POR FÁBIO CARDO

Enquanto o mundo tem 811 milhões de pessoas que sofrem com a fome e 132  milhões enfrentando insegurança alimentar, 931 milhões de toneladas de comida vão parar no lixo. Com isso, todos os recursos que foram utilizados na produção alimentar, incluindo água, uso da terra, energia, trabalho humano e capital, acabam também sendo desperdiçados. Este é o alerta que a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), deu no Dia Internacional da Conscientização sobre Perda e Desperdício de Alimentos, celebrado em 29 de setembro.

Segundo o economista-chefe da FAO, Massimo Torero, globalmente, 14% dos alimentos produzidos são perdidos entre a colheita e as vendas no varejo. Equivale a $ 400 bilhões por ano em valor de alimentos. A entidade estima que outros 17% são desperdiçados na fase de consumo doméstico (11%), food service (5%) e varejo (2%).

(Crédito: Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação)

O problema não para por aí: a perda e o desperdício de alimentos representam mais de 10% das emissões de gases de efeito estufa. Equivale a 3 bilhões de metros cúbicos de gás carbônico!

AÇÕES EFICIENTES PARA TRABALHAR AS SOLUÇÕES 

O diretor-geral da FAO, Qu Dongyu, declarou no evento que o problema deve ser combatido com a incorporação de inovações em toda a cadeia de alimentação para ampliar as chances de ampliar a oferta futura de alimentos, com melhor qualidade e equidade. “A cadeia produtiva de alimentos precisa incorporar melhores produtos, serviços, modelos de gestão e tecnologias para reduzir as perdas e desperdícios de alimentos. Isso levará ao uso mais eficiente de terras e de água, com impactos positivos nas mudanças climáticas e na qualidade de vida”, comenta o diretor-geral. “Não podemos continuar a perder 75 bilhões de metros cúbicos de água todo ano com a produção de frutas e vegetais que são perdidos”, complementa Qu.

Há uma extrema preocupação com as ações em torno dos compromissos assumidos para o atingimento de metas de desenvolvimento sustentável (ODS) estabelecidas mundialmente, previstas para 2030. Segundo Qu, o mundo tem apenas mais oito safras* (ou anos) pela frente para conseguir atingir as metas. 

O entendimento geral é que não há uma fórmula única para lidar com o desafio. Cada país e localidade deve buscar o envolvimento da sociedade e de entidades que trabalhem em conjunto na busca de soluções. 

Uma das iniciativas que a FAO promoveu recentemente foi a criação da Coalizão A Comida Nunca é um Desperdício, durante a Cúpula 2021 sobre Sistemas Alimentares. O Brasil se fez presente com a ABIA — Associação Brasileira das Indústrias de Alimentos, e com a ABIR — Associação Brasileira da Indústria de Refrigerantes e Bebidas não Alcoólicas, que assinaram o termo de compromisso de intensificar as ações em prol do atingimento das metas de desenvolvimento sustentável.

(Crédito: Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação)

REPENSAR HÁBITOS DE COMPRA E CONSUMO EM CASA É UM BOM COMEÇO

As pessoas devem ter consciência para comprar apenas o que consumirão, evitando as perdas devido a alimentos in natura ou processados que não são consumidos. E, caso o descarte seja necessário, buscar alternativas como caixas domésticas de compostagem, evitando que os alimentos parem em aterros sanitários, gerando mais emissões de gases de efeito estufa e riscos de contaminação de lençol freático com o chorume originado.

A prática se estende também à aquisição de alimentos fora do padrão estético, os “feios”. Frutas e legumes que acabam não sendo vendidos por estarem meio tortos, com cavidades, aparência não muito bonita. Felizmente algumas redes de varejo já pensam diferente e disponibilizam esses alimentos para a venda, e em alguns casos com valores inferiores atendendo consumidores com baixa renda.

(Crédito: Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação)

O chef italiano Massimo Bottura, que participa ativamente das iniciativas em torno da sustentabilidade na alimentação,  é enfático quanto a repensar a relação com os alimentos e a sustentabilidade: “Você deve mudar seu hábito de compra, de cozinhar e de comer os alimentos. Compre alimentos locais e sazonais, comece a mudar por si próprio”.

(*Essa métrica não se aplica ao caso brasileiro, onde, felizmente, chegamos a ter três safras por ano)

SOBRE O AUTOR

Fábio Cardo é economista de formação, atua em comunicação empresarial e empreendedorismo e é co-publisher do canal FoodTech da Fast Company Brasil.