POR SATYA NADELLA

Em uma tarde tranquila de um fim de semana, fiz uma pausa para reler o diário que minha me deixou antes de falecer, como uma forma de me lembrar dela e do que ela significa para mim. Minha mãe era professora de sânscrito e, em meio a todas as reflexões que ela fazia sobre a sua vida cotidiana e sobre os desafios de ser acadêmica, esposa e mãe, seu diário trazia observações de natureza mais transcendental. Anotações que iam desde nuances de um antigo drama sânscrito a seus comentários sobre os filósofos orientais e ocidentais.

Uma passagem, em especial, chamou minha atenção. Nele, ela invoca o filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard: “o objetivo da reflexão é chegar ao imediatismo”. Esse me parece ser exatamente o cerne da liderança. Estamos vivendo tempos sem precedentes. Temos que aprender com o passado e nos inspirar pelo que é possível no futuro. No entanto, o que precisamos fazer agora é conseguir agir quando a paralisia for a reação mais natural.

Esses são os tipos de pensamento que a leitura me provoca. Os cinco livros a seguir foram lidos por mim no ano passado ao longo do ano, e estão formando o meu pensamento atual sobre liderança, tecnologia e futuro.

Philosopher of the Heart: The Restless Life of Søren Kierkegaard, de Clare Carlisle 

(Filósofo do Coração: A vida Agitada de Søren Kierkegaard, ainda sem edição brasileira)

Lembrei-me do diário de minha mãe ao ler a biografia de Søren Kierkegaard escrita por Clare Carlisle. Em seu livro, podemos sentir a poesia do pensamento de Kierkegaard. Sua escrita explora a experiência humana, principalmente o amor e o sofrimento. Considerado o pai do existencialismo, Kierkegaard retoma de onde Sócrates parou, perguntando como ser um ser humano no mundo. Como viver eticamente? Carlisle observa que Kierkegaard não acha a vida linear: “Voltamos atrás em lembranças e corremos para frente com esperanças, medos e planos”.

Essa é uma maneira perspicaz de capturar o que é liderança – criando clareza, gerando energia e impulsionando o sucesso. Esses atributos de gestão kierkegaardianos continuam sendo valiosos.

Utopia or Oblivion: The Prospects for Humanity, de R. Buckminster Fuller 

(Utopia ou Esquecimento: Projeções para a Humanidade, ainda sem edição brasileira) 

O arquiteto lembrado por suas estruturas esféricas, incluindo sua famosa cúpula geodésica, não era um filósofo, mas suas teorias arquitetônicas não eram menos idealistas do que o coração kierkegaardiano. Na introdução do livro que reúne palestras proferidas por Buckminster Fuller por todo o mundo durante a década de 1960, seu neto lembra que, mesmo em uma breve viagem para o aeroporto, “Bucky”, como era conhecido pela família, priorizou cada momento para se concentrar em fazer o mundo funcionar para 100% da humanidade.

Há alguns anos, a Fast Company declarou que as ideias de Fuller, focadas em problemas que vão desde conflitos globais até mudanças climáticas globais, são mais importantes do que nunca. Essas ideias estimularam uma revolução no design. Em nosso mundo tão acelerado, como a capacidade econômica e tecnológica pode ser desfrutada por todos – e como o design pode fazer isso? Fuller escreve que os recursos físicos da Terra podem sustentar toda uma humanidade em multiplicação com padrões de vida mais elevados do que qualquer pessoa jamais experimentou ou sonhou.

Em um mundo onde trabalhamos para superar as restrições e para resolver problemas complexos, Fuller nos mostra que a ciência do design pode nos ajudar a fazer mais com menos. Publicado em 1969, Utopia or Oblivion continua sendo uma declaração lógica e bem argumentada sobre nosso futuro coletivo.

The Alignment Problem: Machine Learning and Human Values, de Brian Christian

(Um Problema de Alinhamento: Aprendizado de Máquina e Valores Humanos, ainda sem edição brasileira)

A inteligência artificial é hoje a prioridade da tecnologia, e ando entusiasmado e otimista com as formas como ela vem sendo aplicada para capacitar as pessoas. Por exemplo, o Seeing AI da Microsoft é um aplicativo que transforma o mundo visual em uma experiência audível para pessoas cegas ou com baixa visão. E ferramentas como o Immersive Reader ajudam a melhorar a leitura e a escrita para alunos de todas as habilidades.

