POR ALEXANDRE TEIXEIRA

Lucas Mello, fundador e CEO da Live: agência já habitou casarão em Pinheiros, coworking na Paulista, café na Vila Madalena e aderiu, em agosto do ano passado, o anywhere office (Crédito: Divulgação)

A Live, agência de criação independente, tem sido um campo de experimentos sobre novas formas de trabalhar. Em janeiro de 2019, a agência assumiu o trabalho remoto como regra para toda a equipe.

Mais de um ano antes da pandemia, portanto. Até então, a Live estava num WeWork, ocupando 120 posições de trabalho e abrigando também algumas pequenas startups do seu ecossistema. A mudança para aquele espaço aberto, apenas um ano antes, já vinha incomodando a Lucas Mello, fundador e CEO da agência, que notava uma perda da identidade construída entre 2006 e 2018, quando a Live funcionava num casarão em Pinheiros, na Zona Oeste de São Paulo.

A ficha caiu de vez num dia em que ele entrou no escritório e olhou para aquelas cento e tantas pessoas sentadas lado a lado, quase todas com fones de ouvido gigantes, sem olhar para o lado, conversando por e-mail e mensagem de texto.

“Em agosto do ano passado, Lucas fez um comunicado a todos os funcionários, dizendo que, a partir daquele momento, eles poderiam morar em qualquer cidade do mundo. A agência não exigiria mais que voltassem a São Paulo”

“Eu pensei: ‘Não é nada disso que eu tinha em mente quando quis botar todo mundo sentado junto. Queria que todo mundo estivesse conversando’”, conta ele. “Se é para as pessoas ficarem assim, vamos radicalizar, e cada um vai para a sua casa.” A Live saiu do WeWork e abriu um café na Vila Madalena, com salas de reunião e salas de workshop, que se tornou sua sede. As pessoas podiam ir para lá quando quisessem interagir com colegas, fazer reuniões com clientes, sessões de trabalho conjunto.

Naturalmente começaram a alternar trabalho em casa (cerca de 80% do tempo) e nesse espaço. Aí veio a pandemia, a agência teve de fechar esse café e assumir o modelo de anywhere office. Em agosto do ano passado, Lucas fez um comunicado a todos os funcionários, dizendo que, a partir daquele momento, eles poderiam morar em qualquer cidade do mundo. A agência não exigiria mais que voltassem a São Paulo.

“A cultura parte da premissa real da diversidade. Cada pessoa vem com um sotaque diferente, de uma cidade diferente, com referências diferentes — Lucas Mello”

Muita gente foi morar no interior. Outros foram para o Rio de Janeiro. Uma pessoa foi morar na Bahia. E a agência passou a contratar gente do Brasil inteiro. Hoje há funcionários de Goiás, Bahia, Rio Grande do Sul e Brasília, além de pessoas em Nova York e Amsterdã. A Live se tornou algo muito próximo do que seria uma agência em nuvem.

A Yellow Case da Live, mala com equipamentos de projeção, câmeras, áudio e internet que são uma espécie de agência móvel e pode ser transportada para as reuniões com clientes, quando forem retomadas as rotinas presenciais (Crédito: Divulgação)

Problema: perde-se muito não existindo encontros. A quantidade e a qualidades desses encontros é que precisa ser repensada. Quando o encontro é cotidiano, ele se banaliza. Por outro lado, encontros ocasionais são muito valiosos para a formação e manutenção de uma cultura. “Mas é preciso criar um setting perfeito para isso acontecer e se tirar o melhor proveito”, diz Lucas. Logo, a agência está desenhando uma evolução desse modelo para o pós-pandemia, usando referências de empresas de tecnologia que já trabalham de uma forma 100% remota. Como a Automatic, dona do WordPress. Será um modelo híbrido, mas sem um local fixo. A proposta é promover encontros em lugares diferentes. Como off-sites. Só que não tem site. Se bem-feitos, esses encontros determinam cultura, inovação e planejamento de futuro da companhia.

