Quando a educação encontra a inovação

Apesar de estar na sala de aula a grande demanda e o grande desejo de ver melhorias, nem sempre é na classe que a inovação acontece

Créditos: Alona Horkova/ iStock

Leo Gmeiner 5 minutos de leitura

Quando pensamos em inovação na educação, imediatamente pensamos na sala de aula. Apesar de estar lá a grande demanda e o grande desejo de ver melhorias, nem sempre é na classe que a inovação acontece.

Neste artigo, vamos falar de inovação educacional nos mais diferentes aspectos, passando pelo pedagógico, claro, mas também pela gestão e por operações, por exemplo. Ao final, espero que esse conteúdo sirva de visão para a instituição em que você atua ou para levar para a escola em que suas crianças estudam.

Nos últimos anos, alguns países têm se destacado nesse tema, como a Finlândia, que proporciona ambiente menos formal e colaborativo, com individualização do ensino; Singapura, que adota muita tecnologia e focou na formação de professores para entregar uma educação melhor aos seus alunos; Nova Zelândia, que tem foco na aprendizagem centrada no aluno e na incorporação da cultura Maori no currículo escolar; e os Estados Unidos, que usam, há tempos, a aprendizagem baseada em projetos, ao lado da personalização do aprendizado e da tecnologia para sala de aula, para citar alguns.

Vale dizer que inovação não necessariamente usa tecnologia, mas é qualquer melhoria em produtos, serviços e processos. E é o que acontece na Alpha School, em Austin, no Texas, que foi fundada por MacKenzie Price há 10 anos.

Crédito: Alpha School

Lá, a educação – dependendo da faixa etária dos estudantes – é por projetos que envolvem as diversas disciplinas. Mas o que me chamou mesmo a atenção é que eles têm apenas duas horas de aula por dia. Isso mesmo! Duas horas para obter o mesmo conhecimento do período letivo integral, sem nenhum prejuízo nos resultados.

Ao contrário, no tempo restante, além do desenvolvimento dos projetos, os estudantes têm a chance de lapidar suas competências socioemocionais, melhorando as chances de terem mais sucesso no mercado de trabalho e na vida pessoal. Aqui no Brasil, a Lumiar segue a mesma linha, gerando interesse de outros atores no modelo também.

Em Pequim, o The Future School Program vai em um caminho semelhante, no que diz respeito aos projetos. Desde 2011, challenge-based learning (CBL) foi adotado e o formato de aula tradicional, com palestras de um professor, deixou de existir, dando lugar ao ensino e aprendizagem individuais, fazendo ótimo uso do poder da tecnologia.

The Future School Program (Crédito: InnoveEdu)

E, já que estamos falando de tecnologia, temos visto algumas iniciativas interessantes e outras verdadeiramente impactantes acontecerem.

Há cerca de 10 anos, realidade aumentada estava arranhando a superfície da inovação nas escolas. Um pouco depois, a realidade virtual bateu na porta, seguida da realidade mista, que combina ambas e que vimos com mais clareza com o lançamento do Apple Vision Pro.

inovação não necessariamente usa tecnologia, mas é qualquer melhoria em produtos, serviços e processos.

Mas, apesar do potencial de melhorar a aprendizagem – especialmente em conjunto com a personalização do ensino –, essas tecnologias têm custos que ainda inviabilizam sua adoção em escala.

Quem já usa esses ambientes imersivos, no entanto, aprecia a possibilidade de, por exemplo, aprender sobre uma determinada cultura por meio de viagens pedagógicas virtuais ou ver, em três dimensões, a molécula da água flutuando em frente aos olhos.

Por outro lado, quem produz essas tecnologias acredita que deixarão de ser interessantes, para alcançar o impacto que merecem, nos próximos dois anos.

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL APLICADA À EDUCAÇÃO

Ao falar em impacto na educação, impossível não pensar em inteligência artificial e em todas as suas aplicações em sala de aula. Na verdade, ela potencializa abordagens que já encontraram seu espaço, como a gamificação, que estimula os estudantes – como faz o Duolingo. Bem aplicada, a IA pode até dizer como eles se sentem emocionalmente, como faz a brasileira U4Hero.

A IA pode ainda dar novo impulso à tão desejada personalização do ensino – que tem o poder de melhorar o desempenho de cada estudante, ao entender como cada um aprende –, como faz a também brasileira Blox, por exemplo.

a análise de dados é mais uma tendência crucial que pode permitir, entre outras coisas, entender o jeito de cada um aprender.

Mas não é “só isso” que a inteligência artificial faz. Ela é capaz de muito mais, mas tem de ser usada de forma bem estratégica, para não correr o risco de reduzirmos o pensamento crítico dos nossos jovens.

Algumas aplicações possíveis são, por exemplo, analisar objetivos e características de estudantes adultos de idiomas e usar a IA para ajudar os professores a traçar as melhores estratégias para o desenvolvimento integral e mais rápido dessas pessoas, como tem feito, de forma ainda experimental, a Wort Idiomas.

Ou ajudar educadores a traçar planos de aula muitas vezes individualizados, a partir da compreensão da experiência de colegas e dos melhores resultados, o que tem sido feito no próprio ChatGPT. Ou, ainda, como faz a hispano-italiana Learn with Leo, para tutorar, em praticamente qualquer idioma, os estudantes em suas tarefas e estudos.

Um uso prático em sala de aula que me encanta muito foi quando professores, na contramão do pensamento regular, ao invés de banir o ChatGPT abraçaram a inovação, um ano atrás (o que é quase a eternidade para inteligência artificial), e passaram a analisar como os alunos pediam as informações à IA e, principalmente, como verificavam a veracidade e acurácia desse conteúdo.

Isso para citar somente algumas iniciativas. Tem muito mais por aí e muito, muito mais por vir.

Só para não terminar com a óbvia IA, a análise de dados é mais uma tendência crucial que pode permitir, entre outras coisas, entender, como nunca havia sido possível, o jeito de cada um aprender, as dificuldades peculiares, entender padrões e dar escala à educação de qualidade e efetiva – junto com a computação em nuvem – para que ela alcance até quem está onde não estamos acostumados a olhar.


SOBRE O AUTOR

Leo Gmeiner é pai de três e empreendedor há 20 anos, com quatro empresas diferentes ao longo desse período, sendo a mais recente a Sch... saiba mais