O objetivo final de se jogar vídeo games sempre foi se divertir. Seja Space Invaders ou Sonic ou Red Dead Redemption, você aperta o start e joga até o game over — e aí provavelmente limpa o suor das mãos e joga de novo. 

Mas um novo tipo de jogo está surgindo, onde jogar é uma oportunidade de investimento – e talvez até uma maneira de garantir o sustento. Os games do tipo jogue-para-faturar, como o Axie Infinity e The Sandbox explodiram em popularidade recentemente. 

O que eles têm em comum com muitos clássicos do passado é que eles incluem complexos ecossistemas econômicos. Em Elite, sucesso dos anos 80, por exemplo, os jogadores viajavam entre os planetas, tentando aumentar seus créditos ao comprar e vender coisas como armas e artefatos. Ou como na franquia de simuladores da vida real The Sims, onde os jogadores compram qualquer coisa, de pizzas até casa com Simoleons.

Mas nesses jogos mais antigos, a moeda do jogo não possuía valor no mundo real. Houve jogos como World of Warcraft onde um mercado nebuloso para trocar itens e personagens do jogo surgiu ao redor dele. Mas jogue-para-faturar traz isto a um outro patamar. Então, como estes jogos funcionam e em qual direção eles estão indo? 

PARA O INFINITO . . .

O líder desta nova área é o Axie Infinity, um jogo estilo Pokémon criado pelo desenvolvedor vietnamita Sky Mavis. Ele possui cerca de 350.000 usuários diários, cerca de 40% pertencem às Filipinas, sendo a Venezuela e os Estados Unidos os próximos maiores mercados.

O jogo gira em torno de criaturas fofas e peludinhas chamadas Axies, que os jogadores criam, adquirem, treinam e usam para competir em desafios e batalhas online. O objetivo do jogo é obter pequenas poções amorosas – small love potions (SLPs) – que podem ser usadas para criar novos Axies que então podem ser usados no jogo. 

As SLPs funcionam também como criptomoedas que podem ser compradas e vendidas. Os principais jogadores estão declarando ganhos de até SLP1,500 ($435) por dia através de seus Axies, apesar do preço das SLPs com relação ao dólar mudar constantemente. Ele vem crescendo consideravelmente desde 2020, então há um argumento para manter as SLPs – ou, alternativamente, vender enquanto a maré está boa.

Os próprios Axies podem ser trocados na vida real no Axie Marketplace como NFTs (tokens não-tangíveis). NFTs são coleções digitais que existem em cadeias online conhecidas como blockchains, e ficaram famosas por recentemente aparecer com tudo no mundo da arte.

Assim como os Axies, outros itens do jogo como propriedades, flores, barris e luminárias podem ser comercializados como NFTs também. Isso tudo é comprado e vendido usando ethereum, a segunda maior criptomoeda depois da bitcoin.

Esta é uma melhoria bem vinda com relação aos predecessores como World of Warcraft onde comércio de ouro e bens do jogo acontecia em sites de leilão não-afiliados e eram motivo para banimento do jogo por longos períodos. Ao introduzir um mercado dedicado, NFTs e blockchain, o comércio em torno do Axie Infinity e de outros jogos similares é mais seguro e permite que o usuário realmente tenha posse dos itens. 

Para começar a jogar Axie Infinity, os jogadores precisam comprar (ou pegar emprestado) três Axies. Eles estão disponíveis a partir de US$190, apesar da média atual ser de cerca de US$350, sendo que os de melhor nível, mais raros ou místicos custam muito mais.

O Axie mais caro de todos os tempos, um místico triplo chamado Angel, foi vendido por ETH300 no final de 2020, o que na época era algo em torno de US$120 mil. Enquanto isso, uma propriedade imobiliária dentro do ambiente virtual foi vendida por US$1,5 milhões no começo 2021. O valor mensal comercializado de NFTs da Axie Infinity NFTs está atualmente na casa dos US$ 170 milhões.

Por fim, há uma outra criptomoeda associada ao jogo chamada Axie Infinity shard (AXS). Os investidores em AXS possuem um voto de governança no ecossistema do jogo e podem usá-lo para conseguir uma parte do tesouro comunitário. A AXS também cresceu de forma impressionante, subindo até seis vezes nas últimas semanas. Ela é a maior criptomoeda de jogos do mercado.

. . . E ALÉM

Além do Axie Infinity, o CryptoKitties é outro jogo do tipo jogue-para-faturar que ganhou uma quantidade grande de seguidores. Neste jogo, os jogadores compram, criam e vendem gatos digitais usando ethereum. Novamente, estes gatos são NFTs, que geram riqueza não somente para os desenvolvedores, mas para a comunidade de jogadores. O CryptoKitty mais caro já vendido até hoje chamava-se Dragon e custou ETH600 (cerca de US$170 mil na época).

Além de gerar uma renda real para os jogadores, esses jogos também criam comunidades onde os gamers e os desenvolvedores podem se encontrar, compartilhar ideias e fazer negócio uns com os outros. Um bom exemplo disso é o  The Sandbox, um jogo do mesmo tipo de Minecraft onde os jogadores constroem e trocam objetos entre si na forma de NFTs. 

Esta economia discreta é movida por sua própria criptomoeda, o SANDT. Uma forma de ganhar SAND é vendendo lotes de terrenos digitais, conhecidos como LAND que os jogadores podem comprar para suas vitrines como forma de compartilhar experiências com visitantes do mundo. Somente em fevereiro, o jogo anunciou um recorde de 2.352 lotes de LAND vendidos por um total de US$2,8 milhões.

Com tamanhos níveis de interesse, grandes marcas estão vendo o potencial de tomar parte neste universo em expansão. Por exemplo, The Walking Dead irá abrir suas portas em breve na plataforma, permitindo que os jogadores entrem em um mundo zumbi dentro do jogo, no que a Sandbox diz ser um passo para um “parque de atrações virtual.” Marcas como esta provavelmente trarão uma audiência mais consistente para a plataforma. 

Agora que jogos como estes são possíveis, parece provável que eles vieram para ficar. Muitos jogos mantiveram comunidades online no passado, mas ao adicionar a capacidade de ganhos financeiros, este novo tipo de jogo pode levar a novas comunidades ainda mais sucesso no futuro. É hora de começar a olhá-los mais de perto. 

SOBRE O AUTOR

Drew Cattanach, Palestrante sobre Desenvolvimento de Jogos de Computador, Universidade de Westminster. Este artigo foi republicado do The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.