Outro dia me dei conta de que o que eu faço – e gosto de fazer – está saindo de moda. Quando criei a Mesa, estávamos na crista do Zeitgeist: falávamos, como seguimos falando, de distribuir melhor a tomada de decisão, do fazer como veículo para a realização pessoal e de encontrar talento nos lugares não óbvios. Falávamos, como seguimos falando, de trabalho como uma das melhores coisas do mundo.

A reação positiva ao que colocamos no mundo era tanta que, ao encontrar meus amigos e ouvi-los comentar sobre “o sucesso da Mesa”, eu citava Public Enemy: Don’t Believe the Hype. Confesso que era bom. Estar na crista da onda é sempre prazeroso. Hoje, 10 anos depois, o jogo virou. E não foi pro meu lado! A tendência que começa a pegar é a ideia de que trabalho é algo antinatural, um fardo. Hoje, faço um brinde ao trabalho, a despeito dessa tendência, que tanto me intriga e, confesso, não me convence.

Vamos, erga seu copo junto comigo e me deixe defender a ideia de que a exaustão contemporânea tem menos a ver com trabalhar muito e muito a ver com passar horas demais ativando mecanismos de recompensa no cérebro com informações e relações superficiais.

Sete anos atrás, um casal de amigos, ex-publicitários que trabalhavam loucamente em agência, resolveram se mudar para uma fazenda no interior do estado de São Paulo. Hoje, eles produzem cerca de 90% do que consomem e são as pessoas que conheço que vivem mais próximas da natureza, realmente integrados à Ecologia em que estão inseridos. E eles são, provavelmente, as pessoas que conheço que mais trabalham. Não há nenhum dia em que podem se dar ao luxo de acordar depois das 5h30 da manhã para tirar leite da vaca. Eles produzem também queijo e manteiga para vender em pequena escala e, quando querem comer feijão, colhem vagem por vagem do pé.

Um brinde a não acreditar no hype, e a seguir perto da sua essência.

O que eles estão fazendo é o mesmo que eu e que muitas outras pessoas – isso se chama trabalho. É o oposto de ficar apenas observando ou desfrutando a vida.

Considero o trabalho a ferramenta mais relevante que nós, humanos, temos para interferir no mundo e construir coisas além das que nos são dadas. O meio pelo qual podemos promover avanços e evoluir, nós mesmos. A nossa forma de contribuir com o ambiente em que vivemos. E de exercer essa capacidade divina com a qual somos dotados: a criação.

Criar, no entanto, não necessariamente tem a ver com algo novo ou inédito. É só observar os grandes mestres em seus ofícios e o que nos ensinam práticas milenares como kung fu e yoga: a repetição do movimento cria a conexão que, por sua vez, leva ao primor da execução. É o fazer com presença que gera a sensação de que a atividade “é parte de mim”.

Isso é trabalho. Para mim, algo natural e atemporal. Veja, não estou interessada em ter razão. Adoro a ideia de estar rodeada de gente que discorda de mim, que vê o trabalho de outras maneiras. Mas esta é a minha essência. E o que eu posso garantir é que estar na crista da onda é uma baita delícia, mas não se compara a construir algo que te deixe sempre mais perto de você mesmo. Um brinde a não acreditar no hype – e a seguir perto da sua essência, mesmo quando toda tendência aponta para outro lado.

SOBRE A AUTORA

Bárbara Soalheiro é fundadora de Mesa Company, uma empresa global, fundada no Brasil, que trabalha hoje com os tomadores de decisão nas matrizes de clientes como Google, Bayer e Nestlé, ajudando-os a resolver seus problemas mais complexos. Neste mês, ela estreia a coluna Brindes para Lideranças.