POR DENISE ELIAS

As frutas e legumes são essenciais no conjunto de alimentos saudáveis para o ser humano considerando todos os aspectos nutricionais, além de adicionarem às dietas cores, sabores e texturas. Dietas pobres baseadas em alimentos ultraprocessados e sem balanceamento entre proteínas, carboidratos, vitaminas e fibras, podem representar sérios riscos à saúde humana. Até aqui, nenhuma novidade.

Seja por desconhecimento da importância, seja por falta de condições de acesso a frutas e hortaliças por motivo de qualidade ou por questões financeiras, o consumo mundial desses alimentos está muito aquém das quantidades ideais apontadas pela Organização Mundial da Saúde. A OMS recomenda consumir ao menos 400 g desses alimentos diariamente, cerca de 146 kg ao ano. A quantidade é suficiente para obter benefícios de saúde e nutrição e ajudar a evitar o câncer gastrointestinal, doenças do coração e acidente vascular cerebral. 

E como anda o consumo de hortaliças e frutas no Brasil? A Pesquisa de Orçamentos Familiares – POF, realizada pelo IBGE com dados de 2018, aponta que a hortaliça que o brasileiro mais consome é o tomate, com 4,21 kg/ano. Se somarmos todas as hortaliças mais consumidas no ano, a quantidade chega a 23,77 kg por pessoa. Já o consumo total de frutas chega a 26,44 kg/ano. Somando ambos, temos 50,21 kg per capita, ou seja, pouco mais de 34% do total recomendado pela OMS. 

Consumo de Frutas e Hortaliças no Brasil - POF IBGE

(Crédito: HortiFruti Brasil)

O consumo de frutas e hortaliças no país se mantém praticamente estável ao longo dos anos, de acordo com a pesquisa. Aponta ainda que a aquisição de hortaliças é impactada por restrições orçamentárias e pelo aumento dos preços dos produtos.

Por outro lado, há uma demanda crescente por alimentos mais saudáveis, impulsionada pela pandemia. Consumidores nos grandes centros urbanos aumentaram a busca por essas opções, se dispondo a pagar um valor superior pela qualidade e por critérios de sustentabilidade inerentes aos produtos.

FAZENDAS VERTICAIS: PORTA DE ENTRADA PARA ALIMENTOS FRESCOS PRODUZIDOS INDOOR?

Frutas e vegetais tendem a ter valor de mercado mais alto por quilograma do que outros tipos de alimentos (produtos de origem animal são uma exceção). No entanto, eles também podem exigir mais trabalho do que muitos outros alimentos. Isso oferece oportunidades para que os participantes de toda a cadeia gerem emprego e renda, principalmente para pequenos produtores rurais localizados nos cinturões verdes dos grandes centros urbanos. 

A produção agrícola tradicional conta com alguns desafios de controle de pragas, logísticos e climáticos, que impactam diretamente na produtividade, qualidade e preço. A maior parte das hortaliças produzidas no Brasil são originárias de outros países, principalmente de clima temperado, onde as eventuais doenças patológicas não suportam o frio extremo e não proliferam. Clima bem diferente do Brasil, onde umidade e temperatura são constantes, dificultando o controle biológico e que acabam demandando o uso de defensivos agrícolas.

Isso já não se aplica à produção indoor, nas fazendas verticais. Os ambientes fechados e totalmente controlados das fazendas verticais, com sistemas de abastecimento de água, umidade, calor, luz e acesso humano reduzem a praticamente zero os riscos de produção e ameaças à qualidade das hortaliças e frutas.

Os grandes centros urbanos são os principais destinos para o negócio de produção de hortaliças e frutas em sistema indoor. Para os consumidores, as motivações são muitas: garantia de frescor, controle de procedência, sem risco de contaminação, ainda que com preços superiores do que dos produtos produzidos no campo.

