Segundo este estudo, você não deveria estar trabalhando hoje

Mais produtividade, menos esgotamento e maior satisfação: os resultados do teste de uma semana de trabalho de quatro dias

Crédito: Istock

Adele Peters 4 minutos de leitura

Em abril deste ano, o site Kickstarter aderiu à tendência das empresas que estão experimentando uma semana de trabalho de apenas quatro dias. Os salários permaneceram os mesmos, mas os funcionários tinham folga nas sextas-feiras. De segunda a quinta-feira, eles trabalhavam durante o horário regular, de oito horas.

Assim como aconteceu a outras empresas que testaram essa mudança, a gigante do crowdfunding se surpreendeu com resultados contraintuitivos: apesar da queda no número de horas trabalhadas, a produtividade aumentou.

“Depois de adotar uma semana de trabalho de quatro dias, vimos que estávamos atingindo as nossas metas e fazendo

Nas empresas que participaram do projeto, a produtividade aumentou, apesar da queda no número de horas trabalhadas.

um trabalho melhor”, relata o diretor de estratégia, Jon Leland. Os funcionários estavam mais engajados, focados e descansados. De repente, ficou mais fácil contratar novos talentos e reter os que já trabalham na empresa, mesmo em meio à “Grande Renúncia” (ou grande demissão) nos EUA.

O site Kickstarter fez parte de um grupo, junto com mais de 30 empresas nos EUA, Irlanda e Austrália, que participou durante seis meses de um projeto piloto coordenado pela organização sem fins lucrativos 4 Day Week Global.

Pesquisadores do Boston College, da University College Dublin e da Cambridge University estudaram o que aconteceu e compararam com o desempenho anterior da empresa. Já havia evidências bem-humoradas sobre os benefícios do cronograma de trabalho reduzido, mas esta foi a primeira pesquisa em larga escala a mostrar como isso de fato funciona.

MENOS REUNIÕES, MENOS INTERRUPÇÕES

Dois terços dos funcionários declararam que a mudança os deixou menos esgotados. A satisfação com o trabalho aumentou. Eles relataram que sua saúde mental e física havia melhorado e que havia menos conflitos entre trabalho e família. O tempo de exercício físico aumentou em média 24 minutos por semana. Eles estavam dormindo melhor.

A maioria declarou que só mudaria para um emprego com um horário tradicional de cinco dias caso ganhasse muito mais. Dezoito das empresas desse projeto piloto já disseram aos pesquisadores que planejam definitivamente continuar com o novo cronograma, incluindo a Kickstarter.

O estudo não mediu a produtividade, mas os participantes disseram que o desempenho e o rendimento melhoraram.

Embora esse estudo não tenha medido a produtividade – em parte porque analisou uma variedade de diferentes tipos de empresas, e algumas não podem medi-la facilmente –, os funcionários relataram que seu desempenho e rendimento melhoraram.  Os dias de afastamento por doença também diminuíram. E, embora a produtividade tenha crescido, os participantes não relataram que a intensidade do trabalho havia mudado.

“Não é uma ‘aceleração’, é um modelo de reorganização do trabalho”, defende a pesquisadora principal, Juliet Schor, economista e socióloga do Boston College. As empresas participantes, que tiveram dois meses de treinamento e orientação antes do início dos pilotos, buscaram maneiras de cortar reuniões desnecessárias e de oferecer aos funcionários mais tempo sem ininterrupções para se concentrarem nos projetos.

“Se você conversar com qualquer pessoa que trabalhe cinco dias por semana, ela vai te dar mil exemplos de desperdício de tempo durante o expediente, certo?” diz Leland. “Portanto, trata-se de ter essa conversa com todos e de fazer com que todos sigam na mesma direção para resolver esses problemas. Como todos estarão mais motivados, bastará aproveitar melhor o tempo disponível.”

SEXTAS-FEIRAS LIVRES

O número de empresas testando uma semana de trabalho de quatro dias já estava crescendo antes da pandemia, mas deu um salto por causa dela. “Durante o isolamento, começamos a repensar como o trabalho deveria ser, assim como a maioria dos empregadores. Ficamos totalmente remotos, mas também percebemos que a estrutura de trabalho era um pouco mais flexível do que pensávamos”, conta Leland.

A semana de quatro dias é o futuro do trabalho, mas isso não acontecerá logo de cara.

A 4 Day Week Global aposta em um modelo “100-80-100”, em que o pagamento e a produção permanecem os mesmos, mas as horas caem para 80%. Isso pode funcionar para muitas empresas.

Mas, para trabalhos especialmente propensos ao esgotamento, como a área da saúde – onde as pessoas já trabalham sem parar –, um modelo “100-80-80” pode ser ainda melhor. Um médico ou enfermeira trabalharia quatro dias, sem tentar manter a produtividade atual, e outra pessoa seria contratada para cobrir o quinto dia.

Juliet Schor acredita que a semana de quatro dias é o futuro do trabalho. Mas isso não acontecerá logo de cara, diz ela. A evolução será progressiva, conforme mais empresas começarem a oferecer algumas sextas-feiras de folga, até passarem a oferecer  todas elas.

Aos poucos, a novidade vai se espalhar do pessoal dos escritórios, que trabalham com computadores, para uma diversidade maior de empresas. “Acho que estamos só no começo”, diz ela. “Ainda vamos assistir ao aumento dessa tendência.”


SOBRE A AUTORA

Adele Peters é redatora da Fast Company. Ela se concentra em fazer reportagens para solucionar alguns dos maiores problemas do mundo, ... saiba mais