Nos últimos anos, podemos notar uma espécie de glamourização no perfil empreendedor. Quando se fala em empreendedorismo, o imaginário coletivo e os vieses inconscientes levam à descrição de um homem branco, bem vestido, fundador de alguma startup ou sócio de empresas com propostas de negócios muito disruptivas. Precisamos desconstruir essa ideia e reconhecer que, na realidade, o empreendedorismo brasileiro é negro. Há 133 anos, empreendemos para sobreviver. 

Hoje, as oportunidades no mercado de trabalho ainda são pífias e muitos precisam migrar para a informalidade. E neste cenário, é de suma importância estar em rede, com suporte de incubadoras, como Cietec e Inova, e aceleradoras, como Afrohub, Vale do Dendê e Darwin, que impulsionam projetos e pequenos negócios. Ambas oferecem diferentes serviços, como espaços físicos compartilhados, com estúdios de gravação, laboratórios e coworking, e aporte financeiro para tirar ideias do papel e até mesmo para sustentabilidade do negócio em momentos de crise. Além disso, oferecem também capacitação aos empreendedores, por meio de mentorias, cursos e workshops, para que aperfeiçoem estratégias em marketing, vendas e gestão de negócios e pessoas, bem como um letramento tecnológico, promovendo transformação digital. 

Quando comecei a empreender, 20 anos atrás, na pura sevirologia, estava desempregada e precisava ter dinheiro para pagar as contas. Somente com o passar do tempo aprendi sobre as potencialidades e desafios da área e mergulhei no ecossistema empreendedor. Foi quando me deparei com meu propósito e passei a investir no empreendedorismo segmentado para a população negra. Minha missão passou a ser aprender cada vez mais, estimular a produção de conhecimento e disseminar as informações. E então, ano a ano, a Feira Preta foi se transformando em um espaço para capacitação e destaque para as pretas potências.

É inegável que a capacitação e a inovação são molas propulsoras para o crescimento e desenvolvimento de pequenos negócios. Para ter sucesso no Brasil, com um empreendimento que permita ser sustentável a longo prazo, é preciso estudar para saber quais são os códigos do sistema empreendedor. Cada área tem códigos muito específicos e é necessário dedicar tempo para entender e aplicar. Porém, o empreendedor brasileiro tem um quê de imediatismo, de vender hoje para comer amanhã. Precisamos sair do empreendedorismo de necessidade para o de oportunidade.

A possibilidade de sonhar com o futuro, um negócio sustentável a longo prazo, vem do planejamento. E esse sonho demanda alguns itens prioritários, entre eles a formação, a aceleração, as ferramentas de gestão, educação e gestão financeira. Além disso, há também a tecnologia, o acesso ao capital e às políticas públicas. São inúmeras questões e necessidades que precisam de uma rede propulsora a fim de facilitar o acesso. Por exemplo, a própria infraestrutura para se ter acesso à internet é cara, o espaço de memória do computador ou celular muitas vezes é insuficiente para trabalhar, bem como o baixo acesso à tecnologia e o quase nulo letramento digital. Ou seja, há uma carência na educação do empreendedor para saber a diferença entre um marketplace e um e-commerce ou, ainda, como fazer uma transmissão ao vivo. 

A PretaHub, que atua como aceleradora do empreendedorismo negro com foco em criatividade, inventividade e tendências, abriu um processo de aceleração tecnológica em 6 meses para tentar remediar o problema. Mas não somente isso, o hub possui diferentes atividades com foco na capacitação e aceleração de afroempreendedores. Destaco aqui o Afrolab, programa de apoio, promoção e impulsionamento do afroempreendedorismo; o Afrohub, de aceleração de empreendimentos negros com foco na decodificação dos códigos da internet para o uso das redes sociais para o crescimento do negócio; o Festival Pretas Potências, que ressalta a força criativa e inovadora da comunidade negra no passado, presente e futuro; e, claro, o Festival Feira Preta, maior evento de cultura negra da América Latina.

Além disso, no último ano inaugurei duas Casas PretaHub, na capital paulista e em Cachoeira, na Bahia. São espaços de economia colaborativa, onde é possível produzir conteúdo para o digital, co-criar e desenvolver negócios. Meu intuito é replicar essa iniciativa e agir localmente, atuar no micro de cada território e estimular para que essas experiências locais possam ser replicadas em cada vez mais localidades. Desta forma, construímos uma sólida rede de apoio aos empreendedores, com um processo de educação que permite a transformação de pequenos negócios em potenciais empresas. Afinal, não tem como prosperar se não for em rede, especialmente o empreendedor negro, tendo em vista todas as complexidades que enfrentam e, para sair disso, vai ter que ser junto, em rede. Como já disse nessa mesma coluna algumas vezes, ninguém faz nada sozinho. Pessoas precisam de pessoas e é isso o que nos move!

SOBRE A AUTORA

Adriana Barbosa é fundadora da Feira Preta e CEO da PretaHub