POR ALEXANDRE TEIXEIRA

Karen Kanaan, sócia e diretora da 42 São Paulo: “Um sistema que era linear, marcado pela competição, virou um ecossistema marcado pela colaboração” (Crédito: Divulgação)

No universo em expansão de pessoas físicas e jurídicas que preparam gente para o dia depois de amanhã, Karen Kanaan é das raríssimas com coragem para dizer: “Não tenho a menor ideia de como vai ser o futuro”. Ela prefere pensar que cada indivíduo constrói futuros (no plural) enquanto eles acontecem.

Karen é sócia e diretora da 42 São Paulo, inciativa global de educação que propõe um novo jeito de aprender tecnologia. Sem professores, sem salas de aula, onde aluno aprende com aluno, usando um método que desenvolve habilidades para a computação e para a vida. Ela se lembra que, até antes da pandemia, muita gente dizia que o trabalho remoto era o futuro. As organizações mais ousadas, permitiam que as pessoas trabalhassem de casa uma vez por semana, com o TeamViewer ligado para controle da produção. Há quase um ano e meio, porém, o home office é o presente. Ficou claro que a digitalização, que envolve o teletrabalho e o uso de ferramentas digitais como estilo de vida, é possível. Mas e o controle?

“Suas métricas são faturamento, lucro, ROI? Ok, você está na economia clássica. Ou você está medindo grau de empoderamento, usando um índice de felicidade? — Karen Kanaan”

Nos quase sete anos que passou na Endeavor, Karen habituou-se ao mantra “Quem não mede não gere”. Hoje, para ela, o mote deve ser outro: “Diga-me o que mede e te direi quem és”. Suas métricas são faturamento, lucro, ROI? Ok, você está na economia clássica. Ou você está medindo grau de empoderamento, usando um índice de felicidade? Um sistema que era linear, marcado pela competição, virou um ecossistema marcado pela colaboração. “O quanto você consegue enxergar isso na sua escolha [de futuro]?”.

Essa mudança está ligada a propósito. “As pessoas começaram a se questionar”, afirma Karen. “A transformação digital não é um processo estratégico. É um processo cultural.” Pense na 42. Seu modelo era 100% presencial. Quando a pandemia a obrigou a se tornar 100% virtual, o grande desafio não foi encontrar uma ferramenta para operar online. Foi preservar “o meu jeito de ser, que é a minha cultura: o que eu meço, o que eu valorizo, a experiência, a interação”.

Karen define a 42 como uma comunidade. Pelo próprio método lá desenvolvido, as pessoas só aprendem se contribuírem umas com as outras. Com isso em mente, a ferramenta escolhida para a digitalização chama-se Discord e é oriunda do mundo dos gamers. “Tem várias salas, e você já está convidado a entrar”, diz Karen. “Você entra numa sala e já aparece com voz e vídeo.” Essa plataforma permitiu à 42 criar um ambiente mais próximo do que existia no presencial.

“Quando a pandemia a obrigou a se tornar 100% virtual, o grande desafio não foi encontrar uma ferramenta para operar online. Foi preservar o meu jeito de ser, que é a minha cultura”

Não sem dificuldades. “Tenho mil coisas no meu dia: meus filhos, minha comida, meu trabalho”, diziam os alunos, sobretudo no início. “Tudo ficou num lugar só e, se prioridade é uma palavra que não tem plural, como é que enxergo qual é a minha”, diz Karen, traduzindo a inquietação. Como oferta de ajuda, a primeira providência foi organizar grupos, reuniões e palestras sobre equilíbrio emocional. A segunda questão era: como, dentro dessa comunidade de mais de 100 pessoas, ficar próximo daqueles mais tímidos, dos que estão com depressão, dos que têm TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade), de um aluno autista? Como resposta, a 42 dividiu a comunidade em “vilas” de seis pessoas, responsáveis por cuidar umas das outras.

