Que alegria estar aqui, estreando uma coluna. Gosto de estreias. Elas me dão frio na barriga e me trazem a alegria de saber que dei um passo adiante, uma recompensa importantíssima para uma filha de pais pobres, que se arriscaram num negócio próprio e enriqueceram no Brasil, ali entre os anos 80 e 90. Caminhar para frente, aperfeiçoar, vencer limites sempre foram valores para mim. E talvez seja por isso que trabalho tenha se tornado algo tão importante na minha vida. Vamos, encham suas taças e levantem seus copos. Eu gostaria de pedir um brinde ao trabalho.

Gostaria de começar dizendo que trabalho é uma das coisas mais deliciosas do mundo. E afirmo isso por puro medo de represálias, porque por mim eu dizia logo que trabalho é A coisa mais prazerosa do mundo. E, ainda assim, quando as organizações tentam aprimorar a relação de seus funcionários com o emprego, o que elas fazem é investir em um monte de coisas que nada têm a ver com trabalho: mesas de ping pong, comida grátis, post-its coloridos. No lugar de dar mais espaço para aquilo que realmente faz com que as pessoas se conectem com sua rotina profissional: a chance de aprender algo novo, a oportunidade de se relacionar com pessoas com quem compartilham uma quantidade substancial de interesses, e, sobretudo, a possibilidade de criar coisas.

Nada é mais recompensador para nós, humanos, do que criar. Do que a sensação de: “isso não existia, agora existe”. Não é à toa que grande parte das religiões existentes explicam deuses como criadores.

E é o trabalho que mais frequentemente nos dá a oportunidade de viver essa sensação. É claro que há pessoas que não querem encontrar essa dose de prazer no trabalho. E outras tantas que não têm sequer esta possibilidade – enquanto ergo meu copo cheio, tem muita gente ainda lutando para fazer parte deste jogo. O que me surpreende é que lideranças não percebam que o investimento no novo andar com cara de inovador não tem impacto nos índices de conexão que as pessoas têm com seu trabalho e, portanto, com os objetivos da sua empresa. Já a falta de relação entre as tarefas diárias e o resultado final, a sensação de perder tempo em reuniões que não precisavam da sua presença e a falta de clareza sobre o que exatamente a empresa reconhece como sendo seu talento aparecem como responsáveis diretos pelos baixos índices de saúde mental nos estudos mais recentes sobre o assunto.

Por que, então, estamos gastando tanto tempo e dinheiro com acessórios? Especialmente quando o caminho está em incentivar pessoas a tomarem decisões assertivas, que considerem todas as suas consequências, que é o que qualquer líder deseja.

Sugiro que você escolha um problema grande, difícil mesmo de resolver e muito relevante para a existência da sua empresa, e teste o seguinte:

Entregue o problema para o seu time. Avise que quer ver uma solução do começo ao fim, levando em consideração todos os aspectos necessários para que comece a ser implementada imediatamente.

Não peça a solução perfeita. Isso não existe. O que você está buscando é uma solução que considere todas as suas consequências e que possa começar a ser implementada daqui a um mês. Ou 5 meses. Você decide quando. Mas dê um prazo.

Quanto mais difícil, melhor. Os melhores talentos são movidos pela oportunidade de resolver problemas complexos. Enroscos. Tretas. Então não poupe na hora de escolher um desafio bem cabeludo.

É pra valer. O que estou propondo não é um exercício. Portanto, tem risco envolvido. Isso vai obrigar as pessoas do seu time a entregarem sua máxima capacidade. Vai exigir que busquem informações que não têm hoje, que falem com pessoas da organização que estão mais distantes delas no dia a dia e que inventem uma solução que nunca viram antes.

Sou capaz de apostar que, quando o experimento acabar, todo seu time estará compartilhando um tipo um pouco mágico de alegria, uma sensação eletrizante por terem dado um passo adiante. E é capaz até de passarem trabalho na frente, naquela lista de melhores coisas da vida.

Saúde!

Este texto é de responsabilidade de seu autor e não reflete, necessariamente, a opinião da Fast Company Brasil

SOBRE A AUTORA

Bárbara Soalheiro é fundadora de Mesa Company, uma empresa global, fundada no Brasil, que trabalha hoje com os tomadores de decisão nas matrizes de clientes como Google, Bayer e Nestlé, ajudando-os a resolver seus problemas mais complexos. Neste mês, ela estreia a coluna Brindes para Lideranças.