POR ELDES SAULLO

Nesses tempos incertos, no qual experimentamos viradas  inesperadas e muitas vezes doloridas nos campos  profissional, pessoal e social, parar um pouco para “se  observar” pode ser esclarecedor e ajudar na tomada de decisões importantes. 

A palavra autoconhecimento, corrompida pela  ocidentalização, leva muita gente a crer que isso tem a ver  com estudar a maneira como pensamos, sentimos ou agimos. Ou ainda como uma forma de aprisionar o Ego em uma coleira. 

O Vedanta, sabedoria milenar originária da Índia, e a  primeira fonte do termo, trata a mente humana como um  órgão à parte. Sem dúvida, uma maneira mais eficiente de fazer cada um se enxergar além das aparências. 

Pensamentos e sentimentos são mutáveis. O  “Conhecimento do Eu”, a tradução mais precisa desse estudo, então, aborda as tentativas de compreensão do Imutável embarcado em cada um de nós. 

Quem ou o que é esse “ser”, que evolui em inteligência  lógica e emocional na curva do tempo, muda em aparência  física ao longo de uma vida inteira, mas que mantém a  mesmíssima “essência”, tenha você oito ou oitenta anos? 

Em vez de tentar nomeá-lo – Alma, Espírito, Eu Superior,  Consciência, etc. – apenas observe e reflita. 

Em um plano em que a mudança é nossa única certeza,  “tudo muda o tempo todo no mundo”, por que o que somos, bem  lá no íntimo, não se altera? 

Se há algo tão certo dentro de nós, por que sofremos tanto  diante das incertezas? 

A resposta não é simples, mas passa por compreender que  a mente prefere a tranquilidade das zonas de conforto em  meio aos problemas a ser desafiada na busca de soluções e  ter que lidar com incertezas. 

Isso se reflete nas relações: costumamos enxergar certezas em nós e incertezas nos outros. 

O fato é que é muito difícil o “conhecimento do Eu” sem o  espelho do outro, e é aqui que quero chegar – no uso das  relações como instrumentos de evolução e crescimento e não  de controle. 

Fugir das relações, ideia propagada por alguns mestres inacessíveis e ermitões em votos de silêncio permanentes, funciona parcialmente como modo de auto-observação. 

Porém, muitas vezes isso não passa de mais uma armadilha do Ego.  

Muitos se isolam, pois suas mentes trabalham constantemente no modo “controle de incertezas”, o que é estressante. E já que não conseguem controlar o outro, preferem a distância. 

A verdade é que nenhuma pessoa é capaz de viver sozinha, por mais solitária que seja. Somos todos  interdependentes e é nas relações, duradouras ou efêmeras, do passado e do presente, que podemos encontrar respostas  para os dilemas mutáveis que insistem em bater à nossa porta. 

Até que ponto as ideias que você tem do outro, do que fez, ou deixou de fazer, seja dentro de uma relação afetiva ou profissional, não passam de tentativas de controle? 

Desfaça-se das fantasias, das opções que você supostamente teria para fazer diferente, ou de como esperava que o outro agisse, e apenas observe sua mente na busca de justificativas, de erros e acertos, do que foi bom ou  ruim. 

Observe os efeitos sem ser dominado por eles e você terá uma visão mais clara das causas. E inevitavelmente descobrirá que elas residem no “sujeito” embarcado aí  dentro de você mesmo. 

Quando olhamos para nós mesmos a partir da relação com o outro, e percebemos que toda falha detectada é uma ilusão da mente criada para aprimorar a própria essência, a coisa muda de figura. 

Primeiro porque isso ajuda a determinar o que você quer e o que não quer mais em seu caminho, quais relações você quer levar adiante e quais não quer. Depois, porque vai  direcionar sua mente para o que precisa ser feito e não para o  que você quer ou não quer que aconteça. 

Nossas fantasias têm origem no desejo de controle do que  é incerto, das coisas, dos outros. “Ah, como seria melhor se isso fosse assim!

O segredo védico para resolver isso está em encarar as incertezas como uma certeza absoluta e trocar a fantasia pela criatividade. Isso significa focar exclusivamente na solução e não no problema ou nos resultados. E aceitar que, por um  momento, aquilo que você precisa coincidirá com o que deseja. Em outros momentos, será diametralmente o oposto. 

Ou, como melhor resumiu Rick, o cientista maluco da série “Rick & Morty”, de Dan Harmon: “A incerteza é  inerentemente insustentável. Chega uma hora em que tudo é ou não  é”. 

SOBRE O AUTOR

Eldes Saullo é escritor, professor, poeta e editor, porque descobriu que seu propósito é motivar as pessoas a propagarem suas histórias e experiências através dos livros. Leia mais em eldessaullo.com.