Pra quem é o SXSW 2023?

Replicar informação é elaborar os contextos? As respostas aos questionamentos dos futuristas estão na nossa casa, mas quem vê? O olhar periférico e a conversa sobre conteúdo relevante tomam novos contornos em Austin

Crédito: Fast Company Brasil

Babi Bono 6 minutos de leitura

Meu primeiro SXSW foi em 2015. De lá pra cá, o evento mudou muito e o que buscamos com ele, também. Longe de ser um papo saudosista nessas linhas, o olhar precisa acompanhar o que é contemporâneo, mas a reflexão é sobre o campo da urgência em produzir informação (em cima da informação), que o tempo das redes sociais, do mundo e do trabalho nos imprime. Nunca tivemos tantos correspondentes, grupos de WhatsApp, materiais compartilhados entre os brasileiros que acessam fisicamente o festival. Um privilégio, sem dúvida, ainda mais se pensarmos sobre quem são realmente as pessoas que estão ocupando esses lugares. Há uma facilitação em muitas frentes também, além de um bom suporte para quem vem pela primeira vez. Inegável a rede de colaboração que se desenha esse ano, iniciada principalmente pelo grupo de mulheres que estiveram aqui ano passado. Há que se reconhecer esse movimento. 

Por outro lado, como será que está sendo percebida essa quantidade de conteúdo por quem não está aqui? Por ora, penso até em uma certa desconexão com a nossa realidade brasileira. Já escutei por aqui que tem veículo “flodando” de tanto artigo e fiquei refletindo sobre estarmos de fato cooperando com a nossa comunidade (comunicadores, criativos, publicitários…) ou infoxicando. E olha eu aqui, fazendo isso com mais um texto, que pensei várias vezes se valeria escrever ou não. Estamos gerando mais frustração para quem está longe ou mais acesso? Para quem está aqui, é mais ansiedade em produzir sem parar, é a egotrip de ser o primeiro a falar algo ou há uma reflexão em cima de uma informação? Não tenho essas respostas e quem me acompanha há algum tempo, ao longo desses eventos, sabe que prefiro a troca do que as certezas e escrevo como quem conversa no bar. 

O SXSW de quase 10 anos atrás endereçava, em primeira mão, os termos, as tendências e o futuro. O FOMO (fear of missing out) que a publicidade já sabe muito bem, foi um desses. O ano é 2023, pós-pandemia e muitas profecias lá de trás, estão presentes sem que a gente se dê conta, uma vez que já viraram comportamento: todos conectados em rede 24h/dia, aplicativos que transcrevem as falas dos palestrantes em tempo real, transmissões online impecáveis, os robôs ainda não são populares pra valer, mas já estão aí e tudo isso permeado pelos nossos dados, que já circulam sem controle por todas as Big Techs e geram avatares e personas com desenhos de todo nosso comportamento. Assim, como orientavam os futuristas daquela época, vamos trocando dados por conveniência para que a gente receba tudo cada vez mais mastigado. Nos dopamos de pílulas de dopamina com as redes sociais e a roda compressora do consumo – de produto e de gente – vai girando. 

Nesse mundo da conveniência do que os algoritmos entregam, vamos vivendo cada vez mais em bolhas de opinião e em comunidades restritas, onde o que é diferente pouco se mistura. Daí, nos últimos anos, o próprio SXSW trouxe o JOMO (Joy of Missing Out) para o lugar do FOMO e começou a falar “está tudo bem, pessoal, não precisa dar conta de tudo”. Saúde mental foi entrando na pauta fortemente, Burnout e os contornos de uma sociedade hiperconectada, que consome e gera informação o tempo todo, também. 

O lado otimista, que todo mundo sempre pede nas palestras dos futuristas, mesmo que a gente esteja precisando mais de alerta do que de colo, pode ser encarado como “acesso, horizontalidade da informação, alcance”, mas ainda com muitas aspas. Vou explicar. Quando Amy Webb (futurista) fala de convergência e não sobre ações individuais, penso pra quem é o acesso ao SXSW de fato? O que estamos convergindo quando escrevemos nossos artigos para a mesma bolha de sempre? Para quem estamos curando os conteúdos que estamos assistindo? Para quem apresentaremos nossos downloads? Só olharemos para essas respostas num campo da reflexão se sairmos da urgência e da replicação, e passarmos o foco da colaboração para cooperação. Fazer junto e fazer com gente diferente que está no campo prático, para além da caneta na mão.

Há alguns anos que falo sobre o evento ser para poucos. Sempre volto aqui nesse ponto sobre a questão da língua, diversidade e inclusão. A Babi de 2015 teve uma crise de ansiedade gigante pela pressão da produção, sem sentir a inclusão e pela pouca colaboração. A que veio esse ano, se viu flertando novamente com essa questão. Agora mais na pauta do “como a gente realmente faz chegar em quem precisa o que está acontecendo aqui?”, e isso não é de hoje.

Pra mim, é menos sobre a quantidade de textos ou downloads que vamos produzir e mais sobre compromissos que podemos assumir – e aí faço um gancho com Rohit Bhargava (futurista) quando ele diz que “precisamos ser otimistas para que o mundo mude”. Pensando na realidade do Brasil, não dá pra imaginar esse futuro melhor e urgente em curto prazo, se não falamos no acesso da favela a tudo que estamos fazendo, criando, trocando e produzindo. De que otimismo, ou para quem é esse otimismo? Entendem como tudo vai se conectando?   

Estou aqui, este ano, também para fazer pontes desse conteúdo com a favela, com quem nunca veio ao evento, ou quem acha que nunca conseguirá vir. E daí lembro da fala de Simran Jeet Singh, educador que abriu o SXSW 2023, e sua provocação de “como podemos transformar raiva em sabedoria”. E lembro que Renê Silva, Pamela Carvalho, Raul Santigo, Marcelo Rocha, Roberta Camargo, Dayrel Teixeira são só alguns exemplos de parceiros de uma nova geração das favelas, que poderiam trazer infinitas respostas a essa questão. Eles mobilizam o país inteiro em pautas que vão de pacto climático global, a crypto e favelas, passando por creator economy. Mas eles não estão aqui. As respostas aos questionamentos dos futuristas estão mais perto do que imaginamos, mas elas só se darão quando a favela estiver no SXSW de corpo e pauta presentes, ou continuaremos sendo a maior delegação do festival, porém com olhar distópico da aplicação dos conceitos perante a nossa realidade de mercado. 

Na busca desenfreada por sermos todos marcas de nós mesmos, ou dos lugares e cadeiras que ocupamos, a gente desconecta da essência, da pausa e do outro, que são fundamentais para sermos lente do aprendizado que acessamos quando estamos num evento como esse. Que a colaboração que tem rolado se reflita em cooperação quando voltarmos ao Brasil, em escalabilidade, pontes de acessibilidade e que, quem sabe, no próximo SXSW, as portas estejam mais abertas para a inclusão. Que a quantidade de conteúdo traduza mais do que insights, mas compromissos com a inovação dos acessos.

O SXSW 2023 está diferente. Eu ainda vou falar mais sobre isso aqui na Fast Company Brasil, quando o festival acabar. Só não tinha como começar a escrever sobre ele, sem antes escrever sobre nós. 


SOBRE A AUTORA

Babi Bono é cria do Morro do São João (RJ), jornalista, publicitária e estrategista criativa. É fundadora da Lemme Content e Líder de ... saiba mais