POR JEANCARLOS MOTA 

Um programa certo aos finais de semana que deixou saudades nos bons tempos da década de 1990 era as idas às locadoras. Quem viveu esta época sabe como era a experiência simples de escolher um título, ver seu conteúdo e devolvê-lo, já com a próxima experiência em mente para a próxima semana. Era assim, simples, com filmes e jogos.

Agora, a versão moderna desse serviço traz as plataformas de streaming para filmes e séries como uma sólida transformação dos vastos catálogos das locadoras, porém na comodidade de nosso lar — ou onde mais você estiver com uma tela conectada à internet — e a facilidade de clicar e assistir aos conteúdos na mais alta definição, como mostram os tantos bons exemplos executados por grandes streamings, como Netflix e Prime Video, ou os promissores novatos como HBO Max, Disney+, Star+, Apple TV+, Crunchyroll e Funimation.

E quem disse que os games ficariam de fora?

Gigantes do mercado perceberam que essa é uma forma de trazer comodidade, economia e giro de obras de todos os tamanhos, preços e raridades, que provavelmente ficariam no esquecimento em meio ao mar de lançamentos constantes de jogos, para que jogadores do mundo inteiro possam escolher jogos em uma vasta biblioteca, mas sem ter o risco de um game estar alugado e ainda com o máximo de qualidade.

Para se ter uma ideia, marcas como Microsoft, Sony, Apple e, recentemente, Nvidia são as primeiras a disponibilizar esse modelo de negócios, cada um com suas peculiaridades, para que você possa jogar sem ter que adquirir os games, pagando uma assinatura. Entenda como cada uma opera e disponibiliza os jogos e quais já estão disponíveis no Brasil:

PS NOW

A PlayStation Now é um dos modelos de locadoras digitais que mais segue o que fizeram os streaming de filmes e séries. Ele conta com uma biblioteca que já passa de 800 jogos, dentre títulos que vão de exclusivos a third parties — games de outras desenvolvedoras para os consoles PlayStation — do PlayStation 2 ao 4 e que levam uma série desses jogos de forma inédita para o PC, desde que você tenha um controle DualShock ou DualSense. Além dele, é possível aproveitar o PS Now no PlayStation 4 e 5. Jogos como The Last of Us, The Last of US: Part II, God of War: Ascension e Beyond: Two Souls são apenas alguns dos exemplos disponíveis no PS Now.

Outro ponto bem interessante é que você não instala os jogos em seu HD. Regra geral, todos eles rodam diretamente da nuvem, em seu aparelho. Apenas os jogos de PlayStation 4 também podem ser baixados. Depois, basta apenas jogar o quanto quiser. É possível salvar seu progresso e continuar seu jogo em qualquer um dos dispositivos, em resolução de até 4K se seu aparelho de escolha for o PS5 ou PS4 Pro. O acervo de games é atualizado todos os meses, com novidades espalhadas entre o PS2, PS3 e PS4 e o pacote de assinatura tem formatos que vão do mensal — por aproximadamente R$ 55 ao mês — ao anual, na faixa de R$ 328,55.

A única questão para nós, brasileiros, é que o PS Now ainda não está disponível por aqui. O PS Now já está disponível na América do Norte, Europa e Reino Unido e Japão. Ainda não há previsão da chegada ao Brasil e, da última vez em que foi questionada sobre o assunto, a Sony afirmou que planeja expandir o serviço para Índia como próximo passo, enquanto mapeia países com boas conexões de internet e economias fortes para determinar os próximos passos da PS Now. A ideia é manter a qualidade e preços competitivos para a marca nos locais em que o serviço for enfim disponibilizado, como o Brasil.

APPLE ARCADE

A maçã resolveu não ficar de fora do universo dos games e ousou mais uma vez ao querer desbravar o universo dos games com um serviço de jogos próprio para seus dispositivos. Também através de um serviço de assinatura, membros do Apple Arcade têm acesso a mais de 200 jogos da cena mobile dos games, que incluem exclusivos Apple Arcade, clássicos de franquias famosas e outros games que estavam disponíveis na App Store.

