Signalgate: como transformar uma crise de segurança nacional em sucesso

Após o "Signalgate", o aplicativo de comunicação criptografada dispara nas paradas de downloads, enquanto o governo Trump tenta desviar a culpa

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Rob Walker 3 minutos de leitura

A controvérsia em torno do chamado “Signalgate” – quando altos funcionários do governo norte-americano acidentalmente incluíram um jornalista em um grupo de conversa no qual discutiam detalhes de um ataque militar no Iêmen – tornou-se o maior problema do governo Trump até o momento.

Mas também foi um momento sem precedentes para o reconhecimento do nome do aplicativo de comunicação criptografada Signal, colocando-o nas manchetes pelo mundo afora e transformando um erro de segurança nacional em um belo impulso para o marketing da marca.

Para começar, uma série de reportagens explicativas na mídia certamente apresentou a ideia de aplicativos de mensagens criptografadas para muitas pessoas que nunca haviam pensado muito no assunto, mas que agora estão aprendendo sobre “o aplicativo de bate-papo favorito de espiões e jornalistas”, como o "The Wall Street Journal" o descreveu.

Muita gente pode concluir que, se uma parte importante dos membros do gabinete do presidente dos Estados Unidos achou que o app era seguro o suficiente para discutir detalhes de um ataque militar, então provavelmente também é seguro o bastante para reclamar do chefe ou fofocar sobre os vizinhos. Afinal, a exposição das conversas não ocorreu por ação de hackers, mas por um erro de um dos usuários.

O Signal rapidamente subiu nos rankings de downloads das lojas de aplicativos, chegando a ficar entre os 15 aplicativos gratuitos mais baixados da App Store (antes estava no 49º lugar).

A recente cobertura da mídia também destacou as diferenças entre o Signal e o WhatsApp, da Meta. O WhatsApp tem mais de dois bilhões de usuários (supostamente), enquanto o Signal tem, segundo estimativas, entre 40 e 70 milhões de usuários mensais.

O Signal é uma entidade independente e sem fins lucrativos, além de ser um software de código aberto. Muitos especialistas em privacidade o preferem porque ele coleta menos dados dos usuários – e porque não pertence à Meta.

Os chefes dos dois aplicativos tiveram um desentendimento público recentemente: Will Cathcart, do WhatsApp, afirmou que seus protocolos de segurança são essencialmente os mesmos do concorrente. A presidente do Signal, Meredith Whittaker, refutou com veemência. “O Signal é o padrão-ouro em comunicações privadas”, disse ela em um post no X/ Twitter.

SIGNALGATE PROVOCA JOGO DE EMPURRA

Dito isso, é bem possível que o governo Trump – que não é exatamente conhecido por admitir erros – esteja procurando um bode expiatório. E isso já envolveu tentativas veladas de culpar a interface do Signal.

Em uma entrevista à Fox News, o conselheiro de segurança nacional Mike Waltz disse que assumia a responsabilidade por ter incluído um jornalista da revista "The Atlantic" no grupo por engano, mas perguntou: “você já teve um contato salvo que mostra um nome... e depois descobre que o número é de outra pessoa?”

Ele também especulou que o jornalista pode ter entrado no grupo “deliberadamente” ou por meio de “algum outro meio técnico”. Essas declarações confusas pareciam sugerir alguma falha ou vulnerabilidade no software, mas acabaram soando como uma desculpa.

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Outra preocupação é que a forte crítica aos funcionários do governo envolvidos possa respingar no Signal, sugerindo que haveria falhas no aplicativo. De maneira mais ampla, as críticas apontam que comunicações tão sensíveis deveriam acontecer em instalações especialmente projetadas, que, entre outras medidas de segurança, proíbem o uso de celulares por serem vulneráveis a ataques cibernéticos.

Além disso, as mensagens do grupo estavam configuradas para expiração automática, o que vai contra leis que exigem o arquivamento de comunicações oficiais. Grandes instituições financeiras operam sob regulamentos semelhantes.

O Signal é uma entidade independente e sem fins lucrativos, além de ser um software de código aberto.

Mas isso não sugere falhas em aplicativos como Signal ou WhatsApp, apenas indica que protocolos adicionais frequentemente descartam opções "fora do canal oficial" por padrão – um protocolo que, ao que tudo indica, não foi seguido neste caso.

Em um post no X/ Twitter, o Signal abordou o que chamou de "desinformação" em um memorando do governo que sugeria "vulnerabilidades" no aplicativo, mas que, na verdade, se referia a golpes sofisticados de phishing.

O post não mencionou o Signalgate ou o jogo de empurra-empurra político, mas deixou claro que o Signal está preocupado em defender sua reputação e esclarecer que, seja lá o que tenha dado errado, não foi uma falha técnica.


SOBRE O AUTOR

Rob Walker assina Brended, coluna semanal sobre marketing e branding. Também escreve sobre design, negócios e outros assuntos. saiba mais