POR ALEXANDRE TEIXEIRA

Adriano Mussa, diretor acadêmico e sócio da Saint Paul Escola de Negócios (Crédito: Divulgação)

Já havia disrupções acontecendo em todos os setores antes do coronavírus. Há exemplos óbvios que ficaram velhos, como Airbnb e Uber. Outros mais atuais, como iFood. Transformações nos negócios refletem no mundo do trabalho. “Aí a disrupção está na diferença entre as competências requeridas pelos empregos que estão sendo extintos e as competências exigidas pelos novos empregos”, adverte Adriano Mussa, diretor acadêmico e sócio da Saint Paul Escola de Negócios. Por competências, entenda conhecimentos, habilidades e atitudes. Saber, saber fazer, ir lá e fazer. Por novos empregos, entenda atividades como data driven marketing, analytics, especialista em IoT, especialista em cloud computing. Tudo muito novo, exigindo competências muito novas, demandadas pelas próprias tecnologias que provocaram a disrupção dos negócios. O dado ainda mais novo é que a pandemia acelerou esse processo de tal modo que 97% das empresas brasileiras, segundo recorte da pesquisa de 2020 do Fórum Econômico Mundial, estão propensas a investir agora em inteligência artificial, data science e analytics.

Essa decisão afeta todos os tipos de empregos, inclusive os tradicionais. Pense num analista financeiro. As competências de que precisará daqui para frente não são as do analista do passado. “Um cientista de dados é capaz de fazer o trabalho de 15 analistas financeiros do modelo antigo. Talvez de 20 ou 50”, provoca Mussa. Ele próprio é um profissional originalmente de finanças. Começou no mercado financeiro, fez mestrado e doutorado na área, migrou para educação e hoje lidera a área de inteligência artificial do LIT, plataforma digital de cursos da Saint Paul. Depois de implantar essa ferramenta de ensino à distância personalizado, foi estudar IA na Columbia University, em Nova York. Levou, segundo calcula, cinco vezes mais tempo do que achava que precisaria para entender com profundidade as capacidades da inteligência artificial. Foi um despertar. “São competências complicadas de desenvolver”, diz. E são competências às quais a maioria no Brasil tem aversão. Por exemplo: estatística e matemática.

Projetando esse cenário para o futuro, ainda com base nos dados do Fórum Econômico Mundial, salta aos olhos o risco de um mundo dividido entre aqueles que têm e aqueles que não têm as tecnologias do século XXI. Mais do que comprar acesso a elas, será preciso entendê-las. “Isto não é óbvio, e eu vejo muitas lideranças com aversão a esses temas”, diz Mussa.

“o novo analfabetismo digital […] não tem a ver com acesso à tecnologia, mas com a incapacidade que a imensa maioria de nós tem de compreender as novas tecnologias”

Essa aversão, de certo modo, ecoa reflexões do psicanalista brasileiro Jorge Forbes, que foi orientado por Jacques Lacan, em Paris, entre 1976 e 1981, e é um dos introdutores do ensino dele no país. Referência em pós-modernidade, mais popularmente conhecido pelo programa TerraDois, da TV Cultura de São Paulo, Forbes é um “distinguished professor” da Saint Paul, tido por Mussa como um dos maiores pensadores do Brasil. E está preocupado com um novo analfabetismo digital, que não tem a ver com acesso à tecnologia, mas com a incapacidade que a imensa maioria de nós tem de compreender as novas tecnologias. Para Mussa, se queremos antecipar para onde o mercado de trabalho deve caminhar no dia depois de amanhã, a tarefa para hoje é preparar-se para adquirir as novas competências necessárias. Ele não está sugerindo que todos devamos nos tornar codificadores de Python. Está dizendo que todos nós, e sobretudo os líderes, precisamos ao menos entender as capacidades dessas novas tecnologias.

Não estamos acostumados a pensar exponencialmente, mas é em escala exponencial que tais tecnologias evoluem. Isso ilustra como é difícil entendê-las. Paradoxalmente, é mais fácil utilizá-las.

Já existe uma geração de aplicativos do tipo “AI as a Service”, plug and play. Compra-se a licença de um algoritmo pronto e coloca-se para rodar. Mas o que comprar? Onde investir? Quais as reais necessidades? Estas são as respostas que terão de sair das lideranças.

A situação do Brasil é crítica. A base da pirâmide tem uma deficiência de formação importante. Em estatística, em matemática, quase todas as áreas. A liderança, Mussa enfatiza, apresenta uma boa dose de negacionismo – uma especialidade brasileira ressaltada no último ano e meio. Com essas dificuldades na base e no topo, mesmo com a “AI plug and play” as chances de sucesso parecem remotas. O único caminho vislumbrado por Mussa é um esforço para mudar o modelo mental das lideranças empresariais: “Não é porque elas ganham mais que o impacto é maior. O impacto é maior porque elas são responsáveis por mais pessoas”.

“O desafio, do ponto de vista corporativo e mesmo das sociedades, é provar que a mudança para o novo modelo de liderança não é opcional.”

Poderia haver uma saída governamental, um projeto nacional digno do nome, mas esta hipótese nem mesmo merece verificação no momento. Restam os líderes empresariais. “Se eles mudarem a chave, se dedicarem a entender a importância [da tecnologia] e forem atrás de entender as soluções, vão ajudar os seus liderados nos processos de reskilling”, diz. “É preciso vontade de começar.” Vontade que, até certo ponto, seria antinatural, uma vez que os líderes atuais chegaram ao topo apontando caminhos (e não fazendo boas perguntas), formulando hipóteses e deixando os dados responderem. O novo modo de liderar, na visão de Mussa (e, supostamente, na dos líderes) representa uma perda de poder.

O desafio, do ponto de vista corporativo e mesmo das sociedades, é provar que a mudança para o novo modelo de liderança não é opcional.   E não por acaso, um dos dois grandes grupos de competências do futuro identificados pelo Fórum Econômico Mundial – ao lado do domínio das tecnologias – reúne exatamente aquelas em que as máquinas e os algoritmos são péssimos, as chamadas soft skills. Tudo o que tem a ver com criatividade, inovação, liderança  e influência social. Estes são, portanto, os dois grupos de empregos do futuro: aqueles que dependem de entender as novas tecnologias e os que dependem de desenvolver habilidades interpessoais – obviamente, sem deixar de aprender os hard skills de cada área.

SOBRE O AUTOR

Alexandre Teixeira é jornalista, escritor, cofundador da ODDDA (O Dia Depois De Amanhã) e colunista mensal da Fast Company Brasil.