Lançado em setembro de 2019, o recente serviço foca em fornecer jogos completos, sem propagandas ou cobranças internas, como acontecia com os jogos free-to-play normalmente disponíveis em lojas de aplicativos. Diferente dos serviços de streaming, o Apple Arcade permite que o assinante baixe os jogos de sua biblioteca e possa jogá-los on-line e off-line.

A novidade ainda permite compartilhar essas funções com até outros cinco membros de sua família, com uso da função Family Sharing, além de integração com o iCloud e Game Center. Tais funções permitem que os jogos utilizem recursos sociais, como conquistas e quadro de líderes, e carreguem dados entre dispositivos quando vinculados à mesma conta iCloud, para que você possa continuar de onde parou caso saia do iPhone para seu iPad, Mac ou Apple TV. Além dos próprios produtos da Apple, muitos jogos são compatíveis com controles de terceiros, como o DualShock 4 ou DualSense da PlayStation e o Xbox Wireless Controller.

De jogos mais simples e divertidos — como Fruit Ninja Classic, Sudoku Simple e Paciência a títulos de peso para jogadores mais assíduos como NBA 2K21 Arcade Edition, Star Trek: Legends, Monument Valley e Fantasia (do mesmo criador de Final Fantasy) — o Apple Arcade já está disponível por R$ 9,90 ao mês, com um período de teste grátis de 30 dias, e também faz parte faz parte dos planos mensais do Apple One Individual (R$ 26,50) e Familiar (R$ 37,90).

Se o negócio é válido para a Apple? Em 2018, jogos premium na App Store geraram US$ 476 milhões, enquanto os jogos gratuitos geraram US$ 21.3 bilhões em receita. A Apple gastou cerca de US$ 500 milhões para lançar o Apple Arcade, pelo qual ela paga aos desenvolvedores de aplicativos uma taxa inicial para criar os games para a plataforma. Por mais que a Apple não tenha divulgado sua receita real do serviço, pesquisadores do MIT estimam que, em 2024, os assinantes do Apple Arcade representarão cerca de 10% da base de consumidores da Apple e gerarão US$ 4.6 bilhões em receita.

GOOGLE PLAY PASS

Semelhante ao Apple Arcade, o Google também lançou seu serviço de assinatura de jogos para dispositivos Android. Lançado em 23 de setembro de 2019 nos Estados Unidos, o Google Play Pass alcançou outros países ocidentais em 2020. Nele, os assinantes podem acessar os aplicativos e jogos incluídos, sem anúncios e compras no app.

O Google Play Pass reúne mais de 650 títulos selecionados disponíveis no serviço, que variam de quebra-cabeças a podcasts. Retirados diretamente da Google Play Store, o Play Pass também pode ser compartilhado com até cinco outros membros da sua família. A novidade chegou ao Brasil apenas no final do ano passado e permite aproveitar todos os jogos gratuitos sem anúncios irritantes, além de dispor do acesso a títulos notáveis, como Monument Valley, Star Wars: Knights of the Old Republic, This War of Mine e Terraria.

O serviço da Google conta com duas opções de assinatura. No plano mensal, você paga o valor de R$ 9,90 ao mês, enquanto o plano anual custa R$ 89,90. Ambos contam com o período de teste de 10 dias gratuitos, e você pode cancelar a assinatura antes disso.

XBOX GAME PASS

A Microsoft não apenas tem um serviço semelhante aos demais disponíveis no mercado, mas um que serve de modelo para todos os outros. O ousado Xbox Game Pass está disponível para as plataformas Xbox — Xbox One, Xbox Series X | S e PC — e tem uma vasta biblioteca de games, atualizada todos os meses, que já acumula uma série de obras desde seu lançamento, em 2017, para sua plataforma escolhida. Nele, basta você visitar a biblioteca de jogos, escolher qual quer jogar e baixá-lo para seu aparelho, como se fosse seu e jogar pelo tempo que desejar. Como alguns dos jogos de outras empresas que fazem parte do Game Pass podem sair do catálogo depois de alguns meses, se você quiser continuar com a obra, poderá comprá-la com um bom desconto por ser assinante.

