POR ALEXANDRE TEIXEIRA

Leandro Herrera, fundador e CEO da Tera (Crédito: Divulgação)

Ao longo da pandemia, as empresas em geral aumentaram muito o foco e os investimentos em inteligência artificial e automação, especialmente por conta da descentralização do trabalho. Como resultado, explodiu a demanda por competências em dados – desde o que é conhecido como data literacy (alfabetização em dados) até as especialidades de extração e manipulação de dados, desenvolvimento de algoritmos, recomendações e outros insights de negócios.

Essas ocupações, associadas a dados e inteligência artificial, deverão responder por 16% dos novos postos de trabalho a serem criados na economia global até o fim do ano que vem. Outra projeção: 75 milhões de ocupações serão “deslocadas” (de humanos para algoritmos) e 133 milhões de empregos serão criados. O saldo, então, seria positivo em 58 milhões de ocupações, segundo dados do Fórum Econômico Mundial. Desses 133 milhões de novos empregos, 27% estão ligados ao eixo de competências relacionadas à tecnologia. Dito de outro modo, mais de um quarto de todos os postos de trabalho que estão sendo criados ficarão dentro de categorias relacionadas à criação, produção e distribuição de produtos, serviços e soluções de base hi-tech.

“A forma como adultos estão olhando para a educação baseia-se numa lógica de investimento e retorno mais objetiva do que foi no passado.”

Organizações nativas digitais como o Nubank, uma das principais referências de empresas de tecnologia no Brasil hoje, já estão contratando profissionais de dados em quantidade há pelo menos quatro ou cinco anos. Por sua vez, instituições de ensino focadas nesse tipo de formação, como a Tera, fundada em 2016, já estavam olhando para essa problemática antes de ela se tornar mainstream. A novidade é que hoje vemos empresas tradicionais, de C&A a EY, contratando engenheiros de dados e cientistas de dados aos montes. A tendência, a rigor, é a mesma. “Só aumentou em urgência e tamanho”, diz Leandro Herrera, fundador e CEO da Tera.

Mais velocidade e escala, porém, tornam o jogo mais duro. A forma como adultos estão olhando para a educação baseia-se numa lógica de investimento e retorno mais objetiva do que foi no passado. “O curso em si, o conteúdo ensinado, é um meio para que as pessoas possam ascender profissionalmente”, observa Leandro. Sempre foi, mas agora os alunos fazem a conta.  Exemplo: Se eu estudar product management, vou sair de um papel de gerente de projeto e migrar para uma área de produto. O custo disso vai ser de 5 mil reais por três meses, porém o retorno vai ser um salário de entrada de 6.500 reais, com possibilidade de virar 15 mil reais em dois anos.

“Essa conta está sendo feita na ponta do lápis, e a gente sente até, de certa forma, um imediatismo, uma vontade de ter um retorno sobre o investimento muito rápido”, nota Leandro. Não era bem assim alguns anos atrás, quando se optava por fazer uma pós-graduação. O aluno sabia que aquilo seria bom para seu currículo, mas não havia um parâmetro objetivo tão claro.

Agora há, e algumas variações de modelo de negócio estão surgindo rapidamente para atender a esse tipo de demanda. Um exemplo é o acordo de compartilhamento de renda, popularizado nos Estados Unidos três anos atrás por iniciativa de uma empresa chamada Lambda School, focada especificamente em engenharia de software. É uma modalidade em que se faz um processo seletivo para pessoas que querem aprender uma competência e se oferece o curso para os candidatos selecionados sem cobrança de mensalidades. Eles só começam a pagar (um percentual do salário) quando tiverem renda. Imagine um aluno que estudou ciência de dados por um ano sem botar a mão no bolso. Ao se formar (ou frequentemente antes mesmo disso), ele consegue um emprego como cientista de dados que paga R $15 mil por mês. O acordo com a escola estabelecerá que, por exemplo, 10% do salário será direcionado para o pagamento do curso até chegar no valor devido. Se em qualquer momento nesse período a pessoa perder a renda, pára automaticamente de pagar. “Para esse conceito de educação,que gera uma oportunidade de aumento de renda e de empregabilidade, o acordo de compartilhamento de receita tem um alinhamento de interesses maior entre as duas partes”, pondera Leandro.

“Para a educação adulta, é quase como se a gente estivesse nos primeiros dias da internet.” – Leandro Herrera

Com a popularização do modelo pela Lambda, surgiram várias outras escolas e, na sequência, uma onda de fintechs que têm como um de seus produtos operar acordos de compartilhamento de receita para instituições de ensino. A própria Tera tem como parceira uma empresa chamada Provi. Outras escolas optam por verticalizar. Por exemplo, a Trybe, uma espécie de Lambda brasileira. Já a Revelo, uma startup de recrutamento, tem uma frente de financiamento chamada Revelo Up. Como o KPI base da empresa são pessoas empregadas pela plataforma, ficou claro que, se os candidatos dão um “up” em suas habilidades, aumentam sua empregabilidade e, então, isso reverte em sucesso para a Revelo. “As fronteiras entre educação e empregabilidade estão se confundindo, uma está se sobrepondo à outra”, afirma Leandro.

