco-íris. Vale se aprofundar no material que o Think Eva fez para orientar o mundo corporativo. Me entrevistaram, tem muita coisa importante, com gente gabaritada respondendo.

Mas meu ponto é: acredito que não existe mais “meio grávida” em diversidade: ou você é uma empresa/marca que abraça de verdade ou não coloca o pé nessa água e paga o preço por isso. No caso da PL 504, diversas marcas se posicionaram mesmo que isso contrarie o governo, que é quem taxa os produtos de bens de consumo, por exemplo. Existe uma questão muito importante aqui, que é ver hoje muitas vagas “para pessoas LGBTQIA+”, mas quase todas serão preenchidas por gente como eu, lésbica branca ou um homem cis gay branco, porque embora estejamos nadando no mesmo mar, as pessoas trans não sabem nadar nessa água, porque não as preparamos por várias gerações, as excluímos, então, sim, vamos ter que nos preocupar com educação, da mais básica à mais especifica, e isso vai ser trabalho das marcas, empresas e agências.

Agora, eu te pergunto: se saísse um relatório hoje dizendo que diversidade não dá lucro, você continuaria fazendo? É aqui que a gente separa o joio do trigo, na hora da verdade. Vale pensar nisso.

E é com isso na cabeça que tenho trabalhado criativamente com marcas, em que essa propalada diversidade seja sempre transversal e não um apêndice. Ela está lá o tempo todo: da agência ao catering, deveria estar em todos os pontos de contato. É assim que a gente vai fazer diferença no mundo. E é pra isso que eu acordo todos os dias: pra fazer diferença.

E trabalhar com marcas que estão, de fato, engajadas em fazer mudança tem sido fundamental. Entender o tamanho do papel que se tem numa sociedade é parte indissociável do trabalho de marketing, mas não só, é um trabalho coletivo das companhias saber que podem mudar o mundo. E isso é o KPI que me move a trabalhar com algumas das maiores marcas do país, justamente usar essa força pra mover o ponteiro.

Então, eu saúdo os que tem coragem (e que sei que são verdadeiros e que não abandonariam a diversidade e inclusão no primeiro relatório que dissesse que lucro não está mais nessa equação). São campanhas que merecem ser vistas — e das quais participei do processo com as agências e as marcas, então sei que são de verdade –, compartilhadas e que precisam do seu engajamento pra ir cada vez mais longe:

Ambev

 

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Burger King

Doritos

Havaianas

Esses são alguns exemplos. Podem existir milhares de outros, basta que alguém queira fazer, afinal marcas são pessoas, certo?

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SOBRE A AUTORA

Cristina Naumovs é fundadora da Apego.Inc e integra o Conselho Editorial da Fast Company Brasil.