A cidade de São Paulo conta com fazendas verticais desde 2019, por iniciativa e investimento pioneiro da Pink Farms. A empresa iniciou com um galpão de 750 m², dividido em várias salas hermeticamente fechadas para o cultivo de diferentes hortaliças, e hoje já expandiu seu espaço de produção. 

Outra iniciativa contou com o suporte da Embrapa Hortaliças para a empresa 100% Livre, varejista de hortifrútis baseada na cidade de São Paulo. A empresa produz hortaliças e condimentos, cultivados a partir de 2020 em sistemas de fazenda vertical e plant factory. Seus produtos são fornecidos para redes de supermercados e direto aos consumidores, poucas horas após a colheita.

Algumas outras poucas unidades de fazendas verticais são encontradas no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte, com tendência de expansão para regiões que têm difícil acesso a hortaliças frescas por questões logísticas e de armazenamento.

AVALIANDO OS INVESTIMENTOS

Segundo Ítalo M. Rocha Guedes, Pesquisador em Manejo da Nutrição de Plantas e Cultivos Sem Solo, na Embrapa Hortaliças, este modelo de agricultura indoor é uma opção que soma produção a outros sistemas convencionais ou orgânicos, aproveitando espaços subutilizados nas grandes cidades. Desta forma, reduz gastos com logística e, principalmente, reduz as perdas por transporte, que chegam a representar 40% da produção, ou perecibilidade dos alimentos.

Produção de hortaliças em fazenda vertical

Produção de hortaliças em fazenda vertical (Crédito: Italo Guedes)

“O empresário que pretende investir em produção indoor deve considerar os desafios do alto valor do investimento inicial em função de necessitar muitos equipamentos importados para a automação do processo de produção”, destaca Ítalo. Entre os principais diferenciais qualitativos dos produtos está a quase inexistência de contaminação dos alimentos provenientes do manuseio humano, dos cuidados com as plantas e colheita, o que depende diretamente do nível de automação do processo de plantio.

Sob o ponto de vista de viabilidade econômica, deve também considerar os custos do imóvel nas áreas urbanas, energia elétrica e água, que têm valores superiores aos de áreas rurais. As compensações vêm com o uso de painéis solares, reaproveitamento de água, logística e economia no uso de adubos e defensivos agrícolas. Segundo Ítalo, os processos de cultivo com hidroponia e aeroponia têm alguns outros custos mais reduzidos: consomem 10% da água e 40% do adubo necessários para cultivo em campo.

Outro ponto importante destacado por Ítalo é buscar opções de hortaliças que tenham maior valor agregado no mercado. Entre os itens mais recomendados estão as sementes de alta qualidade que podem ser produzidas sem o uso de agrotóxicos, para fornecimento inclusive a culturas orgânicas.

Quanto aos alimentos, devem ser ponderados na produção, por exemplo, o tomate, o tomate cereja, o pimentão e o morango (itens que demandam grandes quantidades de defensivos químicos na agricultura tradicional), itens saem das fazendas verdes 100% livres desses insumos e têm valor agregado mais alto. Ítalo recomenda também como sendo ideal complementar o uso do espaço para o cultivo de alface, rúcula e outras folhagens. Mesmo com valores de mercado reduzidos, o ciclo de produção desses vegetais é mais curto e ajuda no capital de giro.

MILHARES DE FAZENDAS VERTICAIS MUNDO AFORA

Muitos países com restrições de áreas agricultáveis e extremos climáticos encontraram as fazendas verticais como boas opções para terem acesso a hortaliças durante todo o ano. As safras são contínuas e o mercado fica menos dependente de importações nos períodos de sazonalidade. 

Os Emirados Árabes, por exemplo, são tradicionais grandes importadores de alimentos e hoje investem nas fazendas verdes mirando chegar a ter 60% de autossuficiência na produção de alimentos. Milhares de operações de fazendas verdes estão instaladas em todo o mundo – Japão, China, Europa, Cingapura, Canadá, entre outros, com novos investimentos em instalações e ampliações sendo anunciados continuamente.