“Você acaba tendo uma formação de cultura diferente”, nota Lucas. “A cultura parte da premissa real da diversidade. Cada pessoa vem com um sotaque diferente, de uma cidade diferente, com referências diferentes.” É diferente da formatação que costuma acontecer em grandes organizações, nas quais as pessoas usam os mesmos jargões e se vestem da mesma forma. O que a agência está propondo é o inverso. Quando a pessoa passa a trabalhar remotamente, muitas vezes de casa, ela perde, por um lado, o convívio social com os colegas. Passa, porém, a conviver mais com a sua comunidade. Com a sua família. Uma boa rotina de gestão digital da empresa pode permitir o aproveitamento do melhor desses dois mundos. Os encontros presenciais tendem a ser mais ricos quando cada pessoa vem de um lugar diferente.

INDEPENDÊNCIA COMO OPORTUNIDADE DE NEGÓCIO

Ter a agência na nuvem conversa bem com a internacionalização da agência e a criação de novos negócios. Em 2018, começou um processo de expansão da Live em Nova York. Lucas morou lá por um tempo, assim como Karina Rehavia, diretora de operações internacionais.

Lá, depois de ver muitas agências trabalhando em torno de projetos, em oposição a contratos fixos, o mercado caminhando rumo à flexibilidade e muita gente boa saindo de suas empresas para atuar como freelancer (ou profissional independente, como prefere Lucas), a Live passou a trabalhar com construção de uma comunidade de talentos. Em dado momento, Lucas e Karina se deram conta de que essa comunidade é um negócio.

“Para quem fatura em dólar, euro ou libra, um profissional que recebe em reais sai mais barato. Tão ou mais importante é o fato de que os brasileiros, dentro de áreas como design, criação e tecnologia, são vistos como profissionais de primeira linha”

Em fevereiro do ano passado, a dupla lançou a Ollo,  marketplace de talentos com foco na América Latina. Especialmente em profissionais brasileiros, mas também argentinos e uruguaios. A Ollo conecta talentos a empresas, sobretudo startups, que já têm as suas equipes internas e precisam, de vez em quando, de um time adicional por um tempo. Ou clientes de médio porte, que não têm recursos para contratar uma boa agência, mas são capazes de montar um time de profissionais para trabalhar por projeto. Do lado do cliente, a proposta é remover a fricção, reduzir o tempo de procura e aumentar a qualidade da contratação de talentos. A entrega do profissional demora até 72 horas. Do lado dos talentos, a Ollo se encarrega de toda a parte burocrática da contratação: negocia, faz contratos e cobrança.

Diferente de outros modelos de marketplace, baseados em grandes bancos de dados de freelancers, nos quais o cliente mergulha para pescar candidatos, a Ollo é uma espécie de concierge. “O cliente diz do que precisa, a gente consulta uma comunidade curada, com um número limitado de profissionais, e apresenta três opções para a escolha de um”, explica Lucas. Não se permite o conhecido leilão de preços para baixo. Com pouco mais de um ano de operação, a Ollo já tem mais de 30 clientes ativos. Metade são companhias brasileiras; metade são empresas de fora do país recrutando profissionais brasileiros. Há clientes em Nova York, em Chicago e na Inglaterra, por exemplo.

“Nossa média de remuneração de profissional é cerca de dez vezes maior que a média das plataformas de marketplace de freelancers do mercado.”, nota Lucas. O que mais se busca é um time para uma campanha, uma estratégia de aquisição ou para refazer a usabilidade de uma plataforma. São profissionais mais caros e com um ticket mais alto.

Câmbio é um fator importante para explicar por que empresas estrangeiras contratam brasileiros. Para quem fatura em dólar, euro ou libra, um profissional que recebe em reais sai mais barato. Tão ou mais importante é o fato de que os brasileiros, dentro de áreas como design, criação e tecnologia, são vistos como profissionais de primeira linha. “Qualquer grande agência em Nova York, em Londres ou Amsterdã certamente vai ter um brasileiro numa posição de chefia dentro do departamento criativo, de estratégia ou de design”, afirma Lucas. “A supervalorização desses profissionais e a desvalorização da nossa moeda fazem uma oferta imbatível.”

“Quando se traz a lógica de plataforma para esse universo de pessoas privilegiadas, atuando online, torna-se possível dar corpo à gig economy sem trazer junto a precarização do trabalho que aparece no mundo físico”

Numa plataforma chamada Payoneer, especializada no pagamento de freelancers, os brasileiros são os terceiros maiores usuários do mundo, tendo fluxo de receitas como métrica. A maior parte mora no Brasil e é contratada por empresas da Europa e dos EUA.

