POR ART MARKMAN

Uma das coisas boas de trabalhar de casa é que você tem bastante controle sobre suas interações sociais. Encontrar alguém torna-se uma escolha. Se você opta por encontrar, pode definir horário e como se dará o encontro. Nas plataformas de videoconferência, você, inclusive, pode alterar a imagem de fundo exibida.

Quando há alguém no trabalho com quem você não se dá bem, você não precisa vê-lo com muita frequência. Pode fugir de encontros individuais com ele (a não ser que ele seja o seu chefe) ou ignorá-lo nas reuniões em grupo. Até mesmo nos momentos em que não há escapatória, você sempre pode trocar mensagens com outro colega falando mal dele (não que eu esteja recomendando isso).

No entanto, à medida que mais e mais escritórios estão retomando o trabalho presencial, o contato indesejado com esse colega será mais provável. E você precisará esconder seu descontentamento quando tiver que interagir com ele.

No entanto, ao invés de temer, pense nisso como uma oportunidade para mudar a maneira como você se relaciona. Para isso, primeiramente, você precisa entender o motivo de não se dar bem com ele.

ELE(A) TE DEIXA DESCONFORTÁVEL

Os colegas mais difíceis de lidar são aqueles cujo comportamento nos deixa desconfortável. Seja por não levarem suas opiniões a sério, seja por tentarem levar crédito por suas ideias. Ou ainda pior, talvez eles sejam emocionalmente abusivos ou pratiquem assédio.

Esses colegas são aqueles com os quais você não deve lidar sozinho. No caso de alguém com comportamento desagradável, porém, não abusivo, você pode buscar conselhos com outros profissionais. Se você tiver um colega mais experiente que possa orientá-lo, entre em contato. Caso contrário, considere um coach de carreira para saber como lidar com essa situação específica. Certamente você terá outros colegas que não te priorizam, portanto, elaborar estratégias para lidar com eles renderá bons frutos ao longo de sua carreira.

Para colegas cujo comportamento ultrapassa os limites, você deve entrar em contato com o RH. Se sua empresa for grande o suficiente para ter uma ouvidoria, comece por lá para receber orientações. Senão, marque uma reunião com alguém do RH. Você não precisa optar por registrar uma reclamação formal, mas deve estar ciente que pode fazê-lo se o comportamento inadequado continuar. É importante que você avise outras pessoas sobre suas preocupações antes de retornar ao trabalho presencial.

ELE(A) GOSTA DE APARECER

Um dos tipos mais irritantes, porém, inofensivos, são aqueles que estão sempre tentando chamar atenção. Frequentemente, esses indivíduos se passam por pessoas esforçadas que estão ávidas por promoção ou oportunidade de crescimento. Mas, certamente, esse comportamento nos faz querer manter distância.

Na verdade, existem dois tipos de exibicionistas: os narcisistas e os impostores. É importante saber com que tipo você está lidando antes de pensar em uma estratégia. 

Os narcisistas são pessoas que acreditam que realmente são maravilhosas e que merecem elogios e oportunidades. Para eles, só há espaço para um. Seu sucesso vem à custa dos outros. Ou seja, para eles ganharem, outros devem perder.

Se você percebe que seu colega está constantemente recebendo crédito por ideias de outras pessoas, fique o mais longe possível. Há poucos benefícios em interagir com narcisistas. Eles serão legais com você, desde que haja algum ganho. Não espere mais do que isso.

Muitos dos que gostam de aparecer, porém, estão apenas compensando por se sentirem inaptos. A presença da síndrome do impostor em muitas empresas é enorme — especialmente entre pessoas que são relativamente novas no trabalho. A maioria delas entra num cargo, mas não se considera qualificada para exercê-lo. Sente que sua contratação foi apesar da falta de conhecimento e não por mérito próprio.

Uma forma que pessoas usam para lidar com a síndrome do impostor é buscar validação de seus esforços. Se exibir é uma forma de fazer isso.

Se você acha que seu colega está se exibindo para ocultar inseguranças, vale a pena conhecê-lo melhor. Principalmente, se ele for de fato bom em seu trabalho. É possível que, à medida que seu colega ganhe confiança, a necessidade de se exibir desapareça. Eventualmente, ele pode se tornar um parceiro valioso ou até mesmo um amigo.

ELE(A) APENAS É IRRITANTE

É claro que existem algumas pessoas de quem você simplesmente não gosta. Ou porque reclamam demais, ou por terem um jeito que incomoda especialmente. Seja o que for, não há um grande motivo para não gostar delas, é apenas como você se sente.

Mas, mesmo nessas situações, você pode escolher como reagir. Se você focar no quanto te irritam, isso continuará te incomodando. Uma saída é levar a situação de forma mais bem-humorada. Afinal, em séries de comédia sempre há personagens cujos hábitos e interações são duvidosos, porém engraçados. Se você se esforçar para ver esses comportamentos como traços cativantes de personalidade também na vida real, talvez passe a gostar deles.

De maneira geral, você não pode controlar o que as outras pessoas fazem no trabalho, mas pode mudar a forma como responde a elas. Se você for generoso ao interpretar o comportamento das pessoas e focar nos melhores aspectos do que elas fazem, é provável que se lembre delas de forma mais positiva.

Isso pode ser difícil de fazer, claro. Ter sucesso no trabalho significa estar sempre atento a tudo que pode dar errado. E isso inclui comportamentos e erros alheios. Porém, é importante não focar nos pontos negativos de seus colegas e aproveitar a convivência com eles. 

Em resumo, focar nos pontos positivos é importante, já que a expectativa que você tem dos outros pode se tornar uma “profecia autorrealizável”. Ou seja, se você já espera ter uma interação ruim com seus colegas, algo que você mesmo fizer pode levar a isso. Talvez você demonstre algum medo ou ansiedade em sua expressão e isso cause um estranhamento na interação. Assim, você pode acabar criando exatamente o cenário que mais temia.

SOBRE O AUTOR

Art Markman é Ph.D. e professor de Psicologia e Marketing na Universidade do Texas, em Austin, e diretor-fundador do programa Human Dimensions of Organizations. Art é autor de Smart Thinking e Habits of Leadership, Smart Change, Brain Briefs. E, mais recentemente, também de Bring Your Brain to Work.