SXSW 2025: o declínio do império americano? (e outras perguntas que me levam a Austin)

A atmosfera em Austin não é mais de pura celebração tecnológica. É como se estivéssemos todos caminhando sobre um campo minado geopolítico

Crédito: Fast Company Brasil

Vanessa Mathias 9 minutos de leitura

Esse frio na barriga pré SXSW me é conhecido – volto como quem reencontra um velho amigo que sempre me faz pensar. Lá já dei palestras algumas vezes, organizei meetups, assessorei clientes, organizei jornadas – e esse ano também, tudo ao mesmo tempo. Por isso, essa época é uma avalanche na minha vida. 

São essas borboletas no estômago de esperar o date – que, nesse caso, é toda comunidade que se organizou ao redor do festival que eu amo reencontrar. Na White Rabbit fazemos uma curadoria extensiva que reflete o que o festival nos traz esse ano.

Mas aqui hoje, contradizendo minha própria cartilha, queria aproveitar para comentar a minha curadoria pessoal – o que eu busco e gostaria de encontrar e aprender mais no evento. Menos previsões, menos análise macro, mais intencionalidade.

UM FESTIVAL NO DIVÃ DA GEOPOLÍTICA

A atmosfera em Austin não é mais de pura celebração tecnológica. Sinto uma tensão palpável, como se estivéssemos todos caminhando sobre um campo minado geopolítico.

Se a grandeza dos EUA é irrefutável, a supremacia, não. E se a ascensão meteórica da China desafia a hegemonia norte-americana secular (um dos principais movimentos do século), e os EUA lidam muito mal com um mundo mais multipolar..

A fragilidade de todo sistema me lembra "Mr. Robot", ou "Não Olhe para Cima". Porém, tenho dúvida de quem é o mocinho que salva o mundo inteiro no final, ou se é que se salva. Dessa vez, o título seria algo como o filme homônimo "O Declínio do Império Americano", com mais drones, algoritmos e doramas. Afinal, a tecnologia é o pivô da mudança do século.

Na programação deste ano, a ausência de grandes nomes das big techs é notória. Então fico com pensadores como Scott Gallaway, Douglas Rushkoff e a própria Amy Webb que corajosamente endereçam os riscos de concentração de poder e a falta de transparência. Eu estarei de caderninho a postos, com aquele alívio quando você sente que os monstros que atormentam a sua cabeça também visitam a cama de outras pessoas. 

TECNOFEUDALISMO: A IDADE MÉDIA DIGITAL

Em 2020, tropecei no termo "tecnofeudalismo" na capa de um livro de Rodrigo Nunes. Um conceito tão bom que não é preciso explicar. Depois popularizado por Yanis Varoufakis em 2022 é tão, tão atual. 

Sabe aquela sensação de que o algoritmo te conhece melhor do que você mesmo? Ou quando você percebe que está preso em um ciclo de notificações? E quando nem lembra ter comprado aquela blusinha que te perseguiu por sites e plataformas … chegou de repente na sua casa? Fui eu que comprei?

É disso que se trata o tecnofeudalismo: a transformação da nossa atenção em moeda e a ascensão de novos senhores feudais digitais.

um dos principais movimentos do século, a ascensão meteórica da China desafia a hegemonia norte-americana.

Sinto que poderia fazer algo – como um piquete, uma greve de WhatsApp? –, mas sou refém funcional das plataformas. Uma camponesa que troca minha colheita de dados em troca de proteção – e comunicação.  

A conivência entre líderes tecnológicos e governos na moderação de conteúdo e disseminação de informação escancarou uma verdade incômoda em mim, e talvez em vocês também: em vez de espaços públicos digitais, temos feudos privados, regidos por interesses comerciais e políticos. Com mais poder que o Estado e a Igreja juntos. E nós, eu e você, somos só os camponeses. (Musk: if you are reading this, not you!)

É por isso que estou de olho em como o festival aborda essa questão. A escolha de Jay Graber, CEO do Bluesky, como keynote speaker, pode ser um sopro de ar fresco. A rede social descentralizada já conquistou mais de 28 milhões de usuários desde seu lançamento, em fevereiro de 2024, prometendo devolver aos indivíduos o controle sobre suas interações online.

