POR FÁBIO CARDO

A biodiversidade na produção de alimentos é um tema mais do que urgente nos dias de hoje. Em tempos em que há grande esforço no aumento da oferta de alimentos saudáveis e em quantidade que atenda a demanda atual e futura de consumo, até o feijão, um dos itens saudáveis e mais presentes nas mesas dos brasileiros, está sob ameaça com a expressiva redução de plantações. A cultura está sendo substituída por outras commodities que são mais estáveis comercialmente e são mais seguras para os agricultores.

Segundo a FAO, desde o ano 1900, cerca de 75% da diversidade genética vegetal foi perdida, pois os agricultores em todo o mundo trocaram suas múltiplas variedades locais e tradicionais por variedades geneticamente uniformes e de alto rendimento. Hoje, 75% dos alimentos do mundo são gerados a partir de apenas doze plantas e cinco espécies animais. Das 250 mil a 300 mil espécies de plantas comestíveis conhecidas, apenas 150 a 200 são usadas por humanos. Apenas três itens — arroz, milho e trigo, contribuem com quase 60% das calorias e proteínas obtidas pelos humanos nas plantas. 

Neste cenário muito pobre de diversidade de alimentos e o desafiador futuro sustentável da alimentação mundial, a Ellen MacArthur Foundation publicou o estudo “The big food redesign: Regenerating nature with the circular economy (2021)”. O objetivo é promover a discussão sobre como as empresas FCMG (fast moving consumer goods) e grandes redes de varejo podem incentivar toda a cadeia de produção de alimentos a partir do design circular.

DESIGN CIRCULAR PARA ALIMENTOS: UM FUTURO EM QUE A COMIDA É BOA PARA A NATUREZA, AGRICULTORES E NEGÓCIOS

O design circular para alimentos é a combinação de design de alimentos com os princípios da economia circular — oferece uma estrutura acionável para redesenhar portfólios de produtos para uma natureza positiva. Abrange repensar conceitos de produtos, seleção de ingredientes e fornecedores, e embalagem. O estudo mostra que, combinando a seleção de quatro ingredientes e oportunidades de fontes de fornecedores, desbloqueia substanciais benefícios ambientais, econômicos e de rendimento.

O design de alimentos dá forma ao que será comido, assim como aos ingredientes que o compõem. Um longo processo de design sempre foi aplicado na indústria de alimentos para definir sabores, texturas, conteúdos nutricionais e aparência. Na sequência, estão as análises para a definição de ingredientes, seleção, cadeia de fornecedores e embalagem.

As definições neste processo de design partem das percepções de marketing das empresas. Uma infinidade de dados de consumidores coletados a partir de plataformas de CRM, ERP, focus groups, prateleiras inteligentes que indicam quando os produtos são retirados da prateleira, entre outras. Tecnologias implantadas pelas redes de varejo que, juntamente com as grandes indústrias, conseguem dar boas diretrizes sobre novos produtos que precisam ser criados para atender a demanda de mercado. 

Tais definições têm o poder de gerar impactos desde o campo — podendo ajudar na fixação de pequenos produtores rurais, nas redes logísticas e nas indústrias de suprimentos. Uma sequência positiva que precisa considerar as questões de sustentabilidade em todo o processo.

Economia Circular (Crédito: Wikimedia Commons)

A oportunidade de negócios a partir da adoção do conceito é bem real. As vendas mundiais de alimentos e bebidas orgânicos atingiram US $129 bilhões em 2019. As marcas de vida sustentável da Unilever cresceram 69% mais rápido do que os seus demais negócios. A pandemia acelerou ainda mais a busca por alimentos mais saudáveis. O time to market mudou sensivelmente, motivando as empresas a agilizarem seus processos de criação de novos produtos.

Sem essas análises de dados de mercado, a indústria não conseguiria, por exemplo, entender que os consumidores buscam opções de alimentos com menos açúcar, sal, aditivos químicos, conservantes, que agem diretamente na saúde humana. Ademais, preferencialmente os alimentos que consomem devem ter bom perfil de sustentabilidade e proteger a natureza.

NOVOS INGREDIENTES TÊM ALTO POTENCIAL DE COMPOR ALIMENTOS PROTEICOS E SAUDÁVEIS

Insetos e algas são ingredientes que devem ser somados às frutas e grãos tais como ervilhas, grão-de-bico e outros pulses com alto teor de proteínas. Itens que já compõem boa parte da produção de carnes vegetais. 

