POR JULIET FUNT

Bryan Berg é um empilhador de cartas profissional. Ele detém quatro recordes mundiais do Guinness, incluindo o de autor do maior e mais alto castelo de cartas – todas elas posicionadas independentemente (ou, como ele faz questão de dizer, “sem fita, sem cola, sem truques”). Ironicamente, apesar de seu controle espetacular com as cartas, na vida diária Berg se descreve como “a primeira pessoa que tropeçaria ou derramaria uma bebida no chão”.

Em competições, ele dorme no local e acorda todos os dias para ver a nova camada ou torre do castelo que acrescentou no dia anterior. Assim, ele contempla lentamente seu progresso inegável. Certamente, essa deve ser uma experiência muito gratificante.

Nós também podemos experimentar esse tipo de realização em momentos simples do nosso dia a dia. Quando uma pia cheia de pratos gordurosos se transforma em uma pia vazia e limpinha. Ou quando mil peças de um quebra-cabeça se transformam na imagem de um golden retriever. Mas no mundo do trabalho, onde há tanta pressão para sermos produtivos, é especialmente difícil obter esse tipo de satisfação mais palpável, gerada por um “antes e depois” que podemos observar de perto. Passamos a maior parte do tempo enrolados em projetos infinitos e apagando incêndios constantes. Percorremos listas de tarefas pendentes e enchemos nossos calendários em busca de qualquer senso de realização, de poder encher a boca e dizer: “eu construí isso”. Mas, ainda assim, nos encontramos perdidos, naquele estado constante que a socióloga Juliet B. Shor chama de “ocupação performativa”.

Atividade não é necessariamente produtividade. Ser produtivo significa criar algo de valor. Nesses últimos 18 meses, vimos exemplos surpreendentes do valor que pode ser criado, mesmo em meio ao caos. Aprendemos que, para muitos, trabalhar em casa pode ser tão produtivo quanto estar no escritório, e que todos os cronogramas podem ser mais encurtados do que imaginávamos. Mas também vimos que o trabalho pode se tornar um poço sem fundo, onde nos entorpecemos com as ansiedades sobre o mundo ao nosso redor e onde preenchemos o tempo com tarefas de baixo valor.

Mais do que nunca, ansiamos pela sensação de recompensa, por um “antes e depois” observável, palpável. Neste momento, cada um de nós está tendo a oportunidade espetacular de satisfazer esse anseio. Conforme as empresas ao redor do mundo repensam como será o local de trabalho do futuro, nós podemos redefinir as expectativas e ser mais incisivos sobre a forma como escolhemos trabalhar.

Devemos primeiro preparar o ambiente. Assim como Berg varre o chão e verifica as cartas antes de começar a empilhá-las, precisamos criar um contexto no qual um ciclo confiável de construção, testemunho e celebração possa acontecer. E ele pode começar com apenas três pequenas e críticas mudanças em como você encara seu dia de trabalho.

CLAREZA DEVE SER PRIORIDADE

Todos nós estamos sendo convidados a nos adaptar a protocolos de pandemia em constante mudança e a enfrentar uma mudança profissional contínua e rápida. A vida é cheia de ambivalências, mas agora todos anseiam por uma clareza que faltava.   Como gestores, tendemos a pensar que estamos explicando o quadro completo de um novo projeto ou nova atribuição (que faz sentido para nós). Contudo, costumamos subestimar a necessidade que as pessoas tem de preencher em suas mentes as lacunas deixadas por nosso discurso. Deixamos de afirmar em voz alta e em uma linguagem específica e clara o porquê de um trabalho estar sendo feito, qual é o seu escopo, quem mais ele vai envolver ou precisamente quando cada etapa acontecerá, e quanto elas custarão. As equipes então mergulham no projeto, mas fazendo suposições muitas vezes incorretas sobre a direção, sobre a velocidade e sobre com que recursos ele será executado.

Se você é um gerente ou líder, sua equipe precisa que você desacelere suas explicações. Preencha os detalhes e aponte-os explicitamente para oportunidades específicas de alto valor. Faça com que consigam vislumbrar um “antes e depois”.

O TRABALHO NÃO PODE CONTINUAR SENDO ASSIM

Muitas vezes, as pessoas acordam para enfrentar um dia de trabalho sabendo que ele envolverá tolerar vários níveis de sofrimento. Atribuições verdadeiramente significativas continuam escassas. Os chefes rígidos demais inexplicavelmente continuam empregados. E mesmo quando os líderes se esforçam para cuidar, eles geralmente não têm as ferramentas ou o tempo para demonstrar empatia pela equipe. Mas o momento é de um grande “basta!”, e mesmo os executivos de alto desempenho estão gritando lá do alto: “parem com esse ritmo louco ou eu caio fora daqui!”. Quando os funcionários se sentem desrespeitados e sobrecarregados, eles não conseguem mais encontrar significado ou autonomia em seu trabalho – e essas são justamente as duas formas mais poderosas de combustível profissional.

A mudança já começou. O Zoom revelou flashes da nossa vida real e nos deu um bom ponto de partida para sermos mais humanos uns com os outros. Quando o gato do seu chefe atravessa ao vivo o teclado do computador dele, e quando o nosso bebê chora no momento exato de aprovar um orçamento, nos tornamos mais genuínos e mais conectados. Não devemos permitir que esse calor diminua.

Os líderes podem ampliar esses novos laços com uma tática simples: fazendo uma admissão de vulnerabilidade. Revele uma falha pessoal ou um erro cometido, e este gesto corajoso estimulará uma onda de autenticidade no ambiente de trabalho.

VOCÊ NÃO É UM ROBÔ

A próxima vez que uma tela de captcha pedir para você identificar holofotes ou bicicletas para confirmar sua humanidade, pare um momento para ouvir aquela mensagem importante que aparece conforme você clica nas pequenas caixas: “você NÃO é um robô”. 

Os hacks de produtividade tradicionais, como bloqueio de tempo, nos dizem que devemos estar constantemente nos movendo e correndo atrás de cada segundo do dia. Só que isso não é sustentável. Precisamos da suavidade de horários projetados para as pessoas (com corpos, apetites e bexigas) e precisamos de espaço para a confusão humana. A produtividade, daqui para frente, simplesmente terá que ser mais suave. Devemos dar às pessoas permissão para parar um minuto e para refletir – ou respirar, ponderar ou planejar.

Devemos desacelerar nosso metrônomo coletivo e erradicar a vergonha de descansar. 

Para começar, insira um pequeno intervalo de tempo livre entre as atividades que anteriormente estariam conectadas: entre uma reunião e outra, entre uma solicitação e uma resposta, ou entre uma ideia e a execução do plano. Essas frestas irão amarrar seu dia com pequenos intervalos muito necessários.

Sempre haverá impermanência no trabalho que fazemos. Mesmo os castelos de cartas montados por Bryan Berg inevitavelmente desmoronam alguma hora. Mas se encorajarmos uma direção clara, culturas atenciosas e expectativas humanas em relação a nós mesmos, estaremos mais bem posicionados para experimentar mais vitórias.

Mesmo na ausência de mudanças organizacionais maiores, você pode retomar algum controle. Você pode manter um simples pedaço de papel ao lado do computador e todas as manhãs anotar apenas um ou dois objetivos que vão gerar, ao final do dia, momentos de “antes e depois” para você comparar. E à medida que você constrói delicadamente, camada por camada nesse castelo de cartas, essas realizações irão aterrá-lo, preenchê-lo e prepará-lo para o que vier a seguir.

SOBRE O AUTOR

Juliet Funt é jornalista colaboradora da Fast Company.