Jay Graber, CEO do Bluesky (Crédito? Divulgação/ Fast Company Brasil)

Sua palestra, "The Future of Social” (O futuro das redes sociais) não deve realmente falar sobre o futuro das redes sociais. Mas é lá que devemos ver um debate sobre como plataformas abertas podem desafiar o status quo imposto pelas big techs, oferecendo aos usuários mais autonomia e privacidade.

Na minha agenda, que está mais lotada que o Pete's Piano Bar, uma palestra só é inegociável: “Weirding the Digital: An Invocation" (algo como Estranhando o digital: uma invocação), com Douglas Rushkoff. Não espero apenas uma apresentação, mas sim uma experiência quase mística, uma convocação.

O profeta que nos alertou sobre a importância de "program or be programmed" (programe ou seja programado), retorna para nos confrontar com a nova encruzilhada digital. Será que seria prompt ou be prompted?"

Douglas Rushkoff (Crédito: Divulgação)

Sua voz ressoa com uma clareza singular, já que fala de tecnologia e bilionários com a autoridade de quem conhece os bastidores e a alma da máquina, de onde consegue extrair insights que escapam ao nosso radar.

Para sair com (talvez) uma visão mais prática, quero assistir também “Featured Session: Rebooting AI from the Ground Up” (Reiniciando a IA desde a Base), que traz uma pesquisa com cinco mil pessoas críticas à IA e sugestões práticas do que fazer agora, assim como do Neil Redding que explora como a IA pode co-criar nossa realidade.

Também está na lista "Reclaim, Reframe, Reimagine: AI Design for Human Agency" (Recuperar, reenquadrar, reimaginar: design de IA para a agência humana), com uma cientista do Google AI.

Afinal, design está cada vez mais tirando o protagonismo dos humanos, nos tratando como meros receptores passivos de ferramentas. Como podemos, em vez disso, desenhar um novo universo de tecnologias possíveis, valorizando a criatividade – humana, não-humana e mais que humana?

HACKEANDO O CÉREBRO: NEURODIREITOS NO DIVÃ

O impacto da tecnologia no cérebro é minha obsessão atual. Sinto na pele, no osso e na massa cinza a dificuldade de me concentrar em um livro. A dopamina me acorrenta ao celular, assim como noto o olhar vidrado da minha filha diante de desenhos hiper estimulantes e o nada sutil grito de abstinência de crack ao desligar. Nossos circuitos neurais efervescem juntos em busca de dopamina barata. Mas espera aí: quem autorizou essa mudança no meu cérebro? Eu não fui.

No SXSW, pretendo aproveitar a presença de cientistas e pesquisadores para aprofundar essa discussão. Aliás, sempre comento que os primeiros a sentirem o zeitgeist são os artistas – e o curta-metragem "Neuro" parece ser um bom ponto de partida.

"Neuro", curta metragem de Wes Ellis (Crédito: Divulgação)

Quais são os limites éticos e os direitos individuais diante dessas inovações? Será que já estou dependente da IA para escrever um simples parágrafo? (ah sim, obviamente eu mandei a IA revisar esse texto antes de publicar e já estou completamente dependente!).

E se a IA já está mudando meu cérebro, imagine quando tivermos implantes cerebrais. Ah, espera, o celular já não é um implante? (podemos passar uma tarde discutindo só isso).

Também quero ver palestras sobre brain enhancement com neurocientistas, filósofos e eticistas debatendo o acesso do consumidor a novas tecnologias que aprimoram nossa saúde e desempenho neurológico. Como equilibrar inovação com responsabilidade ética?

Se não tiver a solução, ao menos quero descobrir quem processar para voltar a ler livros vorazmente.

A SUPERFICIALIDADE VERDE

O SXSW incluiu uma trilha dedicada às mudanças climáticas e à sustentabilidade. Mas, sinceramente, o tema ainda me parece secundário. Aliás, terciário. Aliás, lá no fim das prioridades da curadoria. Fica aqui um sonho: imagina se todos os thought leaders e talentos selecionados para falar de funil de marca e estratégia de links patrocinados fossem alocados para evitar o cataclisma? Menos blusinha, mais oxigênio?