O passo seguinte foi olhar para o jogo que é a base do ensino nessa escola. Por problemas de adaptação à vida online, os alunos estavam com dificuldades para progredir em seus projetos. Então, a 42 (no Brasil; não no mundo) mudou o jogo, introduzindo ciclos. Como regra básica, é preciso sair do nível 1 e chegar ao nível 7 para se formar. O tempo médio nas unidades da 42 espalhadas pelo mundo varia de 10 meses a 17 meses. Se um aluno está, digamos, há seis meses no segundo nível, é sinal de que estagnou. Com os ciclos, os check points ficam mais próximos. Cada projeto tem um ciclo. Duas a três semanas é um tempo médio para percorrê-lo. Como em um videogame, você tem vidas. Começa com quatro e vai perdendo à medida que (não) avança.

Com essas inovações, a 42 São Paulo deixou de ser franqueada para ser “francriadora”. Seu processo 100% online evoluiu mais, entre outros motivos, porque as condições sanitárias brasileiras não permitiram a reabertura do campus, ao contrário do que se viu quase no mundo todo. Com isso, as soluções para ensino remoto aqui desenvolvidas nessa situação de adversidade hoje estão sendo replicadas na Malásia, na França e na Alemanha. “Existe uma coisa imutável, que é o método. A gente entende que isso funciona, que não precisa mexer, mas a forma como o aprendizado acontece pode ser alterada”, explica Karen. O ajuste se dá na forma como o ser humano funciona com a tecnologia, e como a tecnologia funciona com o ser humano.

“O campus virou um acessório. Muito mais para a manutenção da cultura do que para a manutenção da operação. Muito mais um lugar para conexões memoráveis do que para manter uma rotina operacional”

É preciso considerar uma mudança drástica de escala. A 42 era um lugar que recebia, em quatro dias, 800 pessoas para três eventos diários. Ao ir para o universo online, tudo é condensado para 1,2 mil pessoas em um dia, divididas em quatro videoconferências. Como medir o engajamento? “Por nível de participação, de perguntas, câmera aberta”, diz Karen. Muito mais gente faz perguntas no online, abrindo o microfone ou usando o chat. Na última fase do processo seletivo, chamado de piscina quando presencial, a 42 recebia, no limite, 176 pessoas, uma por máquina disponível na escola. Hoje, no processo agora virtual e chamado basecamp, são 350 pessoas.

“No processo presencial de seleção, tinha gente que estava no quinto dia e não tinha passado no primeiro exercício”, conta Karen. “No online, em três horas não tem ninguém no primeiro exercício.” Os testes são colaborativos. Quando alguém pede ajuda, as dicas dos colegas são vistas por todos os participantes. “Para aqueles que são tímidos, mas retraídos e têm vergonha, isso ajuda demais”, nota ela. Ainda na seleção, há uma prova toda sexta-feira. Na era presencial, quem tirava zero saía sem olhar para os lados. Hoje, a pessoa acaba a prova e entra numa sala chamada “Fala que eu te escuto”. E o que se escuta, não raro, é de cair o queixo. “Sou chinês, tenho 37 anos e nunca tirei zero. Como é que explico isso para o meu pai?”, disse um candidato. “A galera consegue se juntar e se abrir. Todo mundo pensa: ‘Eu não fui o único’”, conta Karen.

Tudo isso foi formatado nos últimos meses, o que sublinha a tese de que os futuros se constroem. Sua percepção é de que a cultura foi preservada. “A gente não mudou o jeito de tratar as pessoas, mas buscou formas e processos que permitam escalar sem que a comunidade deixe de existir”, afirma Karen. “Tem seus desafios, tem suas dores, mas está funcionando.”

O futuro da 42 é híbrido – mas mais remoto que presencial. “O campus virou um acessório. Muito mais para a manutenção da cultura do que para a manutenção da operação”, diz Karen. “Muito mais um lugar para conexões memoráveis do que para manter uma rotina operacional.”

SOBRE O AUTOR

Alexandre Teixeira é jornalista, escritor, cofundador da ODDDA (O Dia Depois De Amanhã) e colunista mensal da Fast Company Brasil.