POR VIVIANE SILVESTRE

 

Sua empresa tem gente trans? Se não, melhor incluir: é no meio de pessoas trans – junto de gente cis – que estão sendo geradas as melhores ideias e produtos do Brasil. Entre os casos emblemáticos estão o Nubank e a Soko. O que a gigante de serviços financeiros e a agência de publicidade mais legal do país têm em comum? Gente trans na liderança.

 

Enquanto bancos, agências e empresas tradicionais ainda sustentam a inclusão de quem já está incluído e, portanto, adaptado, para tentar gerar matematicamente lucro, sem precisarem se importar com adaptações linguísticas, temporais e espaciais, marcas como as citadas abrem caminho para a inclusão de lideranças transvestisgêneres, num extremo oposto. 

 

A ação, claro, nada tem de samaritana: profissionais transgêneros trazem no bojo de suas vivências – muitas vezes difíceis – uma expertise única para lidar com os desafios  de um mundo cada vez mais líquido. A abertura à diferença dessa alteridade nova e radical, assim como a série de adaptações, diálogos e atritos – daqueles capazes de acender o fogo da inovação – trazem resultados mais sustentáveis, num contexto de incertezas.

Pessoas trans e não binárias precisam de espaço nas empresas e empresas precisam da força trans-formadora dessas pessoas. 

Sabemos que o mundo “real” como o conhecemos vem desaparecendo, escapando das mãos dos afoitos por controle e rigidez. Esse embaraço com o devir em fluxo constante não assusta quem enfrentou a “realidade” para se “reinventar”. Reinvenção é o que fazemos nós, pessoas trans, desde que aprendemos a falar.

 

E é justamente na linguagem que está a potência de se incluir pessoas trans em espaços que buscam inovação. Quando profissionais trans fazem parte de um grupo a língua se torna mais rica. Um exemplo salutar são as buscas por novos signos linguísticos capazes de falar de nossas corpas, gêneres y experiências enquanto identidades dissidentes: o amor, o sexo, a materialidade da nossa existência são assuntos que nos transpassam e que alcançam todo ser falante.

 

Não é difícil observar que neste raciocínio há lógica. A nossa forma de pensar, de ter ideias e de criar coisas está ligada à nossa capacidade de adicionar vírgulas aos conceitos, aderir a mudanças na língua e de ver além do que é visto. É preciso transformar coisas que já estão aí para se inovar e, depois, transmiti-las ao mundo.

 

É claro que a inclusão de pessoas historicamente marginalizadas têm questões. Empresas precisam recrutar da comunidade trans e não-binária observando vivências e potências. Programas de estágio e planos de carreira atentos a esses indicadores não são caridade, são investimentos em transformação. Deixar esse assunto num lugar meio morno da sua empresa é pensar como aquele seu parente anacrônico. Aquele que ainda acha um perigo usar banco digital, não se liga que nem só de mídia vive a propaganda e que ainda confunde gênero com genital.

 

 

SOBRE A AUTORA

Viviane Silvestre é travesti, redatora publicitária e especialista em narrativas inclusivas. Já foi professora da Universidade Estadual de Maringá onde pesquisou comunicação e semiótica e tem passagens pelo Grupo Morena Rosa e 99.  Atualmente está na Wunderman Thompson e estuda psicanálise.