Esses movimentos na Live e na Ollo têm o mesmo pano de fundo, que é a valorização da independência. A relativa novidade de as pessoas conseguirem ter mais controle sobre seu tempo, sobre sua vida, sobre suas decisões, sem que isso implique em abrir mão de oportunidades profissionais. “É este mundo que a gente está desenhando, dentro de um segmento extremamente privilegiado da sociedade, que pode trabalhar remotamente e tem uma linguagem de trabalho universal, como programação, design ou criatividade”, diz Lucas.

A ideia de que é preciso ter uma carteira assinada, um crachá, um patrão, um único emprego está em declínio no topo da pirâmide socioeconômica. Quando se traz a lógica de plataforma para esse universo de pessoas privilegiadas, atuando online, torna-se possível dar corpo à gig economy sem trazer junto a precarização do trabalho que aparece no mundo físico, por exemplo, com os entregadores de Ifood, Uber Eats e Rappi. Os freelancers na órbita da Ollo são pessoas em condições de reivindicar seus direitos, suas condições de trabalho.

A Ollo tem uma ferramenta de controle pela qual o profissional recebe mensagens automáticas mostrando o status do trabalho contratado. “Quando chega nos 100%, a gente manda uma mensagem dizendo: ‘A partir de agora, tudo que você trabalhar tem de ser cobrado à parte’”, conta Lucas. O objetivo é criar relações de trabalho justas, que geram bem-estar e geram qualidade. “Precarizar a relação de trabalho pode dar ao cliente a sensação de que está se dando bem, mas ele vai pagar esse preço em algum momento, na falta de qualidade, na falta de comprometimento ou no desgaste da própria relação”, pondera Lucas.

CONECTADOS, OLHANDO O TODO

Desde o início da pandemia, ele vive, feliz, na região de Paraty. “Dois mil e vinte foi o ano em que eu mais surfei na minha vida”, diz. Sua casa é parte de uma espécie de comunidade literalmente no meio da mata atlântica, a cerca de dez quilômetros do centro da cidade. É um pequeno condomínio construído por amigos, que o chamam de aldeia. “Minha rotina é a mesma que eu teria se estivesse na cidade, só que com muito mais a desfrutar”, afirma Lucas. “Acordo sempre muito cedo, faço a minha meditação e minhas atividades físicas. Se tem onda, vou surfar.” No começo da semana, ele olha a previsão para o mar e tenta organizar a agenda de maneira a liberar as manhãs nos dias com boas ondas. Sua casa tem uma estrutura de home office com redundância de internet e baterias para garantir energia quando falta luz na região. “Consigo trabalhar com muita profundidade e, ao mesmo tempo, com muito respiro.”

“Ele olha a previsão para o mar e tenta organizar a agenda de maneira a liberar as manhãs nos dias com boas ondas. Sua casa tem uma estrutura de home office com redundância de internet e baterias para garantir energia quando falta luz na região”

Em outubro de 2020, Lucas começou a sentir falta da troca de ideias que costumava ter em São Paulo, nos almoços e jantares com clientes e o que chama de “pessoas interessantes”. Para solucionar esse problema, ele criou um podcast, chamado 22000 pés, que é a altitude que algumas aves, como o Condor dos Andes, conseguem atingir, o que lhes dá uma visão privilegiada do todo. Para os episódios quinzenais, Lucas convida clientes, amigos e pessoas que admira, mas não conhece ainda. Disponível em todas as plataformas , o 22000 pés resgata as conversas que ele tinha naqueles almoços e jantares, com a vantagem de poder ouvi-las novamente e compartilhá-las com quem se interessar. Moral dessa história pandêmica? “Para estarmos isolados”, diz Lucas, “precisamos estar altamente conectados”.

Outro aprendizado, aplicável para o futuro pós-pandemia, é o de que, se consegue trabalhar do meio da mata atlântica, pode fazer o mesmo em qualquer lugar do mundo. É o protótipo do anywhere office, que permite viver onde se desejar. Paraty continuará sendo sua base, mas a vida de nômade digital faz parte de seus planos. “Só tomo decisões hoje, sejam de trabalho ou financeiras, que sirvam para me libertar”, diz Lucas. “Este é sempre o filtro que aplico agora.”

SOBRE O AUTOR

Alexandre Teixeira é jornalista, escritor, cofundador da ODDDA (O Dia Depois De Amanhã) e colunista mensal da Fast Company Brasil.