Em The Alignment Problem, Christian oferece uma descrição clara e convincente do campo promissor e, ao mesmo tempo, perigoso do aprendizado não supervisionado em IA e aprendizado de máquina. Tribunais, hospitais e escolas contam com modelos de aprendizado de máquina baseados em dados para aumentar sua precisão e seu poder preditivo, mas o que acontece quando os dados, o modelo ou ambos são enviesados? As máquinas que aprendem por si mesmas podem se tornar cada vez mais autônomas e potencialmente antiéticas.

Em seu livro anterior, escrito com Tom Griffiths, Algorithms to Live By, Christian investiga a ciência da computação das decisões humanas. Neste último, ele afirma que queremos modelos de aprendizado de máquina que capturem normas e valores, mas se pergunta: quais normas e valores? Como alinhamos o treinamento humano de modelos de máquina com considerações morais? Como garantimos que os valores éticos sejam valorizados?

O livro está organizado em três partes: a primeira identifica como os sistemas de hoje estão em desacordo com nossas melhores intenções; a segunda cria incentivos para a aprendizagem por reforço baseada em valores; e a terceira oferece um apanhado das ideias favoritas do autor para alinhar sistemas autônomos complexos com normas e valores altamente diferenciados.

A narrativa aqui nos leva do teórico para o prático, enquanto tentamos responder a uma das perguntas mais urgentes do nosso setor: como ensinamos as máquinas e o que devemos ensiná-las?

The Difference: How the Power of Diversity Creates Better Groups, Firms, Schools, and Societies, de Scott E. Page

(A Diferença: Como o Poder da Diversidade Cria Melhores Grupos, Empresas, Escolas e Sociedades, ainda sem edição brasileira)

Quando me tornei CEO da Microsoft, missão e cultura eram os pilares mais importantes na construção do futuro da nossa empresa. Nossa missão passou a ser capacitar cada pessoa e cada organização no planeta para alcançar mais. Para ter sucesso, precisávamos representar o próprio mundo, e é por isso que a diversidade e a inclusão são prioridades.

Em A Diferença, Page avança nessa conversa, definindo claramente a diversidade em termos de diferenças em como as pessoas veem, categorizam, entendem e de diferenças no que elas fazem para melhorar o mundo. Como líder e leitor, estou em uma jornada contínua de aprendizagem. E o autor nos oferece ferramentas para obter resultados melhores para todos. Essas ferramentas incluem diversas perspectivas, hipóteses, interpretações e modelos preditivos.

Conhecido pelo seu curso online e livro The Model Thinker, os títulos de Page já enchem uma estante sobre diversidade e complexidade, e são de vital importância para os negócios e para a sociedade.

Power of Creative Destruction, de Philippe Aghion, Celine Antonin e Simon Bunel

(O Poder da Destruição Criativa, ainda sem edição brasileira)

Os autores, três pesquisadores econômicos franceses, argumentam que os problemas socioeconômicos revelados durante a pandemia global – bem-estar, saúde, desigualdade e muitos outros – não serão corrigidos pela abolição do capitalismo, mas pela invenção de um capitalismo melhor, por meio do poder da destruição criativa, que eles definem como inovações que perturbam e elevam as sociedades.

A abordagem deles foge à ingenuidade. Eles começam com uma revisão fascinante da destruição criativa na história econômica com foco em como medimos a riqueza das nações, PIB, coeficientes de Gini e produtividade – medições que os autores consideram úteis, mas insuficientes no mundo de tecnologia mais dados de hoje. Em vez disso, eles escrevem, a inovação e a difusão do conhecimento devem estar no centro dos processos e medições de crescimento. E a inovação depende de incentivos e proteções.

Do ponto de vista da minha posição profissional, isso significa enfatizar oportunidades econômicas inclusivas para todos. Precisamos equipar a todos com as habilidades, a tecnologia e as oportunidades de buscar os empregos demandados por uma economia em mudança.

A destruição criativa é um conflito constante entre o velho e o novo, o incumbente e o insurgente. Filosófico, sim, mas também pode render conselhos práticos. E isso tem tudo a ver com a vida diária em nosso setor.

SOBRE O AUTOR

Satya Nadella é o presidente executivo e CEO da Microsoft.