Ainda que de uso muito regional pelo mundo e sem alcance global, insetos e algas são itens com significativo poder nutricional. Para muitos, são as únicas fontes de proteínas disponíveis. Relatório da Comissão Europeia prevê que as algas podem representar 18% das fontes de proteínas em 2054.

SuSeWi é uma das empresas que desenvolveu tecnologia para crescer microalgas marinhas e transformá-las em ingredientes que fornecem um alimento natural, abundante e fonte regenerativa de proteína, Ômega 3 e muitos outros ingredientes. A espirulina é uma alga e uma das mais ricas fontes de proteína disponíveis. Alimentos ricos em proteínas como a espirulina desempenham um papel importante para fornecer alternativas às proteínas animais. Outra empresa que explora as algas, Spireaux , desenvolveu um biorreator compacto com a qual a espirulina fresca pode ser cultivada de forma muito mais eficiente e sustentável. 

Os insetos, por mais rejeitados que sejam nos países ocidentais, são alimentos altamente nutritivos e saudáveis, fonte com alto teor de gordura, proteína, vitamina, fibra, e conteúdo mineral. Fornecem benefícios ambientais em comparação com outros animais fontes de proteína. Insetos emitem menos gases de efeito estufa e menos amônia do que bovinos ou suínos, e requerem significativamente menos terra e água do que a criação de gado. 

Em maio de 2021, pela primeira vez, a Comissão Europeia aprovou um inseto como “novo alimento” na UE: as larvas de farinha amarelas secas, das espécies de Tenebrio molitor. Pode ser usado como inseto seco em lanches ou como ingrediente de alimentos, em uma série de produtos alimentícios.

A foodtech Ÿnsect transforma os insetos em ingredientes premium e de alto valor. Eles levantaram US$224 milhões em 2020 para construir a maior fazenda de insetos do mundo. Através de sua filial Protifarm, eles criaram AdalbaPro, o primeiro ingrediente alimentar do mundo feito de insetos, com produtos como concentrados e em pó.

Numa pegada mais leve e mais próxima de padrões ocidentais, até mesmo a jaca, fruta originária da Índia e que se deu muito bem no Brasil, passou a ser ingrediente da carne vegetal. A foodtech Fábrica Meatz lançou recentemente a primeira “carne louca”, receita tradicional de carne desfiada, feita da fruta. 

Esse lanche de “carne louca” é feito de jaca (Crédito: Fábrica Meatz)

Para produzir suas carnes vegetais, a Fábrica Meatz utiliza uma tecnologia própria chamada 3D True Texture Meatz. Associada a outros métodos de produção, garante a aparência, o sabor e a textura da carne animal com ótimo valor nutricional e saudabilidade. “No Brasil a jaca é abundante, mas ainda tratada como uma commodity de pouco valor. O que fizemos foi agregar tecnologia para valorizar o produto nacional”, diz Le Mendes, um dos fundadores da empresa.

Com tecnologia, foodtechs encontram soluções mais sustentáveis e saudáveis (Crédito: Fábrica Meatz)

A jaca é conhecida por seu alto teor antioxidante, sendo rica em carboidratos, potássio, cálcio, fósforo, ferro e vitaminas A e C. Sua fórmula inclui, além da fruta, azeite de oliva extravirgem, chá preto, e carvão ativado vegetal, além de nutrientes como ferro, vitamina B12 e D2. “No Brasil a jaca é abundante, mas ainda tratada como uma commodity de pouco valor. O que fizemos foi agregar tecnologia para valorizar o produto nacional”, diz Le Mendes, um dos fundadores da empresa.

A empresa teve o cuidado de buscar um local para se instalar que ficasse próximo dos fornecedores de matérias primas, reduzindo os impactos ambientais e favorecendo a economia local. Conciliou também em sua localização estar num eixo de fácil acesso aos principais mercados consumidores.

A visão sustentável da proposta do estudo de design circular da Ellen MacArthur Foundation certamente agrega boas análises para novos empreendimentos que visam a produção de alimentos. Impactos positivos para compor com diversas iniciativas para melhorar a oferta e qualidade de alimentos no mundo.

SOBRE O AUTOR

Fábio Cardo é economista de formação, atua em comunicação empresarial e empreendedorismo e é co-publisher do canal FoodTech da Fast Company Brasil