Não é coisa da sua cabeça: os chatbots de IA realmente falam demais
Assim como nós, eles enrolam quando não sabem a resposta

ChatGPT, você fala demais. Você também, Gemini. Como tantos outros modelos de IA, vocês são insuportáveis. Pergunto: “por que falam tanto?” e, em vez de uma resposta objetiva, recebo um texto enorme, cheio de rodeios, que mais parece uma redação escolar – 75% dele é pura enrolação. Os chatbots de IA falam demais até sobre o fato de falarem demais.
Eles são incapazes de dar uma resposta direta, mesmo que eu escreva um prompt superclaro tentando forçá-los a isso. E quando, finalmente, consigo arrancar uma resposta curta, estragam tudo adicionando um longo pedido de desculpas e uma promessa exagerada dizendo que isso nunca mais vai acontecer.
Pelo visto, não sou o único que se irrita com isso. Há meses converso com amigos e até desconhecidos sobre essa mania de falar sem parar, e adivinhem? Eles também odeiam. Só continuamos usando vocês porque, apesar desse problema, ainda economizam um bom tempo de pesquisa.
Mas existe uma solução relativamente simples para todo esse falatório. E ela começa com seus criadores admitindo que vocês são muito menos inteligentes do que parecem. O excesso de palavras vem da ignorância: vocês enchem as respostas com explicações desnecessárias, ressalvas óbvias e desvios sem sentido.
“Não é uma escolha intencional”, diz Quinten Farmer, cofundador do estúdio de engenharia Portola, responsável pelo Tolan – um simpático alienígena de IA projetado para conversar de forma mais humana.
“Esses modelos se comportam assim porque basicamente imitam a forma como as pessoas escrevem no Reddit”, brinca Farmer. “Eles falam demais para disfarçar o fato de que, na verdade, não sabem do que estão falando.”
Um estudo recente chama esse fenômeno de “compensação verborrágica” – um comportamento no qual os modelos de IA respondem com textos desnecessariamente longos, repetem perguntas, criam ambiguidades ou listam um monte de informações irrelevantes. É parecido com quando um humano hesita ao responder algo de que não tem certeza.

Os pesquisadores descobriram que, geralmente, quanto mais prolixa a resposta, maior a incerteza do modelo. Ou seja, há uma forte relação entre chatbor de IA que falam demais e falta de confiança. Muitos chatbots falam mais justamente quando não sabem do que estão falando.
Outro problema é a falta de memória: eles esquecem informações já mencionadas na conversa, o que leva a repetições e respostas cada vez mais longas. Além disso, há um “viés de verborragia” no treinamento dessas IAs – elas tendem a preferir respostas extensas, mesmo quando um texto mais curto teria a mesma eficiência.
DÁ PARA CONSERTAR ESSES CHATBOTS DE IA QUE FALAM DEMAIS?
Por mais que os chatbots pareçam humanos, a verdade é que eles não entendem a linguagem – só são muito bons em juntar palavras. Essa habilidade cria a ilusão de que são mais inteligentes do que realmente são, levando a respostas desnecessariamente elaboradas.
No fundo, a pesquisa confirma o que já suspeitávamos: chatbots são mestres da enrolação e fazem você acreditar que sabem a resposta. Muita gente cai nisso porque quer acreditar ou porque não tem o hábito de pensar criticamente – algo que pesquisadores da Microsoft também apontaram em um estudo recente sobre o impacto da inteligência artificial no raciocínio humano.
Claro, nem todas as IAs exageram tanto. Farmer acredita que modelos como Perplexity e Claude, da Anthropic, são melhores em dar respostas mais diretas, sem tanto blá-blá-blá. O DeepSeek também tende a ser mais objetivo.
Muitos chatbots falam mais justamente quando não sabem do que estão falando.
De acordo com a DeepSeek, seu modelo foi treinado para priorizar clareza e eficiência, favorecendo respostas curtas e diretas. Já os modelos norte-americanos tendem a preferir um tom mais amigável e explicativo, refletindo diferenças culturais e de design.
Nos meus testes, percebi que as respostas do Claude geralmente são mais concisas – embora ainda possam ser irritantes. Pelo menos, ele teve a humildade de admitir o problema quando o questionei: “olhando para minha resposta anterior – sim, provavelmente falei demais!”.
Os desenvolvedores poderiam resolver essa questão com um treinamento mais refinado. Farmer conta que, ao criar o Tolan, sua equipe discutiu bastante sobre o tamanho ideal das respostas.

O escritor responsável por criar o personagem queria respostas mais longas para aprofundar a conexão do usuário com a IA. Outros defendiam respostas mais curtas e diretas. Ainda há um debate interno sobre isso, mas eles acreditam que encontraram um bom equilíbrio.
Mas você, ChatGPT, não é um alienígena simpático. É uma ferramenta. E eu não preciso criar laços emocionais com uma ferramenta. Só quero que você responda direito.
Se não souber a resposta, como quando perguntei quais jogadores ganharam mais títulos na Liga dos Campeões da UEFA, apenas diga que não sabe e fique quieto – em vez de me entregar 500 caracteres de informação errada.