Serei sincera: tenho achado difícil pensar e falar de coisas inspiradoras. Mas estou aqui, com o braço estendido e a taça na mão, para um respiro e o nosso brinde. Um brinde ao impossível. 

Tenho pensado muito sobre por que fazer o que não foi feito ainda importa. O aniversário de 10 anos da Mesa, empresa que fundei, chegou junto a uma série de episódios que me fizeram refletir sobre nosso papel no mundo. Ao longo dessa década, houve momentos em que encarei de frente a ideia de parar. Quem sabe a busca por transformar o jeito como as pessoas trabalham e resolvem problemas, deixando de lado as redes de segurança e exigindo um nível de comprometimento, presença e atenção sem precedentes seja mesmo impossível de implementar? Quem sabe a ideia de eficiência seja, em si, um atropelo da ideia de humanidade?

Quem sabe a ideia de eficiência seja, em si, um atropelo da ideia de humanidade?

 Em 2011, eu tinha uma intuição: achava que tudo de que precisamos para resolver um problema era reunir um grupo de pessoas com todas as habilidades e todo o conhecimento que aquele desafio precisa. Com uma missão clara, esse grupo seria capaz de chegar a uma solução, qualquer que fosse o tipo ou tamanho do problema. Achava também que, para isso, seria preciso construir um ambiente que fizesse as pessoas sentirem: aqui é um mundo paralelo, um mundo em que regras específicas podem ser aplicadas.

 Hoje, 10 anos depois, essa ideia existe. E aí? Vale a pena? 

Para responder, quero contar pra vocês a história do café. Quando começamos a fazer Mesas, Francesca Wade (a primeira Líder de Experiência da nossa história) cozinhava toda a comida que servíamos – quem esteve nas primeiras edições relata que jamais esqueceu aquele sanduíche de ovos. Mais tarde, quando começamos a fazer Mesas para empresas, descobrimos o mercado de alimentação para workshops. Era um mercado consolidado. Você contratava uma empresa que servia comida mais ou menos boa, sempre cheia de açúcar e sempre com muito enfeite (eu lembro do susto que tomei ao ver uma pessoa despregando todas as uvas de um cacho para depois espetá-las num palitinho. Por que mesmo ela não servia as uvas em cachos?). E o café era sempre ruim. 

Um dia, uma empresa que contratamos serviu um café que achei especialmente ruim. Pedi que as garrafas cheias, que tinham acabado de chegar, fossem levadas de volta e que o café fosse refeito. Aquele pedido era tão novo que gerou uma insatisfação imensa na pessoa responsável pela alimentação. Naquele momento, eu ainda não sabia verbalizar de forma clara e gentil o que queria. Sigo aprendiz em ser gentil, mas já consigo deixar claro que qualquer sensação gerada por qualquer interação com a Mesa é parte da Experiência e que isso define, de forma direta, o modo como um participante se comporta e entrega a missão. Eu preciso de um café gostoso, era tudo o que eu sabia dizer naquele momento, frustrada pelo fato de que esse não era um entendimento claro entre nós. Só que essa frase era insuficiente. “Não é possível que você queira mesmo que eu mude meu jeito de fazer café!”, escutei algumas vezes. Levamos sete anos para conseguir executar com impecabilidade uma alimentação para o trabalho como acreditamos que ela deve ser (até o colapso do mundo com a pandemia, em março de 2020, comida era a primeira coisa que muita gente listava como motivo para dizer o segundo sim para a Mesa).

Essa história me ajuda a olhar no olho dessa vontade de parar, que bate de vez em quando. E me ajuda a dizer pra ela: sai fora. Imagine perder tudo que aprendi, experimentei, conheci enquanto caminhávamos em direção a essa ideia de que comida é importante demais para o resultado do trabalho! Não faz sentido, para mim, esse desperdício. 

Fazer o que não foi feito antes – isso a que damos o nome de impossível – não é apenas sobre usar as possibilidades existentes. É também sobre criar a Possibilidade em si. E por isso é uma caminhada longa. Sinto que se comprometer com o impossível é se comprometer, sobretudo, com aprender sempre: aprender a verbalizar o que você percebe, aprender a juntar essa visão à visão de quem caminha ao seu lado, aprender que não há linearidade na construção. 

Fazer o que não foi feito antes – isso a que damos o nome de impossível – não é apenas sobre usar as possibilidades existentes. É também sobre criar a Possibilidade em si.

Dá mais medo e mais insegurança; exige mergulhos profundos em si mesmo (eu, que pratico há uma década, sigo no jardim de infância de tantos aprendizados); e exige uma quantidade grande de energia. Mas eu não conheço outra caminhada mais divertida, intensa e caótica. Ou seja, uma caminhada mais humana. Então sigo nela, tentando executar uma visão e brindando pelo caminho!

SOBRE A AUTORA

Bárbara Soalheiro é fundadora de Mesa Company, uma empresa global, fundada no Brasil, que trabalha hoje com os tomadores de decisão nas matrizes de clientes como Google, Bayer e Nestlé, ajudando-os a resolver seus problemas mais complexos. Neste mês, ela estreia a coluna Brindes para Lideranças.