O principal chamariz ainda são os jogos. Além de diversos títulos de desenvolvedores terceiros, a Microsoft anunciou na Electronic Entertainment Expo (ou E3) de 2017 que alguns de seus jogos mais antigos teriam retrocompatibilidade com os aparelhos da atual geração e que alguns deles também chegariam para o Game Pass. Entretanto foi em 2018 que a marca revelou que — a partir de então — todos os seus jogos first-party (criados pelos estúdios da Microsoft) estariam disponíveis para os assinantes desde o dia de seu lançamento, algo inédito em qualquer serviço, que normalmente liberam seus jogos mais antigos em suas seleções.

Além dos jogos, o trunfo da Microsoft está em uma série de outros benefícios agregados que transformam o Game Pass em um produto bem mais completo. Para começar, a marca criou o Xbox Game Pass Ultimate, pacote mais robusto, em que você tem acesso ao Game Pass para aparelhos Xbox e PC juntos, além de englobar a Xbox Live — assinatura em que o jogador pode jogar online com amigos ou outros membros do serviço e traz diversos descontos em jogos do Xbox. Além disso, o Game Pass Ultimate traz o EA Play, serviço de assinatura da Electronic Arts, que dá descontos na compra de jogos da empresa, acesso a testes antecipados de seus futuros jogos e acesso a outro acervo de games da marca.

Como se tudo isso não bastasse, em setembro do ano passado, a Microsoft anunciou o projeto Xbox Cloud Gaming ou xCloud. Incluso para assinantes do Game Pass Ultimate, o Xbox Cloud Gaming adicionou a capacidade jogar títulos selecionados via nuvem, sem precisar baixá-los, tampouco ter um aparelho Xbox ou PC, para dispositivos móveis Android. O xCloud tinha mais de 100 jogos otimizados para o serviço em seu lançamento. Posteriormente, o xCloud trouxe suporte para dispositivos móveis iOS e navegadores de desktop em computadores Windows e macOS, em sua versão beta no início de 2021. Inicialmente, o xCloud só estava liberado para poucos países, porém agora está disponível para 26, incluindo o Brasil (que entrou na lista recentemente). O objetivo dos responsáveis pelo Xbox é que, no futuro, o xCloud possa estar disponível em inúmeros outros dispositivos, como até um app de smartv.

O resultado desta reinvenção do consumo de games pela marca já é bastante impressionante: são mais de 18 milhões de assinantes este ano. Separadamente, o Xbox Game Pass custa R$ 29,99 por mês, tanto na versão para consoles Xbox como na de PC. Já o Ultimate sai por R$ 49,99 mensais.

QUAL SERÁ A SUA LOCADORA?

Se o formato digital já era forte com as inúmeras lojas para aquisição de games antes, agora essas locadoras virtuais em forma de serviço trazem uma comodidade de escolha ainda maior aos jogadores. Basta decidir entre uma das vastas bibliotecas, algo simplesmente confortável, divertido e bem mais econômico que adquirir diversos jogos. E tamanha tendência só tende a crescer ainda mais com a chegada de ainda mais marcas e players para este mercado, ou até com novos serviços e suas propostas diferenciadas.

A Nvidia, por exemplo, planeja o lançamento do GeForce Now, serviço que conectará diversos serviços digitais de jogos para que você possa curtir suas aquisições via nuvem, em sua melhor performance no aparelho de sua escolha — entre PC, Smartphone ou browser –, sem a necessidade de ter um computador com peças de última geração, uma vez que os jogos em nuvem estão rodando em PCs robustos com tecnologia Nvidia espelhados em seu dispositivo.

Quais outras ideias ajudarão a moldar o formato como consumimos jogos será algo que somente o tempo dirá, da mesma forma que nos perguntamos se os jogos em mídia física estão com seus dias contados. Até lá, vale aproveitar o novo hoje, criado pelas marcas, para escolher o que jogar na próxima semana dentre tantos games legais em suas prateleiras digitais.

As locadoras de games voltaram e, agora, em nossas casas. Uma viva à tecnologia!

 

SOBRE O AUTOR

Jeancarlos Mota é editor-chefe do IGN Brasil, jornalista, tradutor, intérprete, professor e apaixonado por games.