POR ELISABETH SYLVAN E SANDRA CORTESI

O ano letivo mais incomum e estressante da memória recente dos EUA chegou ao fim. Ao redor do mundo, a pandemia da Covid-19 marcou uma geração de jovens estudantes, e a tecnologia preencheu a lacuna entre alunos, professores e pais. Mensagens de texto, aulas no Zoom, podcasts e transmissões de rádio estenderam a aprendizagem até as áreas mais remotas. Estudantes aprenderam com vídeos do YouTube e TikTok, e colaboraram nos deveres de casa por meio de apps como WhatsApp e WeChat.

A tecnologia sempre foi estabelecida para desempenhar um papel importante no futuro da educação, mas a pandemia acelerou essa transição. Embora a internet tenha introduzido novas maneiras interessantes de aprender, ela é constantemente restrita como parte central da aproximação entre as pessoas. A desigualdade social impede que muitos educandos participem plenamente. Diversos casos circulam de alunos caçando sinal de Wi-Fi para tentar assistir à aula, ou famílias que possuem apenas um celular compartilhado. Meio bilhão de jovens interrompeu o estudo inteiramente durante a pandemia, porque não têm a tecnologia ou conectividade para participar do aprendizado remoto.

O ano passado ofereceu um vislumbre de como a educação pode ser, à medida que se torna cada vez mais digital. Para descobrir como aplicar a tecnologia de maneira mais eficaz e igualitária, especialistas de todo o mundo reuniram-se em um encontro acadêmico no Berkman Klein Center for Internet & Society da Universidade de Harvard. Aqui estão suas ideias sobre como acessibilizar a educação para todos, refletindo de forma mais ampla o que é aprender, onde e como isso acontece.

A APRENDIZAGEM PODE ACONTECER EM QUALQUER LUGAR

O conhecimento está presente em uma variedade de ambientes além da sala de aula, como comunidades virtuais, museus, bibliotecas e eventos locais. Com muitas escolas menos acessíveis durante a pandemia, as pessoas foram levadas a explorar esses espaços informais de aprendizagem.

Na plataforma online Scratch, por exemplo, os jovens praticam habilidades de codificação e constroem uma comunidade — onde podem criar e compartilhar animações, jogos e histórias interativas — usando uma linguagem de programação especialmente projetada. De janeiro de 2020 a janeiro de 2021, o número de usuários ativos do Scratch cresceu e os novos projetos dobraram para 2,4 milhões por mês. Muitos alunos também aproveitam recursos de aprendizagem das redes sociais mais populares, desde a exploração de hashtags educativas do TikTok, como #LearnOnTikTok, até a Biblioteca de Alfabetização Digital do Facebook.

Enquanto isso, espaços físicos de aprendizado informal como bibliotecas, centros comunitários e espaços colaborativos, por exemplo, usam a tecnologia para permanecer disponíveis. Docentes adaptaram os programas de aprendizagem presencial para o meio remoto e museus como o Louvre compartilharam experiências imersivas de realidade virtual de suas exposições.

Esses espaços informais, virtuais e físicos, podem servir de inspiração  para promover autonomia no aprendizado, expressão criativa e colaboração com colegas. No entanto, para aproveitar totalmente esse potencial, é fundamental que os alunos sejam orientados para  integrar o que aprenderam em diferentes plataformas e navegar por essas oportunidades em segurança.

ACESSO REQUER HABILIDADES E RECURSOS, ALÉM DE TECNOLOGIA

Conforme as escolas mudaram para o ensino remoto, muitos alunos enfrentam dificuldades sem uma internet confiável, acesso aos seus próprios dispositivos ou ambientes silenciosos e confortáveis ​​para aprender. Mas esses critérios são apenas o começo. Mesmo os melhores recursos e tecnologias demandam habilidades de “cidadania digital” para que os alunos ingressem em plataformas de aprendizagem online, interajam com professores e colegas virtualmente, e gerenciem o próprio estudo fora da sala de aula.

“A pandemia definitivamente acelerou a necessidade de acesso digital e educação online, no entanto, o acesso à internet e as habilidades digitais não são difundidos ou fáceis de obter”, diz Sabelo Mhlambi, pesquisador do Berkman Klein Center for Internet & Society. Embora os jovens como um todo tenham um alto nível de conectividade, nem todos participam nas mesmas condições, e os alunos marginalizados geralmente enfrentam várias barreiras de acesso. Nos Estados Unidos, a disparidade racial entre pessoas negras e brancas se refletiu na defasagem do aprendizado no início das aulas. Globalmente, as meninas perderam terreno já que as soluções educacionais de emergência não conseguiram responder aos seus desafios e necessidades singulares, ameaçando décadas de progresso de gênero. 

A pandemia mostra que a dependência da tecnologia pode piorar as desigualdades existentes. Se os jovens não tiverem habilidades e recursos suficientes não poderão participar de forma ativa em uma sociedade e economia cada vez mais conectadas digitalmente.

O SISTEMA EDUCACIONAL TAMBÉM ATENDE ÀS NECESSIDADES SOCIAIS E EMOCIONAIS

“As escolas não são apenas centros de aprendizagem”, diz Malavika Jayaram, diretora executiva do Digital Asia Hub, um think tank de pesquisa independente com sede em Hong Kong incubado pelo Berkman Klein Center. Eles são como centros de interação social e serviços que promovem o bem-estar físico e mental, desde almoços gratuitos a atividades extracurriculares e aconselhamento. Nos grupos conduzidos atualmente nos Estados Unidos, os jovens dizem que um dos maiores desafios da pandemia não é o aprendizado online, mas a falta de convivência com os amigos pessoalmente. Existem também aspectos sociais e emocionais importantes do próprio processo de aprendizagem que nem sempre se traduzem bem em formatos online.

Muitos educadores buscaram soluções alternativas para fornecer engajamento social aos alunos durante a pandemia. Eles se propuseram a dedicar mais tempo no dia escolar para contar histórias e jogos, encontrando maneiras criativas de reunir a classe após as aulas virtuais. Um participante da pesquisa relatou que, na China, os alunos têm “colegas de trabalho virtuais”, avatares digitais de seus colegas que servem como parceiros de estudo.

Frequentemente, subestimamos o papel que as escolas desempenham na socialização e no bem-estar. O risco de eliminação dessas funções no momento em que são mais necessárias é um lembrete de como são vitais. O aproveitamento de ferramentas digitais para a educação só funcionará com a promoção de experiências sociais significativas e garantindo que os alunos tenham acesso a uma ampla rede de recursos e suporte.

O FUTURO DA EDUCAÇÃO EM UM MUNDO DIGITAL

A pandemia acelerou uma transformação digital na educação que já estava em andamento. À medida que um caminho é traçado, os especialistas da pesquisa enfatizaram a importância de envolver todas as partes, incluindo os próprios jovens, no desenvolvimento de formas justas e eficazes para usar a tecnologia. As ferramentas digitais abrem novos espaços e modelos de aprendizagem que — se bem usados ​​e integrados às abordagens existentes — podem aprimorar o sistema educacional. Para chegar lá, é essencial ampliar a visão de onde e como o aprendizado acontece, e como pode funcionar para todos.

SOBRE AS AUTORAS

Elisabeth Sylvan é diretora-gerente do Centro Berkman Klein para Internet e Sociedade da Universidade de Harvard. Sandra Cortesi é bolsista do Centro Berkman Klein e diretora do projeto Juventude e Mídia do Centro.