POR ERIC MOSLEY

Não é de espantar que as empresas devem gastar $4 trilhões ao redor do mundo em tecnologia. Nós ainda estamos gerenciando os efeitos de uma pandemia que virou de ponta cabeça o jeito que as empresas normalmente operam e a tecnologia continua oferecendo as soluções necessárias para a transformação digital e a conectividade que ainda faltam a muitos negócios.

Contudo, este encanto – que nem é tão recente – de uma solução tecnológica mágica que irá resolver todos os problemas é discutível, principalmente quando avaliamos as novas relações entre empregado e empregador que vêm sendo desenvolvidas. No mercado de trabalho atual, os empregados se veem no assento do motorista, com o poder para pedir mais e pressionar os empregadores a criarem melhores ambientes de trabalho. Isso deixou muitos gestores em posição precária, na qual eles podem finalmente começar a reavaliar o valor das pessoas e seus investimentos em capital humano. 

Em “The trillion-dollar difference,” a empresa de consultoria Korn Ferry entrevistou 800 executivos em cargos de liderança ao redor do mundo, para entender o quanto os líderes corporativos de hoje valorizam a parte humana dos negócios. Eles descobriram que a maioria dos executivos possui um ponto cego quando se trata de como e por que investem naquilo que investem. A maioria dos entrevistados respondeu que a tecnologia “produziria mais riqueza no futuro que o capital humano” e deram grande valor aos investimentos em inovação. 

Compare estes dados com o fato de que cada US$1 investido em capital humano corresponde a US$11,39 de aumento no PIB e a minha confiança no futuro da tecnologia despenca. O modelo antigo de trabalho por salário, que foca na busca de extrair o melhor dos funcionários junto com um investimento abundante em tecnologia, está afetando a força de trabalho. Ao focar prioritariamente em manter-se no topo dos avanços tecnológicos, corremos o risco de ignorar aquilo que realmente está movendo os negócios hoje: as pessoas. 

Com isso, proponho um investimento em um novo conjunto: um conjunto cultural que prioriza um ecossistema integrado de crenças e comportamentos humanos que podem fazer a diferença entre um desempenho empresarial bom e ótimo. Com a rotatividade de funcionários alcançando a máxima histórica, precisamos começar a inspirar os colaboradores a dar o seu melhor e a trazer o melhor nos outros – e isso deve começar de cima, a partir dos executivos e líderes.

E como faremos para chegar lá? Propósito, significado, confiança mútua e reconhecimento são construídos a cada interação e dependem de uma estrutura facilitadora – criada pelos líderes. Da mesma forma que você espera que um plano abrangente faça com que seus projetos de tecnologia corram bem, você precisa ser estratégico em relação a como o seu conjunto de culturas está desfrutando ao máximo do seu investimento. 

PRIMEIRO PASSO: PREOCUPE-SE COM O FEEDBACK DOS COLABORADORES, NÃO SÓ DOS CLIENTES

Se as empresas querem conhecer melhor as necessidades de seus colaboradores, a solução mais fácil é perguntar. Sendo líderes da área de tecnologia, estamos acostumados a loops de feedback quase incessantes quando falamos de nossos produtos e temos uma obsessão pelo cliente que eclipsa quase todo o resto e comanda o nosso roadmap. O que aconteceria com a nossa cultura se trouxéssemos essa obsessão para dentro também? 

Quando você pensa nos atrativos do Vale do Silício, deve pensar em coisas como chopeiras e mesas de ping pong nas áreas comuns. Mas será que isto reflete com precisão o que os colaboradores realmente querem e precisam? E como a pandemia mudou estas necessidades? Será que eles não estão, nessa altura, menos preocupados com benefícios do escritório e mais interessados em estar perto de casa, ou em estar em um lugar com uma cultura de trabalho positiva? Uma maneira simples de consertar isso é começar a fazer pesquisas constantes para avaliar a pulsação da empresa e fazer perguntas específicas que cheguem ao cerne de possíveis preocupações ou necessidades que possam surgir. Comece a conversar em particular com membros da equipe – tanto seus pares como os membros mais juniores – para criar um ambiente de confiança. 

SEGUNDO PASSO: TRANSFORME A CULTURA EM SINÔNIMO DE HUMANIDADE

Frequentemente culpada por priorizar as coisas erradas (como a água com gás mais cara que o dinheiro pode comprar), a cultura das startups costuma ser atacada quando a olhamos mais de perto, e a utopia não é o que parece. Isso é o que acontece quando investimos mais nas coisas que supostamente impulsionam nossos negócios, do que nas pessoas que impulsionam nossos negócios.

Acabou o tempo em que sinal de sucesso era ninguém saber da sua vida pessoal no ambiente de trabalho. De cara, esta é uma ideia absurda. No mundo de hoje, sabemos o valor de celebrar o ser humano como um todo. Precisamos encontrar maneiras de assegurar que vemos nossos colegas como eles são, sabendo que seremos aceitos e abraçados por aquilo que somos. E por onde começar? 

Trabalhe com seu líder de RH para criar um plano que priorize uma cultura aberta na qual falar sobre coisas de fora do trabalho seja aceito. Pode ser algo simples como celebrar momentos importantes na vida de cada um no time – seja uma casa nova, um aniversário ou um nascimento. 

Na onda das mudanças provocadas pela pandemia, mais do que nunca é importante ajudar seus colaboradores a sentirem-se confiantes de que suas vidas pessoais importam no ambiente de trabalho. Trazer este nível de humanidade à experiência do dia-a-dia é a melhor forma de colocar-se na posição de ouvir e entender o que os seres humanos da sua empresa precisam. E entender essas necessidades será crítico para passarmos por mais um ano de grandes mudanças na sociedade e nas organizações. 

TERCEIRO PASSO: PRIORIZE A TECNOLOGIA CERTA PARA O SEU PESSOAL

A tecnologia é um ponto crítico no ambiente de trabalho, então eu não estou aconselhando a eliminação total do investimento em tecnologia, mas sim o investimento em tecnologias que irão ajudar os colaboradores a apresentar a melhor versão deles mesmos. Após um ano de trabalho remoto, a maioria das empresas possui infraestrutura para fazer videoconferências e isso não vai mudar muito quando passarmos para um ambiente híbrido ou pessoal. Ainda assim, vários estudos como a pesquisa de satisfação de funcionários de 2021 da Eagle Hill Consulting, mostram como os funcionários estão insatisfeitos com a tecnologia ao seu dispor: para 20% deles, a tecnologia torna seu trabalho mais difícil. 

Ao invés de priorizar ferramentas colaborativas para o ambiente de trabalho (depois de mais de um ano em casa, somos todos experts em colaboração virtual), procure incorporar opções para os colaboradores se conectarem e trocarem feedbacks e opiniões e se sentirem valorizados, respeitados e ouvidos no ambiente de trabalho. 

Nós, executivos, temos cada vez menos tempo para criar um ambiente de trabalho inclusivo e humano que estimule o crescimento das qualidades humanas – e que as máquinas não conseguem replicar. Felizmente, as pessoas respondem tão bem a este tipo de ambiente que, uma vez viabilizado, cria-se um ciclo autossustentável. Os colaboradores gostam de viver em um ambiente de confiança mútua. Eles gostam de uma cultura acolhedora e respondem com energia e engajamento. Mesmo diferentes, mas unidos pelo mesmo objetivo, eles aprendem a trazer o melhor de si mesmos.

O ambiente de trabalho humanizado está nascendo. Você está preparado para ele?

SOBRE O AUTOR

Eric Mosley é CEO e cofundador do que começou como Globoforce e agora é Workhuman.