POR BREMNER MORRIS 

Em 11 de março de 2021, um NFT (token não fungível — uma espécie de certificado digital, estabelecido via blockchain, que define originalidade e exclusividade a bens digitais) criado pelo artista digital Beeple foi vendido por US$ 69 milhões na Christie’s, uma das empresas de arte mais importantes do mundo. Da noite para o dia, NFTs se tornaram o assunto mais comentado na área de economia criativa. Após uma onda impressionante de vendas a investidores de criptomoedas, o hype expôs ao mundo as oportunidades que a criptografia oferece aos artistas. Surgiu, então, uma nova criptoeconomia criativa.

Durante meu período no Patreon, vi o potencial de um modelo de monetização direto com o consumidor. Este modelo possibilita um ambiente em que artistas podem alcançar uma estabilidade de receita, através do envolvimento direto com suas comunidades, e que – além de conferir autonomia aos criadores – resultará em uma economia criativa melhor e mais satisfatória. Para que os artistas aproveitem mais os benefícios da criptografia, eles precisarão ir além dos NFTs e começar a construir um sistema mais coeso e inclusivo, em que todos possam participar. E então, poderão se concentrar naquilo que amam: produzir arte e agregar valor às suas comunidades.

NFTS SÃO APENAS UMA PARTE DE UMA CRIPTO REVOLUÇÃO MAIOR

Enquanto a fama dos NFTs aparentemente explodiu do nada, outro desenvolvimento de blockchain está ganhando força em segundo plano: o conceito de tokens sociais. Tokens sociais são criptomoedas personalizadas feitas por criadores — artistas, músicos, celebridades e outros — para realizar transações financeiras dentro de seus próprios ecossistemas de fãs e, sobretudo, promover conexões mais profundas com suas comunidades. Eles representam uma nova forma de monetização, elevando o conceito de modelo de assinatura a um novo nível. Fornecem a infraestrutura para um criador ter autonomia completa de sua economia, utilizando essa moeda para transações de serviços e bens, sejam físicos ou digitais.

O conceito de tokens sociais e NFTs não é novo. Os artistas sempre estiveram na vanguarda da adoção de novas tecnologias para se conectar com fãs. Em 2009, a banda britânica Radiohead foi pioneira na experiência direta com os fãs com o lançamento de seu álbum In Rainbows. E, em 2017, a cantora islandesa Björk recompensou quem comprou seu álbum Utopia com criptomoeda. Mas só recentemente foi possível para músicos como Portugal the Man cocriar economias independentes com suas comunidades através da criptografia.

Nos últimos anos, houve um grande investimento no desenvolvimento de softwares, redes e plataformas que são capazes de gerar NFTs e tokens sociais a um custo zero ou extremamente baixo. Isso difundiu a tecnologia e, logo, artistas começaram a fazer seus próprios experimentos. O músico JVCKJ lançou um EP e uma marca de moda de streetwear por meio de sua própria criptomoeda no início deste ano. Post Malone, por exemplo, montou uma liga de beer pong com fãs usando NFTs. Já a atriz Cara Delevingne arrecadou dinheiro para sua fundação leiloando um vídeo NFT no qual ela explora conceitos de propriedade e autoexpressão. Enquanto o empresário Jack Dorsey doou os US$ 2,9 milhões que recebeu com a venda de seu primeiro tweet como NFT para a instituição de caridade GiveDirectly. Embora tokens sociais e NFTs ainda sejam vistos atualmente como tecnologias separadas, estão surgindo serviços e produtos focados em criptografia que fornecem ferramentas para criadores construírem uma criptoeconomia sustentável. Um processo que começou quando o Patreon concedeu autonomia das microeconomias aos criadores, que agora estão prosperando com blockchain descentralizado.

OS BENEFÍCIOS PARA CRIADORES E ARTISTAS

Embora só tenhamos visto sua consolidação recentemente, é inevitável que a criptografia se torne parte integrante da economia criativa. A criptoeconomia beneficia artistas e não as grandes plataformas de tecnologia que têm lucrado com seu trabalho na última década. Com ela, os criadores não precisam ter legiões de fãs para ganhar dinheiro com seu trabalho, ela permite que a economia se dê de forma direta com seu público, em vez de depender de gigantes da tecnologia para servir de intermediárias. Além disso, a criptografia dá aos criadores o controle sobre seu próprio sucesso econômico e os ajuda a manter sua propriedade intelectual para sempre.

Há apenas alguns anos, fazer vídeos para o YouTube, produzir podcasts e manter blogs eram vistos como hobbies, não profissões. Agora, são formas viáveis de empreendedorismo. Universidades já ensinam criadores de conteúdo a gerirem seus próprios negócios. Já existem fundos de risco que investem na carreira de criadores iniciantes para ajudá-los a expandir os seus canais. Além das milhares de novas empresas que os ajudam com aspectos de relacionamento com os fãs e gestão de seus negócios. Antes, o desafio posto era a impossibilidade de criadores unificarem tudo isso em uma economia coesa que os acompanharia onde quer que eles se relacionassem com seus fãs.

Com criptografia, agora eles conseguem. Podem ter o controle de suas economias e criar moedas que agregam valor exclusivo aos fãs. Os apoiadores recebem tokens que podem ser usados para ter acesso a experiências e conteúdos exclusivos. Artistas, como o DJ e produtor Wax Motif, oferecem produtos e serviços utilizando sua criptomoeda. No mês passado, ele lançou o token $WAXM para construir uma conexão mais próxima com seus fãs e que conta com uma gama de benefícios. Estes benefícios variam: com a quantia de 75 $WAXM o fã do artista pode receber uma mensagem de feliz aniversário, ou até mesmo ter um encontro com seu ídolo pelo valor de 500 $WAXM. Como resultado, ele e sua comunidade trouxeram quase US$ 1 milhão para o $WAXM. Já a streamer Alliestrasza utiliza sua moeda em lives na Twitch em que joga cartas regularmente com seus fãs. Eles assinam a Twitch com a moeda dela e também as utilizam no sistema de gorjetas da plataforma, seja em doações para a própria streamer ou a outros membros da comunidade. O $ALLIE agora já soma US$ 1,2 milhão.

O interesse criado a partir da obsessão do mundo com os NFTs pode ser um divisor de águas para um retorno financeiro justo para artistas que tanto contribuem para a nossa cultura. Do ponto de vista do produto e da experiência do usuário, os NFTs estão apenas nos estágios iniciais do que se tornarão nos próximos anos. No futuro, eles serão muito mais ecológicos, reduzindo a grande quantidade de energia usada para construir blokchains (através de algoritmos como o Proof of Stake — PoS). Além de que serão interativos, o que sem dúvida, agregará um valor maior comparado aos colecionáveis antiquados do passado. E sobretudo, serão uma parte importante dessas economias, mas não a economia em si.

SOBRE O AUTOR

Bremner Morris é CMO e CRO do Rally. Anteriormente, foi diretor global de Mercado e Receita do Patreon.