Deixaríamos de comer carne se soubéssemos que animais têm consciência?

Descobertas recentes sugerem, mais do que nunca, que os animais não humanos são capazes de sofrer

Crédito: Luke Stackpoole/ Unsplash

Brian Kateman 4 minutos de leitura

Os animais são capazes de experenciar o sofrimento? Essa é uma pergunta que vem sendo discutida nas salas de aula e nas mesas de bar há séculos, pelo menos desde que o filósofo Jeremy Bentham levantou essa questão, há mais de 200 anos.

No mês passado, um grupo de cientistas se manifestou afirmando que há um "forte respaldo científico" de que eles são capazes de ter sentimentos.  

Quando foi apresentada na Universidade de Nova York, a Declaração de Nova York sobre Consciência Animal  foi assinada por cerca de 40 cientistas de universidades de todo o mundo, de várias disciplinas relevantes, incluindo neurociência, ciência ambiental, biologia, psicologia e filosofia. Em 7 de maio, o número de assinaturas havia aumentado para 231. E elas continuam chegando.

A declaração afirma que há "forte respaldo científico para atribuições de experiência consciente a outros mamíferos e pássaros" e que "a evidência empírica indica pelo menos uma possibilidade realista de experiência consciente em todos os vertebrados... E em muitos invertebrados". 

O ponto final da breve declaração é um imperativo ético: "se há uma possibilidade realista de experiência consciente em um animal, então é inaceitável ignorar essa possibilidade nas decisões que afetam esse animal".

EXPERIÊNCIA ANIMAL

Por muito tempo, a possibilidade da senciência animal – a capacidade de experimentar sensações e sentimentos – foi completamente descartada pela sociedade em geral, e ainda hoje o é por muita gente. 

Se reconhecêssemos e nos preocupássemos coletivamente com a experiência dos animais, não teríamos o enorme setor de carne, laticínios e ovos que temos. Não caçaríamos por esporte, nem usaríamos sapatos e jaquetas feitos de couro bovino. 

Não faz sentido, do ponto de vista científico, que somente uma espécie seja capaz de ter experiências subjetivas. 

Há muito tempo temos evidências de que pelo menos alguns animais não humanos podem sentir, tanto física quanto emocionalmente. Todos os mamíferos, como os seres humanos, têm uma estrutura de sistema nervoso semelhante, o que sugere que a maneira como seus cérebros processam a dor é semelhante à nossa. 

Já vimos animais reagindo à dor, soltando gritos que qualquer outro animal reconheceria como um sinal de angústia. Até mesmo animais com fisiologia muito diferente da nossa, como os polvos, demonstraram a capacidade de formar relacionamentos sociais. 

No material de apoio da declaração, os autores enfatizam que somente os últimos cinco a 10 anos trouxeram uma série de descobertas importantes e, às vezes, impressionantes sobre a possibilidade de senciência animal.

Crédito: Reprodução/ Redes Sociais

No entanto, até o momento, a humanidade conseguiu explicar por outros caminhos todos os comportamentos e a fisiologia observáveis que sugerem a senciência. 

O filósofo francês René Descartes apresentou a ideia de que os animais não humanos seriam meros autômatos – essencialmente, apenas máquinas que podem responder a estímulos por reflexo, mas que não experimentam nada, nem física nem emocionalmente. É um argumento sem fundamento, mas que resiste à crítica. 

é impossível provar definitivamente como é uma experiência para qualquer ser vivo, exceto para nós mesmos.

Não há evidências que sugiram que, embora muitos animais tenham nervos e cérebros muito parecidos com os nossos, eles não experimentam de fato sensações como nós. Não faz sentido, do ponto de vista científico, que uma espécie, e somente uma espécie, seja capaz de ter experiências subjetivas. 

E, no entanto, esse é um argumento usado para deslegitimar praticamente qualquer evidência de senciência animal como sendo apenas um reflexo mecânico. Qualquer comportamento social é apenas um mecanismo de sobrevivência da espécie; qualquer expressão é apenas uma resposta automatizada sem nenhum sentimento real por trás.

SEM UMA RESPOSTA DEFINITIVA

Há outra ideia na filosofia, entretanto, que apresenta uma resposta a essa teoria abrangente. O "problema das outras mentes" afirma essencialmente que, sem experimentar algo, você nunca terá como saber se isso é verdade. 

Nunca saberemos se as lagostas, por exemplo, podem sentir dor, porque nenhum de nós jamais se tornará uma lagosta. Mas, por essa lógica, também nunca saberemos o que nossos semelhantes sentem, se é que sentem alguma coisa. Eles podem nos dizer como se sentem, mas, hipoteticamente, podem estar mentindo. 

Se o mundo estiver esperando uma resposta inequívoca para a questão da senciência animal, nunca agiremos. Afinal, é impossível provar definitivamente como é uma experiência para qualquer ser vivo, exceto para nós mesmos. 

Mais pesquisas podem mudar as probabilidades que se atribui à senciência, mas o mais próximo de uma resposta definitiva que provavelmente teremos são "amplos pontos de concordância" compartilhados.

A declaração foi criticada por ser mais um posicionamento do que uma constatação científica, mas os cientistas não estão fazendo nenhuma exigência. Não estão nos dizendo para acabar com a pecuária, não estão processando fabricantes de couro natural nem pedindo que mudemos nossos hábitos.

Eles estão pedindo apenas para ouvirmos suas descobertas e nos preocuparmos com suas implicações. Será que finalmente estamos prontos para isso?


SOBRE O AUTOR

Brian Kateman é cofundador e presidente da Reducetarian Foundation, organização sem fins lucrativos dedicada a reduzir o consumo de ca... saiba mais