5 perguntas para Ricardo Cardim, criador da Floresta de Bolso

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Redação Fast Company Brasil 6 minutos de leitura

A floresta nativa e a cidade convivem nos planos de Ricardo Cardim. O botânico, paisagista e um dos principais especialistas em biodiversidade da fauna brasileira criou o método “floresta de bolso”, capaz de recuperar a flora nativa em pequenos espaços urbanos.

Autor do livo “Remanescentes da Mata Atlântica”, o mestre em botânica pela Universidade de São Paulo investigou os rastros das árvores gigantes que desapareceram do bioma brasileiro. Em menos de 100 anos, a urbanização desordenada e a industrialização predatória reduziram não só o tamanho da floresta como também a sua diversidade. Cardim vê o processo se repetir na Amazônia.

Ele defende o paisagismo sustentável, uma forma de se plantar e olhar para o verde sem que ele seja apenas decoração. A partir do método floresta de bolso, colocado em prática em algumas praças da cidade de São Paulo, o paisagista traz de volta árvores e plantas que habitavam aquele local antes do concreto chegar.

FC Brasil – Para o livro “Remanescentes da Mata Atlântica” você foi atrás das poucas árvores gigantes que ainda existem nesse bioma. De quebra, acabou fazendo uma investigação sobre a história da destruição da floresta entre 1890 e hoje, a partir da urbanização e do crescimento do agronegócio. Quais são os riscos de o mesmo processo acontecer na Amazônia?

Ricardo Cardim – A história da Mata Atlântica é a história clássica da destruição dos biomas brasileiros. Acredito que a Amazônia passa pelo mesmo tipo de situação, guardada as devidas proporções em termos de época, tecnologia e quantidade de recursos.

Ainda há muita gente que não tem acesso a informações de qualidade e, por mais que tenha boas intenções, acaba caindo em “armadilhas verdes”.

A Amazônia é maior que a Mata Atlântica, mas temos uma tecnologia de destruição da floresta que é muito maior do que a gente tinha no século passado. Na Amazônia, com tratores de alta tecnologia, abertura de estradas, tudo é mais fácil hoje em termos de meio para destruir a natureza.

Há aumento da população e da ocupação do espaço. Todos os fatores lembram muito o que aconteceu com a Mata Atlântica, da qual apenas 12% sobreviveu até nossos dias.

FC Brasil – O Brasil tem 49 mil espécies de plantas nativas mas, ao mesmo tempo, quase 90% da vegetação usada em paisagismo por aqui é de origem estrangeira. O que você chama de “planta fast food”? Como isso impacta o nosso meio ambiente?

Ricardo Cardim – Quando falo de planta comercial global, ou “planta fast-food”, falo de um pequeno grupo de espécies aprimoradas em viveiros de países temperados ricos, como os da Europa, Estados Unidos e Japão, que produzem o restrito cardápio de plantas de paisagismo para ser usadas no mundo inteiro.

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Essas poucas dezenas de plantas ornamentais são as mesmas usadas nos países frios e em lugares quentes. A sica, as yucas, vários tipos de palmeiras, a areca bambu, tem muitas que são fast food. É como se todo o planeta deixasse de se alimentar com a sua gastronomia tradicional, e passasse a se alimentar somente de fast food.

Essas espécies estrangeiras são plantas Big Mac, iguais no mundo inteiro. Elas estão homogeneizando a flora do mundo. Você vai em cidades diferentes, de países diferentes, e vê as mesmas plantas nos jardins. É um absurdo do ponto de vista ecológico e ambiental.  

FC Brasil – Usar bambu nas construções, ter um minhocário em casa, criar uma horta coletiva no bairro. Todas são ações que têm intenção de ser sustentáveis, mas, em alguns casos, podem ter efeitos negativos. Como explicar que nem todo verde faz bem para o meio ambiente?