Tenho certeza de que não sou só eu que chego em Austin já soterrada por pacotes da Amazon previamente encomendados. O que torna quase irônico e absolutamente incoerente assistir à palestra de Kara Hurst "How Big Tech is Redefining the Future of Energy and AI" (Como as big techs estão redefinindo o futuro da energia e da IA).

A diretora de sustentabilidade da Amazon e outros líderes da indústria energética, discutem como eles (corporações, startups e empresas de energia) estão desenvolvendo tecnologias de ponta e liderando esforços colaborativos para uma nova era energética. Vão passar pano? Óbvio. Vamos aprender algo novo? Talvez.

em vez de espaços públicos digitais, temos feudos privados, regidos por interesses comerciais e políticos.

Também quero ver “The Quest to Capture Carbon and Bend the Curve” (A busca para capturar carbono e mudar a curva), sobre tecnologias para capturar carbono da atmosfera, e "How Today’s Factories Are Turning Green" (Como as fábricas estão se tornando "verdes").

Não acho que essas iniciativas representam uma mudança estrutural verdadeira. Falar sobre iniciativas "verdes" sem abordar os padrões insustentáveis de consumo nos EUA é perpetuar a ilusão de que ajustes incrementais são suficientes.

Sabe quantas palestras endereçam na programação o problema do consumo? 0. Zero. Nada. Niente (e que ninguém tire foto da montanha de pacotinhos da Amazon – julgue a mensagem, não o mensageiro)

O RESTO DO MUNDO… E NÓS

Apesar dos esforços louváveis do festival para diversidade, a curadoria ainda é americanocêntrica. Para sair disso, é preciso intencionalmente buscar na sua agenda opções. Palestrantes quenianos, formas ancestrais de olhar tecnologias de ponta ou povos originários tentando falar a linguagem do homem branco a repeito do clima terão minha atenção. Mas, e os brasileiros?

Se marcamos presença na plateia, cada vez mais atuamos também nos palcos. A Lu Bazanella, minha sócia, e eu estamos há alguns anos na programação. Venha nos ver no meetup da economia criativa – aliás, traga os gringos para conhecer nossa comunidade – é o principal encontro que temos na programação oficial como embaixadoras do SXSW auto-declaradas.

Estaremos na Casa SP, falando do nosso livro "Reimaginação Radical", junto com Rohit Bhargava, um dos principais featured speakers do festival. A ideia é podermos ser capazes de ver futuros mais promissores!

SP House no SXSW 2024 (Crédito: Governo do Estado de São Paulo)

Pela primeira vez, teremos dois features speakers brasileiros (o sempre presente e genial Ronaldo Lemos e o Cristiano Amon). A Casa SP repete seu sucesso, atraindo estrangeiros de forma intencional. Estarei por lá no happy hour dia 8. O Itaú volta como patrocinador e, dessa vez, Rodrigo Montesano vai explicar a estratégia por trás desse patrocínio, na palestra "Brand Activations abroad" (Ativação de marcas no exterior).

Minha agenda no SXSW tem bem pouca palestra hoje em dia, estou em geral com meu grupo otimizando o que for fora das palestras (o YouTube e eu entramos em date eterno pelos dias seguintes ao festival). Mas lá mesmo estou para poucos temas acima, e você me encontra junto com as pessoas da nossa missão – entre a Amazon Prime, a casa da Nasa, o Museu do Futuro de Dubai, o SXSW Expo e certamente o XR Experience – meu lugar favorito no SXSW. 

E, claro, nas conversas de corredor, banheiro e bar: um caldeirão de ideias, tensões e contradições com a comunidade mais interessante que eu conheço. Dessas filas, saímos de lá com mais perguntas do que respostas – porque perguntas não são cautelosas – são sim, corajosas.


SOBRE A AUTORA

Vanessa Mathias é co-fundadora da White Rabbit e autora do livro "Reimaginação Radical". saiba mais