Até a pandemia, a Tera era híbrida. Hoje se entende como edtech, ou seja, uma plataforma de educação a distância. “Para a educação adulta, é quase como se a gente estivesse nos primeiros dias da internet”, nota Leandro. De um dia para outro, um mercado que era reprimido, com barreiras culturais e estigmas herdados de um legado negativo, floresceu. Assim como as empresas tinham preconceito com o trabalho remoto, também tinham com educação remota.

Em boa medida, essa resistência ruiu no longo período de distanciamento social. O que se busca hoje é humanizar o ensino a distância. Há no mercado de educação modelos como o do Coursera, um marketplace que tem a plataforma, tem parceiros em volta (as universidades que são as provedoras dos cursos), hospeda os conteúdos e os distribui. É um modelo de sucesso – o Coursera se prepara para o IPO –, mas em que os estudantes estão, a rigor, quase sempre sozinhos. Não há assistência humana. Na outra ponta do espectro, onde se pode colocar a Tera, há escolas 100% online também, mas em que o eixo da experiência são grupos de estudo. Ao vivo, trocando ideias, fazendo exercícios em conjunto. Ambos podem ser caracterizados como ensino a distância, mas com modelos muito diferentes no que tange ao encontro, à parte social da aprendizagem. Operando há mais de um ano com alunos divididos em grupos de 35, Leandro diz estar convencido de que o seu modelo funciona. “As pessoas gostam de ter um horário para se encontrar, gostam da convivência, mesmo que online, e isso cumpre um papel importante na aprendizagem”, afirma ele. Ao mesmo tempo, admite, é preciso encontrar uma maneira de fazer esse modelo se aproximar do potencial de escala de um Coursera. Aí é que está a dificuldade. 

A rigor, a Tera também opera como plataforma. “Só que nosso marketplace é formado por professores, os experts. Então, há um componente de gig economy, porque estou operando em rede”, afirma Leandro. Hoje são 180 professores que, na plataforma, dão aulas e ganham por hora. Numa ponta, há o supply side do marketplace, que são os experts. Na outra, o demand side, formado pelos estudantes. “No meio, eu tenho a metodologia da Tera, o sistema da Tera, a tecnologia de aprendizagem da Tera. Então, a gente conecta essas duas pontas”, nota Leandro.

O que se busca hoje é humanizar o ensino a distância.” 

Em cada aula, o que acontece é um encontro entre a demanda que a Tera gerou, o expert que faz parte da sua rede e a metodologia de aprendizagem proprietária, centrada em projetos.

Em todo o ano de 2020, a Tera atendeu a 2.200 estudantes. Só no primeiro trimestre de 2021, foram 1.000 alunos. A meta para este ano é chegar a 5 mil. A pandemia e a digitalização aceleraram o ritmo de crescimento à medida que o mercado passou a ser nacional. Suas turmas hoje têm, em geral, pessoas de seis ou sete estados diferentes. O próximo movimento deve ser a entrada em outras ocupações e competências dentro das categorias em que a Tera já atua: dados e inteligência artificial, gestão de produtos digitais, UX design, marketing, vendas e customer success. “Nossa visão não é ser um lugar que tenha 50 cursos. A Tera provavelmente ficará sempre [focada] nas ocupações e competências que ofereçam maior possibilidade de ascensão e tenham maior demanda no mercado”, nota Leandro. Hoje há seis cursos no portfólio.

Com o tempo, é provável que, além de ampliar a oferta de cursos hi-tech, a Tera entre em áreas mais relacionadas a pessoas e culturas, que também formam um cluster do Fórum Econômico Mundial. Em princípio, é um avanço rumo às soft skills, mas não necessariamente. Na categoria “pessoas”, há demanda, por exemplo, para desenvolvimento de software para recrutamento. A técnica para recrutar, por sua vez, está mudando, e esse passou a ser um ambiente competitivo.

Leandro acredita que o saldo líquido positivo de criação de vagas projetado pelo Fórum Econômico se aplica ao Brasil. “A dificuldade vai ser ocupar essas vagas”, adverte ele. Falta tudo, a começar por uma base em matemática e português, por problemas estruturais no ensino nacional – que, no momento, anda para trás. O contingente de candidatos às vagas em questão, contudo, é provavelmente maior do que o visível hoje. “Tem muita gente egressa de escola pública que às vezes, por uma série de questões, não conseguiu fazer uma universidade, não tem uma graduação, não consegue entrar no mercado de trabalho formal e fica num limbo”, diz Leandro. Esse limbo precisa ser garimpado, pois é certo que há nele um grande contingente de mão de obra com potencial para se tornar qualificado e, no processo, ascender socialmente.   

  

SOBRE O AUTOR

Alexandre Teixeira é jornalista, escritor, cofundador da ODDDA (O Dia Depois De Amanhã) e colunista mensal da Fast Company Brasil.