Ricardo Cardim – Vivemos hoje em um momento de transição. Saímos de uma época de plena destruição ambiental e desconhecimento das pessoas sobre isso e começamos a despertar para a importância de preservar o meio ambiente e como isso afeta nossa qualidade de vida. Ainda há muita gente que não tem acesso a informações de qualidade sobre meio ambiente e, por mais que tenha boas intenções, acaba caindo em “armadilhas verdes”.

O bambu é amido puro, uma grande refeição para bichos que comem madeira, como carunchos e cupins. Se não colocar muita química para evitar que ele seja atrativo para os insetos decompositores, o bambu vai se degradar em pouco tempo.

Se as pessoas percebessem a importância ambiental das cidades, entenderiam por que restaurar as florestas e a fauna no espaço urbano é tão necessário.

Isso acontece em madeiras tratadas, como o pinus, que têm metais pesados e se tornam tóxicas. Dependendo do tipo de tratamento que tiverem, o bambu e a madeira vão contaminar o solo e o lençol freático.

Outra questão é o minhocário: as minhocas usadas nas composteiras daqui são estrangeiras. Elas se comportam como espécies invasoras. O solo, por sua vez, é vivo, tem uma microflora enorme. Essa vida é fundamental para o planeta. Se desequilibrarmos isso, podemos estar dando um tremendo tiro no pé. Temos no Brasil uma série de espécies decompositoras que poderiam ser usadas no lugar da minhoca, como o piolho-de-cobra.

Se uma horta coletiva é criada em um bairro com muito tráfego de veículos de combustão interna, os alimentos ali passam a ter metais acima da média recomendada pela Organização Mundial da Saúde. Pesquisas apontam que hortas urbanas precisam ficar longe do tráfego de veículos, no meio de grandes praças ou com cinturões de árvores em volta, por exemplo.

FC Brasil – Você criou o método Floresta de Bolso, que cria pequenos espaços autossustentáveis de floresta nativa em áreas urbanas. Em alguns metros quadrados, o que era um canteiro vira um pequeno bosque, com plantas que crescem rapidamente e com baixa manutenção. Por que, na sua visão, restaurar biomas é inovar?

Ricardo Cardim – No Brasil, mais de 90% dos habitantes moram em cidades. Passamos por um processo de urbanização desenfreada e agressiva. Tem cidade que exterminou toda a vegetação nativa. O que sobrou foi por acidente, não por cuidado. Como todos moramos em cidades, não temos a chance de conhecer as nossas plantas nativas.

Essas espécies estrangeiras são plantas Big Mac, iguais no mundo inteiro. Elas estão homogeneizando a flora do mundo.

As pessoas não têm mais a possibilidade de compreender a flora original, por isso o Floresta de Bolso é inovador. É um projeto que propõe a restaurar, com critérios científicos, a floresta nativa dentro do ambiente urbano de uma forma descentralizada, em rede.

São plantações em pequenos espaços, porque sabemos que o urbano não deixou lugar para área verde. A gente tem que usar o que tem. A ideia é criar uma rede neural de florestas nativas, de forma que todos tenham árvores nativas perto de casa, criando um corredor ecológico de fauna e flora e serviços ecossistêmicos muito eficientes.

FC Brasil – Qual o caminho para regenerar a nossa relação com o planeta?

Ricardo Cardim – O caminho é, principalmente, a educação. Informar as pessoas sobre como elas podem ajudar na questão ambiental, seja ao votar melhor em um político ou aprendendo a usar o espaço na sua casa, no seu quintal, na sua calçada. Agindo localmente para resultados globais.

As pessoas estão motivadas, elas querem um ambiente melhor. Entenderam a emergência que estamos vivendo, mas lhes falta conhecimento para que possam extrair o máximo do potencial. Precisaríamos ter nas escolas ensino sobre biodiversidade.

Precisamos entender que meio ambiente não é só a Amazônia, as geleiras, as baleias e os golfinhos. É também, mas principalmente, as pessoas, e elas estão nas cidades. Se as pessoas percebessem a importância ambiental das cidades, entenderiam por que restaurar as florestas e a fauna no espaço urbano é tão necessário.


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