Fazenda vertical em Moscou

Fazenda vertical em Moscou, usando lâmpadas de LED para acelerar o crescimento das plantas (Crédito: Mos.ru, CC BY 4.0)

Os Estados Unidos lideram mundialmente a quantidade de instalações de fazendas verticais. A quantidade passa de 2 mil estabelecimentos. O mercado estima que o negócio deve chegar a valer perto de US $3 bilhões até 2024, com crescimento acelerado dos negócios e valor de mercado. Entre os maiores vendors do mercado estão AeroFarm, Plenty, Green Spirit Farms e Bowery Farming, que fornecem soluções de automação e gestão das instalações.

TECNOLOGIA E CONHECIMENTO GARANTEM PRODUTIVIDADE E QUALIDADE

O mercado tem boas soluções de empresas que implantam as fazendas verticais com soluções turn-key, parcial ou totalmente automatizadas. Desde a semeadura, acompanhamento do crescimento, controle de luz, umidade, colheita e empacotamento. Processos integrados que visam a menor interferência humana. A adoção de todo o pacote de tecnologia de automação garante a produção de alimentos mais saborosos, com vida útil mais elevada e livres de contaminação.

A Artechno, empresa holandesa de engenharia, que atua neste segmento, somou o conhecimento de mais de 30 anos em agricultura tradicional para lançar em 2015 uma solução totalmente automatizada e modular de fazenda vertical, que é referência no mercado. 

Entre os produtos que oferecem ao mercado estão robótica, sistemas de irrigação, soluções de semeadura, linhas de colheita e soluções turn key para agricultura vertical e hidroponia de estufa, com módulos de produção que vão de 15 m2 até 20 mil m2. O foco da empresa não se limitou apenas aos equipamentos: a empresa investiu em processos de análise das plantas para poder definir os melhores insumos para obter boa produtividade com qualidade — mais produtos saborosos e com vida útil mais longa. 

Max van Zeijl, diretor da Artechno, destaca que as plantas crescem em média 15% a 50% mais rápido do que na agricultura tradicional (ao falar em dias até a maturidade para colheita) e rendem mais por m2. Em alguns casos, o uso de engenharia inteligente no processo de crescimento consegue aumentar a produção total em mais de 100%. “Na maioria das safras, vemos um aumento na vida útil de pelo menos cinco ou mais dias em comparação com o normal. Em muitas de nossas safras de teste conseguimos um sabor incrível e crocância decorridos 21 dias após a colheita”, ressalta Max.

Sistemas eficazes devem oferecer a melhor combinação de todos os fatores (automação, eficiência crescente, menor custo OPEX e integração total de todos os processos em um sistema de software). Max entende que em todos os países do mundo existem papéis diferentes para a agricultura vertical: em alguns será para a produção de alimentos, em outros será para tornar o processo de cultivo mais eficiente.

“Os sistemas também são usados ​​para germinação e propagação de mudas e plantas jovens. Isso é muito benéfico para a indústria de estufas, porque eles têm exatamente as plantas de que precisam, quando precisam”, destaca Max. As plantas jovens de uma fazenda vertical também são mais fortes e crescem mais rápido quando eventualmente fazem a transição para a estufa ou crescimento externo.

Outros casos de produção de mudas de cacau e de bananas em fazendas verdes são também encontrados nos Estados Unidos e na Europa, mantendo sob controle as principais pragas dessas culturas.

A tendência do negócio de fazendas verdes é muito positiva. No Brasil, a quantidade de fazendas verticais é ainda muito tímida, as perspectivas são mais de médio e longo prazos. Demandarão ainda mais soluções locais de equipamentos, processos e investimentos para que o negócio tenha expressão na oferta de alimentos.

SOBRE A AUTORA

Denise Elias é jornalista e colabora no canal FoodTech da Fast Company Brasil.